O Grande Cânone do Arrependimento de Santo André de Creta é lido duas vezes durante a Grande Quaresma. A primeira leitura ocorre nos primeiros quatro dias da Primeira Semana da Grande Quaresma. E a segunda, na festa de Santa Maria do Egito — na quarta-feira à noite da Quinta Semana da Grande Quaresma. Juntamente com este cânone, a Vida de Santa Maria do Egito é lida na celebração. É por isso que esta longa celebração é frequentemente chamada de “Permanência (permanecer de pé) Santa Maria”.
Estes dois santos — Santo André de Creta e Santa Maria do Egito — são frequentemente representados lado a lado em ícones. No entanto, eles nunca se viram em vida, e suas vidas foram completamente diferentes.
Desde a juventude, Santo André amava o silêncio e a oração. Ele foi criado em um dos monastérios mais rigorosos da Palestina — a Lavra de São Savas, o Santificado. Ali, em zelosas lutas ascéticas, encontrou aquele tesouro espiritual que, nas palavras de Cristo, é mais precioso do que o mundo inteiro. Tendo alcançado o ápice da perfeição espiritual, Santo André planejou passar o resto da vida em seu amado Monastério de São Savas; mas, pela Divina Providência, foi nomeado bispo da ilha de Creta.
Em sua velhice, adornado com inúmeros dons espirituais e tendo realizado muitos milagres, escreveu a principal obra de sua vida: o Grande Cânone do Arrependimento. Para todas as gerações de cristãos, esta obra permanecerá um manual, o ABC do arrependimento. Este cânone não pode ser recontado — deve ser lido. Leia devagar e com atenção. E então a alma descobrirá que foi escrito sobre ela.
Santa Maria do Egito teve uma vida totalmente diferente. Em sua juventude, escolheu a vida de uma prostituta. Confessou mais tarde que nem sequer aceitava dinheiro de seus “clientes”, acreditando que o sentido da vida estava no desfrute dos prazeres corporais. Viveu em devassidão desenfreada por dezessete anos, até que o Senhor lhe revelou o verdadeiro significado da vida humana.
O ponto de virada na vida de Santa Maria ocorreu quando uma força invisível impediu a prostituta inveterada de entrar na igreja de Deus, na qual Santa Maria tentara entrar por curiosidade. Percebendo a profundidade de seu pecado, ela orou à Mãe de Deus bem na entrada da igreja, onde não conseguiu entrar. O sincero arrependimento da pecadora foi aceito: a Santíssima Mãe de Deus mostrou a Santa Maria o caminho da salvação.
Imediatamente depois disso, a ex-prostituta retirou-se para o deserto da Transjordânia (um deserto a leste do Rio Jordão), onde viveu em oração e penitência por várias décadas, suportando todas as dificuldades e sofrimentos de uma vida tão austera. Ela sofreu com o calor sufocante do dia e o frio congelante da noite. Era atormentada pela fome, paixões internas e lembranças de sua vida anterior. Após dezessete anos de tais lutas, a futura santa sentiu a libertação interior das paixões e do pecado. Ao longo dos longos anos de sua vida ascética, Santa Maria experimentou a alegria celestial da oração perfeita e a bem-aventurança da proximidade com Deus.
Nesse estado, Santa Maria encontrou o santo ancião Zosimas, que havia ido orar no deserto durante a Quaresma. Ela lhe contou a história de sua vida — a história de um grande pecado e um grande arrependimento. Quando o padre Zosimas pediu à santa que orasse, ficou admirado ao ver que, durante a oração, Santa Maria havia se elevado acima do solo e orava no ar.
Após ler sua história de vida, alguém pode argumentar: “Bem, ela pecou por tantos anos e depois se arrependeu… Então nós também podemos nos entregar ao pecado e depois nos arrependeremos…” Não, não será assim!
Em sua juventude, Santa Maria não conhecia a Verdade e seu estilo de vida lhe parecia correto. Uma vez que a Verdade lhe foi revelada, ela rejeitou o pecado sem hesitar. Nós conhecemos a verdade. Embora a maioria de nós tenha sido criada na União Soviética, com seu ateísmo [ou em algum outro ambiente não cristão], na infância nos ensinaram o que é bom e o que é mau. Sempre que cometemos um pecado, agimos contra a nossa consciência.
Quem peca conscientemente na esperança de arrependimento posterior mente para Deus. Deus não pode ser enganado — o arrependimento não será concedido a tal pessoa.
Então, o que Santo André de Creta e Santa Maria do Egito têm em comum? Por que a Igreja os uniu em um longo Serviço? Um foi um homem justo desde a juventude, a outra, uma pecadora arrependida.
Ambos são grandes mestres do arrependimento, e o exemplo de ambos mostra que o arrependimento é vital para todos. Não há ninguém que não precise dele. Quer você tenha vivido a vida inteira em um monastério ou a tenha passado em pecado incessante, você precisa se arrepender. Pois o pecado não está apenas nas ações humanas. É muito mais profundo. Está no coração e, como um verme em uma maçã, pode corroer o coração por dentro, mesmo sem manifestações externas visíveis.
E esses santos também nos revelam outra grande verdade: Que ninguém desespere da salvação. Deus ouve tanto os justos quanto os pecadores, e busca o desejo de reforma até mesmo no coração mais endurecido, aguardando e aceitando com alegria o arrependimento até do último pecador.
Azbuka.ru
tradução de monja Rebeca (Pereira)








