Há situações em que não temos o direito de reclamar da ausência de Deus, porque estamos muito mais ausentes do que Ele jamais está.
No início do aprendizado da oração, surge um problema muito importante: Deus parece estar ausente. Obviamente, não me refiro a uma ausência real — Deus nunca está realmente ausente —, mas à sensação de ausência que temos. Ficamos diante de Deus e clamamos para um céu vazio, do qual não há resposta. Voltamo-nos em todas as direções e Ele não está presente. O que devemos pensar dessa situação?
Antes de tudo, é muito importante lembrar que a oração é um encontro e um relacionamento, um relacionamento profundo, e esse relacionamento não pode ser imposto nem a nós nem a Deus. O fato de Deus poder Se fazer presente ou nos deixar com a sensação de Sua ausência faz parte desse relacionamento vivo e real. Se pudéssemos atraí-Lo mecanicamente para um encontro, forçá-Lo a nos encontrar, simplesmente porque escolhemos aquele momento para encontrá-Lo, não haveria relacionamento nem encontro. Podemos fazer isso com uma imagem, com a imaginação ou com os vários ídolos que podemos colocar diante de nós em vez de Deus; Não podemos fazer nada disso com o Deus vivo, assim como não podemos fazer com uma pessoa viva.
Um relacionamento deve começar e se desenvolver em liberdade mútua. Se você observar o relacionamento em termos de reciprocidade, verá que Deus poderia reclamar de nós muito mais do que nós d´Ele. Reclamamos que Ele não Se faz presente para nós durante os poucos minutos que reservamos para Ele, mas e as vinte e três horas e meia durante as quais Deus pode estar batendo à nossa porta e respondemos: “Estou ocupado, desculpe”, ou quando não respondemos de forma alguma porque nem sequer ouvimos a batida à porta do nosso coração, da nossa mente, da nossa consciência, da nossa vida? Portanto, existe uma situação em que não temos o direito de reclamar da ausência de Deus, porque estamos muito mais ausentes do que Ele jamais está.
A segunda coisa muito importante é que um encontro face a Face com Deus é sempre um momento de julgamento para nós. Não podemos encontrar Deus em oração, meditação ou contemplação sem sermos salvos ou condenados. Não me refiro a isso em termos de condenação eterna ou salvação eterna já dada e recebida, mas é sempre um momento crítico, uma crise. ‘Crise’ vem do grego e significa ‘julgamento’. Encontrar-se com Deus face a Face em oração é um momento crucial em nossas vidas, e graças a Ele que Ele nem sempre Se apresenta a nós quando desejamos encontrá-Lo, pois talvez não conseguíssemos suportar tal encontro. Lembre-se das muitas passagens das Escrituras em que somos informados de quão ruim é estar face a Face com Deus, porque Deus é poder, Deus é verdade, Deus é pureza. Portanto, o primeiro pensamento que devemos ter quando não percebemos tangivelmente a presença divina é um pensamento de gratidão. Deus é misericordioso; Ele não vem em momento inoportuno. Ele nos dá a oportunidade de nos julgarmos, de compreendermos e de não entrarmos em Sua presença num momento em que isso significaria condenação.
Observe as diversas passagens do Evangelho. Pessoas muito maiores do que nós hesitaram em receber Cristo. Lembre-se do centurião que pediu a Cristo que curasse seu servo. Cristo disse: “Eu irei”, mas o centurião disse: “Não, não faça isso. Diga uma palavra e ele será curado”. Será que nós fazemos isso? Será que nos voltamos para Deus e dizemos: ‘Não Se faça presente de forma tangível e perceptível diante de mim. Basta que o Senhor diga uma palavra e eu serei curado.’ Basta que o Senhor diga uma palavra e as coisas acontecerão. Não preciso de mais nada por agora.’ Ou veja Pedro em seu barco, depois da grande pesca, quando ele caiu de joelhos e disse: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador.’ Ele pediu ao Senhor que se afastasse do barco porque se sentia humilde — e se sentia humilde porque havia percebido repentinamente a grandeza de Jesus. Será que alguma vez fazemos isso? Quando lemos o Evangelho e a imagem de Cristo se torna irresistível, gloriosa, quando oramos e nos damos conta da grandeza, da santidade de Deus, será que alguma vez dizemos: ‘Sou indigno de que Ele Se aproxime de mim?’ Sem falar de todas as ocasiões em que deveríamos estar cientes de que Ele não pode vir até nós porque não estamos lá para recebê-Lo. Queremos algo d´Ele, não Ele em Si. Isso é um relacionamento? Agimos assim com nossos amigos? Buscamos o que a amizade pode nos dar ou buscamos o amigo que amamos? Será que isso também se aplica ao Senhor?
Pensemos em nossas orações, as suas e as minhas; pensemos no calor, na profundidade e na intensidade da sua oração quando ela se refere a alguém que você ama ou a algo importante em sua vida. Então, seu coração se abre, todo o seu ser interior se recolhe na oração. Isso significa que Deus importa para você? Não, não significa. Significa simplesmente que o assunto da sua oração importa para você. Pois, quando você faz uma oração apaixonada, profunda e intensa sobre a pessoa que ama ou a situação que o preocupa, e passa para o próximo assunto, que não importa tanto — se de repente você se torna frio, o que mudou? Deus Se tornou frio? Ele Se foi? Não, significa que toda a alegria, toda a intensidade da sua oração não nasceu da presença de Deus, da sua fé n´Ele, do seu anseio por Ele, da sua consciência d´Ele; nasceu apenas da sua preocupação com ele ou ela ou com isso, não com Deus. Somos nós que nos tornamos ausentes, somos nós que nos tornamos frios no momento em que deixamos de nos preocupar com Deus.
Metropolita Anthony (Bloom)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








