A RESTAURAÇÃO DO ÍCONE HUMANO : COMPAIXÃO DIVINA E TRÁFICO HUMANO – PARTE 2

Um terceiro aspecto da imagem de Deus, o Logos, é a criatividade. “O ser humano”, diz Atanásio, “é um criador à imagem de Deus, o Criador”. Somos, nas palavras de J.R.R. Tolkien, subcriadores. Mais especificamente, o ser humano é um animal que usa ferramentas. Não apenas vivemos no mundo; mas, em virtude de nossa identidade à imagem e semelhança divina, remodelamos e alteramos o mundo. Dotamos-lhe um novo significado. Damos voz à criação; tornamo-la articulada em louvor a Deus. Refleti sobre isso certa vez, quando voltava da França, e de repente me lembrei de que não havia comprado um presente para dar à minha mãe. Então, corri para uma mercearia de aldeia e lá vi uma garrafa com um esquilo no rótulo. E como gosto de esquilos, pensei em comprar a garrafa. Era, na verdade, um licor feito de nozes. E refleti: os esquilos podem fazer muitas coisas: podem planejar o futuro. Eles juntam nozes, escondem-nas em lugares especiais para ter um estoque para o inverno. Esquecem onde guardaram as nozes e brigam com outros esquilos sobre de quem é aquele estoque. Todas essas são qualidades muito humanas. Mas me lembrei de uma coisa que os esquilos não fazem: eles não fazem licores de nozes!

Isso ilustra um aspecto importante da imagem divina. Por sermos feitos à imagem de Deus, somos dotados de poderes criativos: podemos transfigurar a criação, elevando-a a um novo patamar. Mas também, devido às nossas capacidades humanas, podemos desfigurar a criação, assim como transfigurá-la. Podemos envenenar as águas e poluir o ar de uma forma que os animais não fazem. Sim, é verdade que os animais, em certa medida, transformam o mundo ao seu redor. Castores constroem represas, abelhas constroem favos de mel; mas eles não transformam o ambiente na mesma extensão e profundidade que nós, humanos, em virtude da imagem divina. E essa criatividade à imagem divina se manifesta em muitos níveis: na investigação científica, na música, na poesia, na arte, na pintura de ícones, por exemplo. Como diz São Teodoro Studita: “Como o ser humano é formado à imagem e semelhança de Deus, há algo de divino no ato de pintar um ícone”.

Até agora, nossas reflexões sobre a imagem do Logos na pessoa humana exploraram a realeza, a liberdade e a criatividade. A quarta e última qualidade é ainda mais importante do que as outras três. Formados à imagem de Deus, dotados de autoconsciência e de consciência de Deus, nós, seres humanos, somos capazes, consciente e deliberadamente, de oferecer o mundo de volta a Deus. A quarta qualidade é a nossa capacidade de oferecer o mundo de volta a Deus em louvor, doxologia e ação de graças. Nessa ação de graças, tornamo-nos nós mesmos. Os animais não podem fazer isso. Maçaricos, cigarras e rãs louvam a Deus à sua maneira, mas não com consciência de Deus.

Como ícone vivo do Deus vivo, o ser humano é sacerdote da criação. A oferta grata é uma característica essencial da condição humana. Gostaria de citar aqui o romance “Notas do Subsolo”, de Dostoiévski: “Senhores, suponhamos que o homem não seja estúpido. Mas, se não for estúpido, é monstruosamente ingrato, mesmo assim. É fenomenalmente ingrato. Muitas vezes penso que a melhor definição de homem é a de uma criatura que tem duas pernas e nenhum senso de gratidão.” O anti-herói de “Notas do Subsolo” continua dizendo: “Só o homem pode proferir maldições. É seu privilégio, e o que o distingue principalmente dos outros animais.” Ora, tudo isso é muito verdade — verdade para os seres humanos caídos, para os seres humanos afastados de Deus. Mas, no caso dos seres humanos da maneira como Deus os concebeu originalmente — da pessoa humana redimida em Cristo — devemos inverter tudo o que o personagem de Dostoiévski afirma. A melhor descrição do homem, do ser humano — sua principal característica, aquilo que o torna ele mesmo — é a gratidão, o agradecimento. O que distingue o ser humano dos outros animais, o que constitui seu privilégio como sacerdote da criação, é a capacidade de bendizer a Deus, de invocar a bênção de Deus sobre outras pessoas e coisas. Essa oferta de gratidão expressamos, sobretudo, no supremo ato de culto humano, a Eucaristia, a Divina Liturgia.

Diz-se que o ser humano é um animal que ri e chora; que possui senso de humor e senso de tragédia. Muito verdade. Mas precisamos ir além. Diz-se que o ser humano é um animal lógico, ou político. Sim, mas vamos ainda mais longe. O ser humano é um animal eucarístico — um animal que se realiza no ato de oferecer a Deus, livre e gratificante, a criação. Observe que, na Divina Liturgia, oferecemos a Deus não grãos de trigo, mas pão; não cachos de uva, mas vinho. Oferecemos a Deus os frutos da terra, mas não os oferecemos em seu estado natural; oferecemos-os transformados pelas mãos humanas. Em nossa oferta litúrgica, expressamos nossa natureza icônica como subcriadores: expressamos nossa criatividade.

Até agora, examinamos o que significa ser um ser humano à imagem de Cristo, o Logos. Agora, de forma um pouco mais sucinta, vamos considerar o que significa ser um ser humano à imagem da Santíssima Trindade. E isso nos levará de volta, mais especificamente, ao tema da compaixão. O significado básico e primordial da nossa fé no Deus Trinitário é este: nós, cristãos, não somos apenas monoteístas, como o povo judeu do Antigo Testamento; como os seguidores do profeta Maomé, os muçulmanos; nem somos politeístas; mas discernimos em Deus tanto a unidade essencial quanto a verdadeira diversidade pessoal. Nosso Deus cristão não é apenas pessoal, mas interpessoal; não apenas uma unidade, mas uma união. Deus é amor — não amor-próprio, o amor de um voltado para dentro, exclusivo; mas o amor de três — Pai, Filho e Espírito Santo — amando-Se Uns aos Outros, cada Um voltado para o Outro, cada Um habitando no Outro e para o Outro, num amor que não é exclusivo, mas inclusivo.

Como disse o maior teólogo ortodoxo contemporâneo — o Metropolita Ioannis Zizioulas de Pérgamo — “O ser de Deus é ser relacional”. E continua: “Sem o conceito de comunhão, é quase impossível falar de Deus”. Existe, em Deus, para usar a terminologia de Martin Buber, uma relação tríplice de Eu e Tu: desde toda a eternidade, o Pai, a primeira Pessoa da Trindade, diz à segunda: “Tu és o Meu Filho amado”. Desde toda a eternidade, a segunda Pessoa responde à primeira: “Aba, Pai; Aba, Pai”. E desde toda a eternidade, a terceira Pessoa sela essa troca amorosa.

Criados à imagem da Trindade Divina, nós, humanos, somos chamados a reproduzir na Terra esse amor interpessoal divino. Tudo o que é afirmado sobre Deus como Trindade deve ser afirmado também, em outro nível, no ser humano à imagem da Trindade de Deus. Deus é amor — não amor-próprio, mas amor mútuo e compartilhado; assim também o é o ser humano. O ser de Deus é um ser relacional; assim também o é o nosso ser humano. Não existe uma pessoa verdadeira a menos que haja pelo menos duas pessoas em comunicação uma com a outra. Nossa personalidade trinitária humana não é egocêntrica, mas exocêntrica. Nossa natureza humana é social, ou não é nada. Este é o significado fundamental da doutrina da Trindade para a nossa natureza humana. Preciso dos outros para ser eu mesmo.

Tudo isso deixa claro o valor central da compaixão para qualquer compreensão do ícone humano. Feitos à imagem de Deus, a Santíssima Trindade, à imagem do amor, é somente através da compaixão — através da nossa capacidade de sofrer com e pelos outros em companheirismo amoroso e generoso — que nos tornamos verdadeiramente humanos. Tudo isso é expresso visualmente no ícone da Santíssima Trindade de Santo André Rublev. Nele, a Trindade é representada simbolicamente como os três anjos que vieram visitar Abraão sob o carvalho de Mamre. E no ícone, os três anjos não estão sentados em fila, olhando para o vazio; eles estão voltados uns para os outros. E nessa interação mútua, nós também somos, de alguma forma, incluídos. Os três estão em diálogo. E qual é o assunto da conversa? Eles dizem uns aos outros: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito…” Eles falam do ato de abnegação, do amor compassivo, pelo qual Cristo Jesus morreu em sacrifício na cruz. A Trindade de Rublev, portanto, é, acima de tudo, um ícone da compaixão divina.

Platão disse certa vez: “O princípio da verdade é sentir admiração”. Hoje, renove sua admiração diante da beleza da nossa condição humana — nossa condição criada à imagem do Deus Trino; nossa condição humana chamada a alcançar Sua semelhança Divina através do exercício da compaixão — compaixão que é ao mesmo tempo custosa e luminosa; sacrificial e, ainda assim, intensamente alegre.


Metropolita Kallistos (Ware) de Diokleia
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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