Este artigo me vem à mente constantemente enquanto celebro a Liturgia dos Dons Pré-Santificados nestas quartas e sextas-feiras da Quaresma. Não há nada comparável a ela no mundo litúrgico cristão. É difícil pensar em jejum em meio a uma festa como essa.
A Ortodoxia tem uma série de palavras “favoritas” – todas elas fora dos limites da linguagem comum. Embora usemos comumente a palavra “mistério” (por exemplo), a linguagem popular nunca a usa da maneira como a Igreja a utiliza. Não me lembro de ter usado a palavra “plenitude”, ou mesmo “cumprido”, na linguagem comum. Palavras mais contemporâneas vieram substituir essas expressões. Isso não significa que um falante de inglês não tenha ideia do que as palavras significam – mas, novamente, não as compreende da maneira como a Igreja as entende. Há uma realidade à qual palavras como mistério e plenitude se referem – uma realidade que carrega o próprio cerne da compreensão ortodoxa do mundo e sua relação com Deus.
No uso popular, a palavra mistério tornou-se sinônimo de enigma. Assim, um mistério é algo que não sabemos, mas que, com uma investigação cuidadosa, provavelmente será revelado. Na Igreja, mistério é algo que, por sua própria natureza, é desconhecido e só pode ser conhecido de uma maneira singular.
Palavras como plenitude e consumado são igualmente importantes e especializadas na linguagem da Igreja, mas cujos significados pouco se assemelham à linguagem popular. Plenitude (pleroma) ocorre diversas vezes no Novo Testamento. Era também uma palavra predileta nos escritos dos gnósticos. No uso cristão, refere-se a uma totalidade ou completude espiritual que está sendo manifestada ou revelada de alguma forma. É mais do que um ato divino – carrega consigo algo do próprio Divino. Não é simplesmente a ação de Deus, mas é o próprio Deus. Ações e palavras anteriores podem ter insinuado a plenitude, mas na revelação da plenitude, todas as insinuações terão desaparecido e sido substituídas pela própria plenitude.
A compreensão central de palavras como mistério e plenitude reside na crença de que o nosso mundo possui uma relação que transcende a si mesmo, ou que vai além do que parece óbvio. O mundo é símbolo, ícone e sacramento. Mistério e plenitude referem-se à realidade que se manifesta como símbolo, ícone e sacramento.
Muitas pessoas leem a frequente passagem dos evangelhos: “Isto aconteceu para que se cumprisse a profecia de Isaías (ou de algum outro profeta)…”. O que muitos interpretam é que o profeta fez uma previsão e ela se concretizou. A profecia bíblica (numa compreensão cristã adequada) tem pouco ou nada a ver com previsão. Os profetas não veem o futuro – eles veem a plenitude. O que acontece é a plenitude irromper no nosso mundo de tal forma que a profecia “se cumpriu”.
Essa mesma plenitude é mencionada em Efésios:
E Ele [o Pai] sujeitou todas as coisas debaixo dos Seus [de Cristo] pés e O constituiu cabeça sobre todas as coisas para a igreja, que é o Seu corpo, a plenitude daquele que preenche tudo em todos (1:22-23).
Essa descrição da Igreja como a “plenitude” está entre as afirmações mais surpreendentes das Escrituras. A frase “a plenitude d´Aquele que preenche tudo em todos” é uma versão antiga de “Deus Se fez homem para que o homem se tornasse Deus” (Santo Atanásio, século IV). Deus é aquele que preenche, e nós somos o que é preenchido (ou mesmo o “preenchimento”). Pelo menos tão impactante quanto é uma passagem semelhante em Colossenses (as duas cartas têm muitas semelhanças):
Porque n´Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e vós estais completos n´Ele, que é a cabeça de todo o principado e potestade (2:9-10).
O inglês disfarça o jogo de palavras dentro do versículo. Dizem-nos que “em Cristo habita corporalmente toda a plenitude (pleroma) da Divindade, e vós sois os que n´Ele fostes preenchidos (pepleromenoi)…” Novamente, desta vez Cristo é descrito como a plenitude, mas nós também fomos feitos plenitude (pleroma) n´Ele. A vida d´Ele é a nossa vida, e essa vida ou plenitude é precisamente o que importa em nós.
A ideia não é muito diferente das declarações de Cristo no Evangelho de São João:
Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que crerem em Mim por meio da palavra deles; para que todos sejam um, assim como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti; que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste. E a glória que Me deste, Eu lhes dei, para que sejam um, assim como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim; para que sejam perfeitos em unidade, a fim de que o mundo saiba que Tu Me enviaste e que os amaste como também amaste a Mim (17:20-23).
Em João, Cristo nos deu “a Sua glória”, assim como o Pai Lhe deu glória. Glória não é louvor ou reputação, mas algo substancial (enquanto busco as palavras certas). Em hebraico, glória (Kavod) é precisamente algo substancial, o peso de algo. A kavod de Deus derruba os sacerdotes ao chão na consagração do templo de Salomão (1 Reis 8:11). Mas a glória não é simplesmente um efeito de Deus; ela é, de certa forma, a própria presença de Deus.
A plenitude tem uma relação com a glória, neste sentido substancial.
…vimos a Sua glória, glória como a do Unigênito do Pai, cheio [pleres] de graça e de verdade… E da Sua plenitude todos nós recebemos, graça sobre graça (João 1:14, 16).
A glória do Unigênito é cheia de graça e de verdade, e é dessa plenitude que todos nós recebemos.
Tenho certeza de que esta incursão pelas Escrituras pode ser um tanto tediosa para os leitores – mas é uma incursão por território desconhecido para muitos. Mistério, plenitude, glória e conceitos semelhantes são amplamente negligenciados em muitas das estruturas doutrinárias do Ocidente. Onde não são negligenciados, são despojados de conteúdo místico e transformados em sistemas mais racionais.
No Oriente Ortodoxo, o conteúdo místico tem permissão para se manifestar plenamente – particularmente na vida litúrgica e nas orações da Igreja (o mesmo se aplica à tradição ascética da Igreja). Um exemplo de profunda união entre linguagem e realidade é a Liturgia dos Dons Pré-Santificados (celebrada durante a Quaresma e a Semana Santa). Nesses dias, não se celebra a Eucaristia, mas a comunhão é distribuída a partir dos dons consagrados no domingo anterior – daí o nome “Liturgia dos Dons Pré-Santificados”.
Trata-se de um serviço muito solene, com um “clímax” litúrgico quando os Dons Pré-Santificados são retirados do altar e levados em procissão silenciosa pela congregação. Os fiéis permanecem prostrados durante a procissão, com os rostos voltados para o chão. Assim, a procissão ocorre em silêncio e de forma “invisível”.
Pouco antes da entrada, o coro canta: “Agora os poderes do céu nos servem invisivelmente. Eis que Se aproxima o Rei da glória. Eis que o sacrifício místico é elevado, cumprido.” Os Dons do Corpo e do Sangue de Cristo são, de fato, o “sacrifício místico”, o próprio mistério oculto desde os séculos, manifestado e presente no seio da Igreja. Esse mesmo mistério é também a plenitude – sua presença se cumpre.
A vida cristã vivida dentro do mistério é uma vida na qual Deus Se oculta, Se torna conhecido, Se revela, Se percebe. É uma vida na qual o Reino de Deus irrompe, não destruindo a natureza, mas a preenchendo. Da mesma forma, não somos destruídos por nossa união com Cristo, mas sim preenchidos. Tornamo-nos aquilo para o que fomos criados – a plenitude dessa vida e muito mais se manifesta em nossas próprias vidas.
É essa mesma plenitude que descreve a vida dos santos. Os santos são mais do que exemplos morais a serem copiados – eles possuem a qualidade da vida plena. Neles, a plenitude que nos pertence em Cristo se manifesta.
A vida mística marca toda a Ortodoxia Cristã. Suas doutrinas estão repletas de referências ao mistério e abordam temas como a expiação de uma maneira coerente com a revelação desse mistério. As definições conciliares, do princípio ao fim, estão enraizadas nessa linguagem e pressupõem sua gramática em todos os aspectos da vida da Igreja.
Elevados, preenchidos.
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)







