A expressão “Compaixão Divina” pode ser entendida de duas maneiras: verticalmente e horizontalmente. No sentido vertical, pensamos na compaixão de Deus que desce do céu para nós; no sentido horizontal, refletimos sobre a maneira como, fortalecidos pela compaixão de Deus, devemos demonstrar compaixão uns pelos outros. Este artigo se concentrará na dimensão horizontal, particularmente através do tema da Compaixão Divina e da restauração do ícone humano.
Começamos com uma passagem de um escritor do século VII, Santo Isaac, o Sírio:
Um ancião foi certa vez questionado: “O que é um coração compassivo?” Ele respondeu: “É um coração que arde por toda a criação — pela humanidade, pelos pássaros, pelos animais, pelos demônios e por tudo o que existe. Ao se lembrar e ao contemplar essas coisas, os olhos de tal pessoa se enchem de lágrimas devido à veemência da compaixão que lhe domina o coração. Como resultado de sua profunda misericórdia, seu coração se contrai e não suporta ouvir falar ou presenciar qualquer injúria ou o menor sofrimento de qualquer coisa na criação. É por isso que ele constantemente oferece orações cheias de lágrimas, mesmo pelos animais irracionais e pelos inimigos da verdade, mesmo por aqueles que lhe fazem mal, para que sejam protegidos e alcancem misericórdia. Ele ora até mesmo pelos répteis, como resultado da grande compaixão que se derrama em seu coração, à semelhança de Deus.”
Observe como a compaixão da qual Santo Isaac fala é inclusiva — abrangente — e inclui em seu alcance toda a criação. Primeiramente, é uma compaixão pela humanidade em sua totalidade. Isaac não é seletivo; mas ele não limita sua visão apenas aos seres humanos. A compaixão se estende a toda a criação viva; e, novamente, não é seletiva. Sim, devemos amar os animais atraentes — os pássaros, os esquilos; mas também devemos sentir compaixão pelos animais menos atraentes — os répteis, os escorpiões, os mosquitos. No deserto onde Santo Isaac vivia, os répteis eram particularmente desagradáveis e venenosos. “Até mesmo”, diz ele, “devemos sentir compaixão pelos demônios”. Esta é uma afirmação bastante surpreendente, e eu recomendaria, a menos que você tenha a mesma estatura espiritual que Santo Isaac, que não se preocupe muito com o mundo demoníaco. Pode ser perigoso.
Observe também que Santo Isaac diz que a compaixão que brota em nossos pensamentos é semelhante à de Deus. A compaixão humana é um reflexo direto do que significa ser uma pessoa feita à imagem e semelhança de Deus. Sem compaixão, não sou verdadeiramente humano; sou subumano. Sem compaixão, não sou um homem; mas, para usar uma expressão empregada por C.S. Lewis em seu romance, sou um não-homem.
Isso levanta a questão: qual a conexão entre a pessoa humana no ícone de Deus e a qualidade da compaixão? E para responder a isso, precisamos primeiro perguntar: “O que entendemos por imagem e semelhança de Deus neste contexto?” Ao explorar este assunto, de início, lembremos que nós, humanos, somos um mistério para nós mesmos. Quem sou eu? O que sou eu? A resposta não é nada óbvia. Os limites da personalidade humana são extremamente amplos: estendem-se do espaço ao infinito, do tempo à eternidade. Assim como Deus está além da nossa compreensão, também a pessoa humana à imagem de Deus está além da compreensão. Nós, ortodoxos, gostamos de falar de teologia apofática, teologia negativa. Mas precisamos contrabalançá-la com uma antropologia apofática.
Às vezes, as pessoas me perguntam o que significam essas palavras, apofático e a palavra correspondente, catafático. Bem, apofático é, na verdade, apenas uma palavra bastante pomposa para negativo; e catafático é uma palavra bastante pomposa para positivo ou afirmativo. Gosto de ilustrar isso com um pequeno livreto que tenho em casa chamado “Sinais dos Tempos”, que foi o resultado de um concurso promovido há alguns anos pelo jornal The Times de Londres. As pessoas foram convidadas a enviar fotografias de avisos enigmáticos ou paradoxais.
Dois exemplos desse pequeno livro ilustram o significado de apofático e catafático. Primeiro, um aviso apofático da Austrália: “Esta estrada não leva nem a Cairns nem a Townville.” Mas não diz para onde leva. E aqui está um aviso catafático: Você tem uma linha férrea e há uma caixa ao lado da linha férrea com um sino dentro dela. E o aviso diz: “Se a campainha estiver tocando, pare, olhe e escute; e não cruze a linha. Se a campainha não estiver tocando, pare, olhe e escute mesmo assim, caso ela não esteja funcionando.” Portanto, aí estão todas as possibilidades.
Agora, você perceberá, por meio desses exemplos, que uma afirmação negativa pode, na verdade, transmitir uma mensagem positiva. Se você conhece a geografia da região, a afirmação de que a estrada não leva a Cairns ou Townsville pode, na verdade, lhe dar uma ideia de para onde ela leva. E essa é exatamente a natureza da teologia apofática em nossa tradição ortodoxa. Por meio de nossas negações sobre Deus, obtemos certa percepção, uma visão de quem Deus é além das palavras, além da linguagem, além da nossa imaginação. Ora, essa misteriosa qualidade apofática da pessoa humana se estende mais particularmente à nossa compreensão do que significa “imagem e semelhança”. Um dos padres, Santo Epifânio de Salamina, escreveu no início do século V: “Não se pode negar que todos os seres humanos são feitos à imagem de Deus, mas não nos perguntamos com muita curiosidade como eles são feitos à imagem”. E em outro lugar, ele diz que a tradição sustenta que todo ser humano é feito à imagem de Deus, mas não define precisamente em que essa imagem deve ser encontrada.
Conta-se uma história sobre o grande homem da era vitoriana, Thomas Carlyle, que, ao voltar da igreja numa manhã de domingo, disse à sua mãe: “Não consigo entender por que pregam sermões tão longos! Se eu fosse pastor, subiria ao púlpito e diria apenas isto: ‘Bom povo, vocês sabem o que devem fazer; agora, vão e façam!’” “Sim, Thomas”, disse a mãe, “e você poderia dizer-lhes como?” Exatamente. Epifânio não teria satisfeito a mãe de Carlyle porque ele não nos diz como somos à imagem de Deus. Podemos fazer melhor?
Quero explorar dois sentidos de ser à imagem de Deus. Pode significar, primeiro, à imagem de Cristo. Segundo, pode significar à imagem da Trindade. Vejamos esses dois sentidos. Sim, primeiro, a imagem de Deus pode significar Cristo, o Filho de Deus, o Logos, a Razão de Deus. Assim como Cristo é o Logos, nós, humanos, à imagem de Deus, somos logikoi, dotados de razão, autoconsciência, capacidade de pensamento organizado e de fala coerente. Refletimos, tomamos decisões, temos consciência, senso de certo e errado; tudo isso está incluído na imagem Divina.
Gostaria de destacar quatro implicações específicas disso tudo. Primeiro, a imagem de Deus denota realeza. Diz no relato da criação em Gênesis 1:26: “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. A palavra usada aqui para “ser humano” é Adão, que significa não homem no sentido de masculino, mas sim ser humano. “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre os animais selvagens e sobre toda a terra.” Ser à imagem de Deus é exercer domínio. Mas domínio aqui certamente não significa dominação. Não significa tirania arbitrária. Não significa exploração impiedosa. O domínio que nós, humanos, temos é o de sermos segundo a imagem e semelhança de Deus. Em nossa relação com o meio ambiente, devemos expressar o amor, a compaixão e a gentileza do próprio Deus. O ser humano, então, ícone vivo do Deus vivo, é rei da criação à semelhança do Rei Divino do Universo. Que jamais nos esqueçamos dessa dignidade real que nós, humanos, possuímos.
Há uma palavra no livro de Martin Buber, “Contos dos Hassidim”, que frequentemente me vem à mente. Rabi Shalemo perguntou: “Qual é a pior coisa que o maligno pode realizar?” E ele respondeu: “Fazer alguém esquecer que é filho de um rei.” É isso que o maligno pretende concretizar! Fazer-nos esquecer nossa dignidade, nosso significado, nosso valor, como seres feitos à imagem de Deus, o Rei. Isso se ilustra na cerimônia da incensação, a oferta de incenso, em nosso culto ortodoxo. O celebrante incensa, primeiramente, a mesa sagrada e os ícones na iconostase. Mas depois incensa os membros da congregação. E enquanto incensa, ele se inclina diante de nós, e nós nos inclinamos de volta diante dele. Nessa cerimônia de incensação, acompanhada pela inclinação mútua de respeito, reconhecemos que cada um de nós é feito à imagem de Deus. O celebrante nos incensa e se inclina diante de nós porque vê em nós a imagem de Deus, o Criador. Então, em primeiro lugar, somos reis e rainhas incumbidos do domínio, da responsabilidade, pelo mundo ao nosso redor.
Em segundo lugar, a imagem significa liberdade. Assim como Deus é livre, o ser humano à imagem de Deus também o é. A liberdade de Deus é absoluta e irrestrita; a liberdade humana é relativa e limitada pela hereditariedade, pela educação e pelas circunstâncias externas. Contudo, existe uma analogia genuína entre os dois níveis de liberdade. Nas palavras de São Máximo, o Confessor: “Se o ser humano é criado à imagem da Divindade amorosa e supra-essencial, então, visto que a Divindade é liberdade, isso significa que o ser humano, como imagem de Deus, também é liberdade”. Igualmente, diz-se nas homilias macarianas: “O céu, o sol, a lua e a terra não têm livre-arbítrio, mas você é à imagem e semelhança de Deus. Porque, assim como Deus é Seu próprio senhor e faz o que quer, você também é seu próprio senhor; e, se assim o desejar, pode destruir-se”. Ao refletirmos sobre a imagem Divina, lembremo-nos das palavras de Søren Kierkegaard: “A coisa mais extraordinária concedida aos seres humanos é a escolha, a liberdade.”
Se quisermos exemplos de liberdade segundo a imagem divina, podemos olhar para o Antigo Testamento e ver a figura de Abraão, um explorador, partindo de sua casa rumo à Terra Prometida, aventurando-se no desconhecido sem ideia de qual seria seu destino final. Abraão é um exemplo de livre escolha corajosa! No Novo Testamento, podemos pensar na Mãe de Deus na Anunciação. Deus não quis Se encarnar sem o consentimento voluntário d`Aquela Que foi escolhida para ser Sua Mãe. Isso foi particularmente enfatizado pelo escritor bizantino do século XIV, São Nicolau Cabasilas. O anjo na Anunciação aguarda a resposta livre de Maria. Ele espera que Ela diga: “Eis-Me aqui. Eis a serva do Senhor! Faça-se em Mim segundo a Tua palavra!” Ela poderia ter dito não. E se tivesse dito não, a história do mundo teria sido diferente. A Virgem Maria na Anunciação não é um instrumento passivo; Ela é chamada a desempenhar um papel ativo. Ela é uma participante criativa no evento da encarnação. Como insiste Santo Irineu, Maria coopera com a economia.
A liberdade é uma dádiva preciosa de Deus, mas também exige sacrifício; e pode até se revelar trágica. Nas palavras do filósofo russo Nicolau Berdiaev, “Eu sempre soube que a liberdade gera sofrimento, enquanto a recusa em ser livre diminui o sofrimento”. A liberdade não é fácil, como alegam seus inimigos e caluniadores. A liberdade é difícil; é um fardo pesado. Muitas vezes, as pessoas renunciam à liberdade para aliviar seu sofrimento. Isso é ilustrado na parábola que Dostoiévski inclui em sua obra-prima Os Irmãos Karamázov, a história do Grande Inquisidor. Nessa história, Cristo retorna à Terra na Espanha do século XVI e começa a fazer exatamente o que fez na Palestina do século I. Ele prega a Boa Nova ao povo; cura os enfermos; abençoa as crianças. O Grande Inquisidor observa com desaprovação e envia seus guardas para prender Cristo e colocá-Lo na prisão. Naquela noite, o Grande Inquisidor foi ver Cristo e disse: “Por que retornaste? Vieste para libertar as pessoas, mas essa liberdade era difícil demais para elas, dolorosa demais, e nós a retiramos para que pudessem viver suas vidas tranquilamente, sem ansiedade, sem pressão. Nós”, disse o Grande Inquisidor, “corrigimos a Tua obra.” Mas Cristo não responde às longas acusações do Grande Inquisidor. A história termina com o Grande Inquisidor desmoronando, pois não suporta mais o silêncio de Cristo, e diz-Lhe: “Vai!” Ele abre a porta da prisão: “Vai! E não volte!” E tudo o que Cristo faz é beijá-lo e seguir Seu caminho. A mensagem dessa história é clara: a liberdade é difícil. E se tirarmos a liberdade das pessoas, elas podem, de fato, viver suas vidas com mais facilidade e menos ansiedade.
A liberdade é, de fato, um fardo pesado. Mas assim que renunciamos à nossa liberdade, assim que recusamos a cruz da escolha e do conflito, rejeitamos a imagem Divina dentro de nós. Tornamo-nos menos que humanos. Tornamo-nos desumanizados. Da mesma forma, se negamos a liberdade aos outros, desumanizamos-nos. Deixamos de considerá-los pessoas vivas à imagem de Deus. É precisamente aqui que discernimos a maldade, o pecado grave e chocante de todo o tráfico de seres humanos, de todas as formas de exploração e abuso sexual. Nesses casos, tratamos os seres humanos não como sujeitos dotados de liberdade, mas como mercadorias a serem manipuladas como bem entendermos. Não os tratamos como pessoas à imagem de Deus, mas como objetos. Perdemos, assim, toda a reverência pela imagem divina e, consequentemente, todo o senso de relacionamento com o outro. É por isso que o tráfico de seres humanos é tão vergonhoso! É uma negação do valor, da liberdade da pessoa — uma negação da imagem.
Metropolita Kallistos (Ware) de Diokleia
tradução de monja Rebeca( Pereira)








