A leitura do encontro entre Jesus Cristo e a mulher cananeia pode suscitar mais perguntas do que muitas outras passagens. Em resumo, vemos uma mulher gentia de uma cultura pagã vindo perante Cristo em favor de sua filha possuída por demônios.
A princípio, Cristo a ignora, depois a compara com um cão e, finalmente, cura sua filha. O que devemos concluir disso? Por que Deus, que tão prontamente curou as multidões em passagens anteriores e posteriores a esta, parece tão difícil e ofensivo?
Tentarei responder a essas perguntas, contando principalmente com a ajuda dos santos João Crisóstomo e Teofilacto de Ohrid.
COMENTÁRIO BÍBLICO
Mateus 15:21-28
Jesus partiu dali e foi para as regiões de Tiro e Sidom.
Primeiramente, vemos Jesus deixando a região dos judeus para Se esconder (Marcos 7) entre os gentios. Ele havia recentemente enfurecido os líderes judeus e queria dar-lhes uma chance de se acalmarem.
E eis que uma mulher cananeia, daquela região, saiu e clamou: “Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim! Minha filha está endemoninhada!” Mas Ele não lhe respondeu palavra.
De alguma forma, essa mulher, vinda de uma região ímpia, ouviu falar de Cristo e Lhe suplica em favor de sua filha. Não sabemos por que a filha dessa mulher estava endemoninhada. Mas suas palavras iniciais foram: “Tem misericórdia de mim…”
A reação inicial do Senhor ao seu apelo: silêncio. Isso me lembra das muitas vezes em que pedi algo a Deus em oração e não obtive resposta, mesmo que o pedido parecesse bom.
Então, aproximando-se d´Ele, os Seus discípulos rogaram-Lhe, dizendo: “Manda-a embora, pois ela está chorando atrás de nós”. Ele respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”.
Aqui, está implícito que a mulher, não vendo resposta de Jesus, começa a pedir aos seus amigos mais próximos. Fazemos o mesmo quando oramos aos santos, sabendo que eles estão verdadeiramente em um lugar muito mais próximo de Deus do que nós.
Algumas pessoas interpretam mal os discípulos, presumindo que eles estão irritados com a mulher e querem se livrar dela. Mas não creio que seja esse o caso. Se esse tivesse sido o pedido deles, nosso Senhor poderia ter dito: “Vocês são doze e ela é uma. Certamente vocês têm a capacidade de remover esta mulher do nosso meio.”
Em vez disso, exclamavam: “Por favor, Senhor, dê-lhe o que ela quer para que possa seguir seu caminho; caso contrário, nos cansará com suas contínuas súplicas.”
Nosso Senhor explica que, para cumprir as Escrituras, Ele foi enviado primeiro aos judeus. Mais tarde, viria o tempo dos gentios.
Mas ela veio e se ajoelhou diante d´Ele, dizendo: “Senhor, ajuda-me”. E Ele respondeu: “Não é justo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”.
Não era incomum que os judeus se referissem aos gentios como cães. Os judeus guardavam a Lei de Moisés e se afastavam dos costumes do mundo. Por meio da Lei, Deus lhes ensinou o conceito de santidade: ser separado.
Todos os que não se conformavam a tal vida pareciam cães selvagens para o povo judeu. Esse era o termo que eles, portanto, empregavam. No entanto, há uma distinção aqui. A palavra grega para “cão” usada aqui é kunarion, que significa “cachorrinho” ou “cachorro doméstico”, e não “cachorro selvagem”, como os gentios eram frequentemente chamados. Voltaremos a isso.
Nosso Senhor não ficou indiferente à situação daquela mulher. Se bem compreendida, podemos perceber que Ele a está atraindo sutilmente para Si. Ele é “difícil” apenas na medida em que sabe que ela consegue lidar com a situação. E o propósito é exemplificar a fé dela para o mundo.
Vemos o desejo do Senhor de revelar a fé de outros em algumas ocasiões nos Evangelhos, incluindo a mulher com fluxo de sangue e o servo doente do centurião. Cada um deles poderia ter sido curado silenciosamente, mas, em vez disso, Jesus permite que uma pequena cena se desenrole para fortalecer a fé de Seus discípulos, permitindo-lhes ver a fé maior dos outros.
Além disso, Jesus foi chamado ao povo judeu neste ponto de Seu ministério. Dar de Si mesmo (o pão dos filhos) aos gentios pagãos poderia ser visto como impróprio. Ele, portanto, estava ensinando humildade à mulher. Compreendendo sua lição…
Ela disse: “Sim, Senhor, mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores”. Então Jesus lhe respondeu: “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito em ti como desejas”. E sua filha foi curada instantaneamente.
A mulher aceita sua posição inferior, visto que é de uma cultura pagã e não é digna de comer à mesa. No entanto, ela persevera com total diligência e humildade, nunca vacilando em sua fé e esperança em Cristo e em seu amor por sua filha.
Qual é o resultado? O Criador do universo elogia sua fé. Ela se humilhou, perseverou na provação e agora recebeu seu pedido.
Voltando à palavra “cães”, vemos que ela aceitou essa palavra de nosso Senhor. Muito pode ser dito sobre isso. Primeiro, alguns comentários protestantes argumentam que um cachorro é um cachorro, não faz diferença se ele disse “cachorrinho” ou “cachorro selvagem”. Mas eu acho que sim.
Um cão selvagem não tem lugar em um lar. Seu lugar é no deserto ou talvez vagando pelas ruas à noite. Aqui, é como se Cristo a chamasse de “cachorrinha” com um sorriso sutil e um piscar de olhos. Um animal de estimação faz parte da família; embora certamente não tenha os direitos de uma criança, entrou no reino e está sob os cuidados da casa do dono.
Essa mulher estava confessando que Cristo era o Senhor até mesmo dos gentios, e ela teve humilde ousadia diante d´Ele, vendo sua condição humilde, mas também sua bondade em trazê-la para casa, chamando-a de “cachorrinha” em vez de selvagem, como a maioria dos judeus teria feito. Na fé, ela vê que Jesus é compassivo e que ela pode receber migalhas da mesa do dono.
AS APLICAÇÕES ESPIRITUAIS
Oração Persistente
São Teofilacto explica esta cena desta forma, a fim de mostrar a fé inabalável da mulher e como ela perseverou apesar da rejeição. Ele faz isso para que nós também aprendamos a não recuar quando não obtemos imediatamente o que pedimos em oração. Em vez disso, devemos perseverar na oração!
É uma lição semelhante à parábola do juiz injusto (Lucas 18). Ao pedir a Deus algo salvífico, devemos suplicar a Ele sem cessar. Devemos também suplicar aos Seus amigos (os santos), mas não nos permitir parar por aí.
Além disso, devemos ler as Escrituras e os Padres para sabermos que o que estamos pedindo é a vontade de Deus. Há momentos em que pedimos a Deus por coisas de que não precisamos ou que nos seriam prejudiciais. Pode parecer que Deus não ouve nossa petição, quando na realidade Ele ouve e está respondendo à nossa oração dizendo: “Não, isso não seria bom para você neste momento”.
Ao suplicar a Deus por aquilo que sabemos ser bom — nossa cura espiritual e salvação — devemos perseverar. Alguns santos pediam a Deus apenas que tivesse misericórdia deles. Eles então deixavam que Deus decidisse como atender a esse pedido. Pode parecer que Deus está em silêncio enquanto lutamos continuamente contra o pecado, mas comparecer diante d´Ele com intercessão constante faz parte do processo de cura. Poucas pessoas são libertadas de paixões e tempestades da noite para o dia.
Cães e Humildade
Como mencionado anteriormente, a Lei de Deus separou os filhos de Abraão, revelando uma pitada do conceito de santidade. Os gentios eram como cães selvagens em seus hábitos selvagens e pecaminosos.
Nós também, ao corrompermos nossa natureza humana por meio de pensamentos, palavras e ações pecaminosas, nos tornamos como cães selvagens. Aqueles de nós que se voltaram para Deus em busca de cura e salvação na Igreja estão sendo domesticados pela graça de Deus e pela prática das virtudes. Ainda lutamos contra nossos impulsos pecaminosos, tornando-nos “cachorrinhos” que habitam na casa do Senhor.
Nosso Senhor declara: “Não é justo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”. Cristo é o Pão do céu (João 6:51) e é impróprio jogar o que é precioso, mesmo para cães domesticados.
O pão dos filhos é o banquete eucarístico do qual somente os verdadeiros filhos de Deus são dignos de participar. Nós, como “cachorrinhos”, que ainda lutamos contra o pecado, somos indignos de recebê-lo.
No entanto, se nos aproximarmos com humildade e arrependimento, seremos como a mulher que disse: “Mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores”. Com humildade e fé, aproximamo-nos do banquete eucarístico para receber as migalhas celestiais que vêm da mesa do seu senhor (o altar).
Uma Metáfora
Meu último ponto: a mãe representa o nosso espírito, enquanto a filha possuída pelo demônio representa os nossos corpos e almas.
[1] Quando decidimos viver uma vida agradável a Deus, então o nosso espírito intercede perante o Senhor, suplicando-Lhe a cura do nosso corpo e alma, atormentados pela influência dos demônios.
Se perseverarmos em suplicar a Deus por nossa salvação, Ele nos curará de acordo com a nossa fé. Nossas mentes se elevarão acima dos caminhos mundanos, alcançando o céu e contemplando o próprio Deus. Nossas ações seguirão e glorificaremos a Deus em tudo o que fizermos.
O caminho espiritual à nossa frente é cheio de dificuldades, mas se perseverarmos em oração a Deus, partilhando das preciosas migalhas eucarísticas que caem de Sua mesa, descobriremos que, por meio da fé e da graça, cada faceta de nossa natureza humana será completamente curada em Cristo.
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[1] Reconheço que existem várias classificações e definições para o que é alma e o que é espírito na linguagem patrística. Por espírito, refiro-me à parte mais elevada da nossa alma, chamada nous em grego.
Fontes: os comentários do Bem-Aventurado Teofilacto de Ohrid sobre Mateus e Marcos, bem como as homilias sobre Mateus de São João Crisóstomo.
https://www.orthodoxroad.com/the-canaanite-woman/
tradução de monja Rebeca (Pereira)






