A alegre Quaresma chegou novamente. Abracemo-la com alegria e entusiasmo. Este tempo nos nutre espiritualmente, purificando-nos para alcançarmos um nível de vida digno de seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus.

Em nossos círculos cristãos, a Quaresma é frequentemente vista como uma mera obrigação religiosa ou abstinência de certos alimentos e bebidas por um período de tempo. Na realidade, é um exercício espiritual intenso e libertador, no qual os fiéis deixam de lado suas preocupações mundanas e as substituem por um anseio pelos reinos celestiais e por viver de acordo com sua fé.

A ideia de nos libertarmos dos laços que nos prendem e escravizam às coisas terrenas, que nos impedem de realizar nossa plena humanidade e o propósito de nossa existência, é crucial para a nossa compreensão da Quaresma. Se nos concentrarmos em minimizar a quantidade e a qualidade dos alimentos, é precisamente porque isso nos ajuda a libertar-nos de uma paixão fundamental que domina a natureza humana, nomeadamente a gula. Como disse São João Climaco: “Pergunto-me se alguém se libertou deste senhor antes de se instalar na sepultura” (A Escada da Ascensão Divina, Degrau 14:1).

Superar a gula deve nos levar à libertação de outras coisas que não são essenciais para as nossas vidas. Isso não pode ser alcançado se nos contentarmos em limitar o jejum à comida. Aqueles que jejuam de acordo com as regras da Igreja experimentam o quanto se sentem mais leves à medida que se aproximam da Páscoa. Essa leveza leva os fiéis a uma oração mais pessoal e comunitária, a espalhar o espírito de ascetismo para muitos aspectos de suas vidas diárias e a maximizar as oportunidades de praticar atos de caridade de diversas formas e maneiras, de acordo com a capacidade de cada fiel.

Um livro litúrgico muito importante, do qual os fiéis ortodoxos não podem prescindir durante a Quaresma, é o Triódio. É o livro para o período das quatro semanas que antecedem a Quaresma, passando por todas as semanas da Quaresma e da Semana Santa, até a Santa Páscoa. As orações e hinos deste livro essencial são organizados pelos serviços diários do Matinas, Vésperas e Sexta Hora. A leitura diária nos ajuda a jejuar corretamente, de acordo com a espiritualidade ortodoxa.

Alguns podem cometer o erro de limitar o jejum à comida, e outros podem cometer o erro de limitá-lo a comportamentos agradáveis ​​e civilizados. Ambas as atitudes são incompletas, e cada dimensão esquece a outra. O mais perigoso é que essas práticas incompletas e mal compreendidas ignoram o espírito e o propósito do jejum.

A dimensão escatológica da fé cristã é essencial, e esquecê-la ou negligenciá-la amputa a fé cristã de seu propósito e objetivo. Qual é o significado da salvação se nossas vidas se limitam a esses poucos anos que nos são dados na Terra? O que é a salvação se não esperamos pela ressurreição e pela vida na era vindoura e, portanto, não trabalhamos e lutamos por ela?

Na Quaresma, experimentamos, tanto física quanto praticamente, nosso anseio pela vida que virá. O jejum mantém nossa vigilância viva para que não nos esqueçamos de que fomos criados para a

eternidade e a vida na presença de Deus, onde caminhamos “de glória em glória” (2 Coríntios 3:18), como nos ensina o Apóstolo Paulo. O jejum é um anseio e um desejo por uma vida além da vida mortal e física. É uma experiência da morte antes que ela aconteça e, portanto, um exercício para vencer o medo dela. Não devemos nos surpreender ao ler ou ouvir falar de fiéis que foram chamados de “jejuadores” por causa dos muitos jejuns que moldaram suas vidas. Esses são santos cujo anseio por Deus e pela vida com Ele os levou a abandonar tudo o mais e a se satisfazer somente com Deus, negligenciando todas as coisas terrenas e voltando-se para as celestiais.

O amor também é uma das dimensões autênticas do jejum praticado pelos cristãos desde o início do Cristianismo. Quando alguém estava em aflição, convocavam um jejum em um dia específico e levavam a economia feita com as refeições daquele dia para a pessoa em aflição na igreja, no domingo de manhã. É por isso que as orações e os hinos do Triódio frequentemente incentivam a caridade.

Também precisamos jejuar de tantas coisas nestes tempos de distração, como televisão, redes sociais e entretenimento, dedicando, em vez disso, o tempo que gastamos com elas a leituras mais espirituais, oração e atos de caridade. É assim que vivenciamos a Quaresma em seu espírito e não apenas em suas regras.

Se em nossa Quaresma experimentarmos a verdadeira liberdade, experimentaremos o ditado de que “Deus só basta”. Se experimentarmos a verdadeira liberdade, então teremos entrado em Sua espiritualidade, beleza e alegria.


Metropolita Saba (Isper)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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