A principal característica de Deus é a Sua simplicidade. Se Deus não fosse simples, mas composto de partes diferentes, então essas partes teriam que ter existido antes d’Ele. Tal Deus não seria a Causa e o Criador de todas as coisas, não seria um Deus verdadeiro, a fonte e origem de todas as coisas. Dado que Ele é a origem de todas as coisas, Ele não pode ser complexo, mas deve ser simples. Além disso, Ele não é meramente simples, mas a “simplicidade do simplificado e a unidade do unificado”[1]. Assim, sem jamais Se afastar da Sua simplicidade inconfundível, Ele está completamente presente, “inconfundível e indivisível em todas as coisas e em cada uma das criaturas”[2]. São Gregório Palamas afirma que Deus não é um corpo enorme que não cabe num pequeno espaço, mas é incorpóreo. Por essa razão, Ele pode estar “presente em todo lugar, além de tudo e em Um”. Não importa quão pequena seja a coisa que evoquemos, Ele pode caber nela[3].
As pessoas não são simples, mas complexas, e isso não se deve primordialmente ao fato de sermos constituídos de corpo e alma e de termos muitos órgãos e características, mas sim ao fato de termos muitas necessidades; somos “necessitados”. Nossa existência e sua manutenção requerem muitas coisas que estão fora de nós. É por isso que precisamos de tantos sentidos, para que possamos entrar em contato com essas coisas, conhecê-las, internalizá-las e delas nos beneficiar.
Mas Deus não é simples e descomplicado como uma substância indiferente ou como “energia pura”, como Aristóteles e, em certa medida, a teologia escolástica O conceberam. Essa noção filosófica de simplicidade é estranha à tradição bíblica e patrística. Deus é simples porque “não necessita”, porque já possui tudo e não precisa de nada para ser completado ou adquirido. E assim vemos também no Novo Testamento que o simples é completo em si mesmo e generoso, em oposição ao mau ou de mente dividida[4].
Deus é simples, apesar de ser três Hipóstases. Ele é simples, embora seja discernido como essência e energia. Ele é simples, embora seja ao mesmo tempo acessível e inacessível. De fato, pode-se dizer que Deus é simples porque Ele é três Hipóstases e porque Ele é discernido como essência e energia: “Pois Deus é Um em essência e energia: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”[5]. Ele também é simples porque é acessível e inacessível: Deus se multiplica, embora permaneça Um, e se divide, embora seja indivisível, e participa de todas as coisas, embora permaneça inteiro e tenha Sua unidade inseparável por um poder supraessencial”[6].
Em última análise, Deus é simples porque é onipotente, impassível e sem necessidades. Quanto mais poderosas as coisas são, observa São Gregório Palamas, mais simples elas são; e o Todo-Poderoso é o mais simples[7]. Ele não tem necessidade de aumento, diminuição ou aquisição de nada que Lhe falte. Deus, diz ele, “sendo único, é maravilhosamente simples, não exigindo de modo algum acréscimo, diminuição ou aquisição. Sendo onipotente, Ele é, portanto, o mais simples de todas as coisas”[8]. E São Simeão, o Novo Teólogo, escreve: “Deus, a causa de tudo, é Um. Este Um é luz e vida, espírito e razão, boca e palavra…”. As pessoas também têm um único sentido em uma única alma, mente e razão, mesmo que esta seja dividida em cinco para atender às nossas necessidades físicas[9]. Todos esses sentidos convergem e terminam no nous, a faculdade da percepção imediata, que os governa: “o nous vê e o nous ouve”.
Deus é luz. “O Pai é luz, o Filho é luz e o Espírito Santo é luz; uma só luz, simples, não complexa, atemporal, coeterna, igual em honra e da mesma mente”, observa São Simeão[10]. E São Gregório Palamas escreve que esta luz divina não é apenas indivisível, mas também um poder unificador e divinizador. Dependendo sempre da receptividade daqueles que dela participam, ela os unifica e os eleva à unidade e à simplicidade divinizadora do Pai[11]. Embora a essência de Deus permaneça indivisível e simples, observa Palamas, Suas energias são compartilhadas com Suas criações. E embora aqueles que delas participam sejam criados e tenham uma origem específica, as energias divinas nas quais participam são multifacetadas, incriadas e eternas, “permanentemente ligadas ao Deus todo-poderoso e autossuficiente, Senhor de todos desde os tempos”[12]. Em todo caso, sabemos pela natureza que a simples luz branca contém todas as cores.
Embora a simplicidade esteja associada à onipotência e à completude, a síntese surge da fraqueza e da carência. Quando algo não consegue existir e se manter por seus próprios poderes, inevitavelmente recorre à síntese. Deus existe como Aquele que é único e organiza todas as coisas, sem possuir nem compartilhar. As coisas criadas não existem como seres em si mesmas, mas como participantes e possuidoras. Em Deus, o ter pertence ao ser. Em Suas criaturas, o ser requer o ter.
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[1] Dionísio, o Areopagita, Sobre os Nomes Divinos, 1,3,PG 3,589C.
[2] Máximo, o Confessor, Sobre Consultas,PG 91, 1257B.
[3] Para Hionas 12, ed. P. Christou, Γρηγορίου Παλαμά, Συγγράμματα, vol. 4, Tessalónica 1988, p. 159.
[4] Veja Mateus. 6, 22-3; Tiago 1, 5-6.
[5] Diálogo entre um ortodoxo e um barlaamita 37, ed. P. Christou, Γρηγορίου Παλαμά, Συγγράμματα, vol. 2, Salónica 1966, p.200. Cf. também parágrafo 50, p. 212.
[6] Sobre a partilha divina e divinizante 23, ibid, p.157.
[7] Diálogo entre um ortodoxo e um barlaamita 53, ibid, p. 215.
[8] Ibidem, 54, pág. 216.
[9] Discurso Ético 3, 7.
[10] Teológico 3, 141-3, SC 122.
[11] Sobre a partilha divina e divinizante 6, op. cit., pp.
[12] Sobre as energias divinas 40-1, ibid, pp 125-6.
Georges Mantzaridis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







