A vida espiritual dos cristãos tem sido retratada de muitas maneiras: uma guerra espiritual, uma corrida atlética, um caminho estreito e assim por diante. Todas essas representações nos ajudam a imaginar o inimaginável: como uma criatura humilde e pecadora pode se erguer do pó e, no fim, unir-se ao seu Criador. Isso é realmente difícil de imaginar, levando em conta a condição decaída do homem e o estado atual da sociedade em que vivemos.
São João Clímaco desenvolveu uma imagem que lembramos principalmente durante a Grande Quaresma. Ele usa como modelo a escada da ascensão divina revelada a Jacob no Antigo Testamento. Não vou me aprofundar na descrição clássica de seu método, pois você pode encontrá-la facilmente em qualquer livro sobre a Grande Quaresma, mas me concentrarei em descobrir um significado mais profundo desse “artifício” divino, se assim podemos chamá-lo.
O primeiro e necessário passo em nossa jornada é definir que tipo de escada é essa. Hoje em dia, utilizamos diversos tipos de escadas e dispositivos que nos auxiliam a alcançar níveis mais altos: escadas convencionais, andaimes, escadas rolantes, elevadores e muitos outros. Para melhor compreensão, contarei uma história. Há alguns anos, fiz uma breve viagem ao México e, aproveitando alguns dias de folga, decidi visitar o Santuário da Virgem de Guadalupe, tão venerado pelos mexicanos de ambos os lados da fronteira. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a própria estrutura da igreja. Na Tradição Ortodoxa, as relíquias de um santo ou de qualquer outra relíquia sagrada são expostas de maneira solene, com uma lamparina de óleo sempre acesa ao lado e geralmente situadas em um local de destaque na igreja, para que os fiéis possam venerá-las com facilidade.
Neste caso, a igreja era tudo menos tradicional. Tratava-se de um prédio moderno, semelhante a qualquer igreja protestante americana, com cadeiras, palco e tudo mais. A própria relíquia, o sudário, estava colocada atrás do altar, em uma espécie de corredor pelo qual os fiéis precisavam passar para vê-la. Mas o aspecto mais surpreendente era uma esteira rolante que corria nos dois sentidos em frente ao Sudário. Assim, os fiéis que vinham até ali não podiam sequer tocar na relíquia, muito menos beijá-la como estamos acostumados. Em vez disso, tinham que se contentar em passar em frente ao ícone na velocidade constante proporcionada pela escada rolante elétrica.
O motivo pelo qual menciono isso é que alguns cristãos acreditam que o caminho para Deus é de fato como uma escada rolante: basta subir nela e ela o levará em segurança ao seu destino. É segura, à prova de fogo, à prova d’água, infalível e nada pode impedi-lo de alcançar seu objetivo. Sola fide, apenas acredite e você chegará lá. Tudo o que você precisa fazer é aproveitar a jornada.
A versão da escada de São João Clímaco é radicalmente diferente. Em primeiro lugar, não é elétrica. Se você quiser subir, terá que subir os degraus da maneira tradicional, um degrau de cada vez. Isso exige esforço da nossa parte; não somos “levados” ao céu contra a nossa vontade, mas, na verdade, somos convidados a ascender conquistando seus degraus, as virtudes, uma a uma. Deus está lá para nos proteger, para nos ajudar, assim como a Theotokos (Mãe de Deus), o anjo da guarda e os santos, mas eles não podem subir em nosso lugar. Suas intercessões e orações tornam a ascensão mais fácil, mas sem a nossa própria vontade de subir, não nos levantaremos um centímetro sequer do chão. Deus lançou do céu a escada para nos levar para cima, mas não nos fará subir a menos que queiramos.
Em segundo lugar, a escada não é feita de aço indestrutível e não possui recursos de segurança. Ela sequer tem um corrimão, mas é uma pequena estrutura de madeira que se estende pelo céu de uma forma muito desequilibrada. No geral, não é muito atraente para os não iniciados. Quem gostaria de subir uma escada tão instável? É por isso que, para caminhar com segurança nela, é preciso treinamento, é preciso aprender a escalá-la, caso contrário, pode-se cair, e não há rede de segurança. O cristão precisa ser um alpinista habilidoso, que desenvolveu suas habilidades passo a passo por meio de treinamento meticuloso. Ele precisa de força, equilíbrio e, acima de tudo, uma vontade inabalável de perseverar em seu treinamento. O homem moderno carece especialmente disso. Se observarmos algumas estatísticas, 90% das pessoas que se matriculam em uma academia desistem em 90 dias. O motivo: falta de motivação, falta de vontade de se comprometer e assim por diante. É difícil começar algo, mas ainda mais difícil continuar.
Tornar-se cristão é fácil; permanecer cristão, no entanto, exige exercício. Um atleta cristão precisa jejuar não apenas durante a Quaresma, mas durante todo o ano, para que, quando chegar o período de jejum, seu corpo esteja adaptado e ele não desista após duas semanas. Ele precisa orar diariamente para que, quando chegar a hora da Liturgia Dominical, não reclame da duração da cerimônia ou da dificuldade de ficar em pé ou ajoelhado. E poderíamos continuar indefinidamente. Sem exercício contínuo, sem estar espiritualmente em forma o tempo todo, a subida da escada é uma empreitada perigosa e a pessoa pode se ver despedaçada no chão se o pior acontecer.
Outra característica da escada é que seus degraus não são uniformes. Cada degrau tem uma altura diferente, o que a torna ainda mais difícil. Vemos isso representado na iconografia. Mas não é só isso; curiosamente, para cada pessoa, o mesmo degrau pode parecer ter uma altura diferente. O primeiro degrau pode parecer ter 7,5 cm para mim e talvez 25 cm para João. Por quê?
Os degraus representam as diferentes virtudes e, para cada um de nós, elas trazem uma dificuldade pessoal diferente. Por exemplo, o degrau da castidade seria difícil de subir para um adúltero. O degrau da humildade seria difícil de alcançar para uma pessoa orgulhosa e presunçosa. O jejum seria difícil de alcançar para quem gosta de comer muito, e assim por diante. Para cada um de nós, existe um passo específico que é o mais difícil. Um bom exercício espiritual seria encontrar esse passo em nossas vidas e tentar superá-lo.
Para todos nós, porém, existe um degrau no topo que é o mais difícil de alcançar. No livro de São João, ele é identificado como o passo do amor. Por que o amor? Pois: [diz o Apóstolo] “Não cometa adultério, não mate, não roube, não dê falso testemunho, não cobice;” e, se há algum outro mandamento, ele se resume nesta palavra: “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Romanos 13:8-9). Todo o Evangelho está contido nesta única palavra. Ao cumpri-la, cumprimos nosso propósito na vida. Mas é algo difícil de alcançar.
Aqui está outra história. Certo dia, um Ancião foi visitado por três monges que lhe pediram conselhos para saber se estavam no caminho espiritual correto. O Ancião perguntou-lhes o que faziam. O primeiro disse: “Conheço toda a Escritura de cor”. O segundo disse: “Levito quando oro”. O terceiro disse: “Só como uma vez por semana, e mesmo assim, apenas pão seco e água”. O Ancião perguntou-lhes: “Tratam algum estranho melhor do que seus parentes de sangue?”. Responderam: “Não! Gostam mais de ser insultados do que elogiados?”. A resposta foi novamente não. Então, disse o Ancião, “Voltem e leiam a Escritura novamente, porque vocês não a entenderam corretamente”.
O amor é algo com que lutamos: não conseguimos amar nossos parentes, nosso vizinho, nosso amigo e nem sequer queremos mencionar nossos inimigos. Mas Deus é o próprio Amor. Ele é uma Trindade de pessoas que nos mostra o modelo perfeito de amor. O Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai, e o Espírito Santo é a testemunha desse amor. Sem essa terceira pessoa que testemunha e compartilha esse amor, o amor não está completo.
Da mesma forma, na vida, somos sempre três, à imagem da Trindade: eu, você e ele. A terceira pessoa é aquela que completa e realiza o nosso amor. Ao incluí-lo em nosso relacionamento amoroso, nosso amor também se completa. Se o incluirmos em nosso relacionamento amoroso, nosso amor também se completa.
Cristo morreu na cruz com os braços estendidos para reunir toda a humanidade, para que sejamos um novamente, como irmãos. Não podemos nos unir a Cristo através dos Seus Mistérios, dos quais participamos durante a Liturgia, se odiamos alguém. Como podemos estar unidos em Cristo a uma pessoa que odiamos? O mandamento do amor é, portanto, um pré-requisito para receber o Sacramento da Comunhão.
Este é o último e mais íngreme passo, e muitos tropeçam e caem da escada sem alcançar uma compreensão plena da vontade de Deus no mundo. Uma vida inteira de luta pode ser perdida se este mandamento não for cumprido.
A escada da ascensão divina chega agora ao fim. Lembremo-nos do equilíbrio instável da nossa escada para o céu. Recordemos que somente aquele que se prepara e treina perseverantemente conseguirá chegar ao topo. A escada não é para os fracos de coração nem para os despreparados. Portanto, devemos continuar a luta para nos aperfeiçoarmos por meio de uma preparação constante, usando o jejum, a oração, a humildade e o arrependimento como exercícios espirituais, para que possamos alcançar a plenitude da estatura de Cristo (Ef 4:13), pois Deus está acima de todo o Amor! Amém.
Sacerdote Vasile Tudora
tradução de monja Rebeca (Pereira)






