A ORAÇÃO DE JESUS: O MISTÉRIO DA ESPIRITUALIDADE ORTODOXA – PARTE 3

       4. A oração espiritual

“A atenção e a contrição são como o pavimento do santuário”, escreveu Inácio Braintchaninov, ou ainda como os pórticos da piscina de Bethesda onde se reuniam os enfermos na espera do anjo que, agitando as águas, os curaria[21]. “Mas somente o Senhor, na hora que só Ele conhece, concede a cura e permite a entrada no santuário, segundo Sua inefável e incompreensível benevolência”. Aqui ultrapassamos o plano da oração “laboriosa” para tocar o mistério da oração “espiritual” ou “carismática”.

Os Startsi russos são extremamente discretos no que concerne aos degraus superiores da obra espiritual. Com efeito, não se trata de mistérios que não podem ser traduzidos de modo adequado pela nossa linguagem humana? Não seria inútil e mesmo perigoso falar de realidades espirituais àqueles cujo entendimento, ainda mergulhado no mundo material e psíquico, ainda não está apto a compreender? “

Não abra seu coração sem necessidade, aconselha são Serafim de Sarov, pois entre mil você não encontrará mais do um que seja capaz de guardar seu segredo”. É menos por eles e mais pelo testemunho de amigos, daqueles que forma “companheiros dos mistérios divinos” que podemos entrever alguma coisa das graças místicas que iluminaram a vida de um Serafim de Sarov ou dos Startsi de Optino. Mais intelectuais, mais ao corrente do pensamento ocidental do que estes, Teófano o Recluso e Inácio Briantchaninov são ainda bem pouco loquazes.

O primeiro fruto da oração, o primeiro sinal sensível do dom da graça, que anuncia uma transformação na própria natureza da alma, consiste, segundo o testemunho de todos os mestres da obra espiritual, no eflúvio das lágrimas do arrependimento. O esforço da oração, por meio do qual o orante, sem negligenciar, confessa ao mesmo tempo sua miséria e sua fé em Jesus Cristo, é comparável ao trabalho de uma forja. Sob as camadas superficiais, petrificadas e estéreis da vida psicológica, ele vai buscar a fonte de água viva de um sincero arrependimento. Este já é a manifestação da ação da graça sobre o homem. As lágrimas, não aquelas do desespero ou do orgulho ferido, mas as lágrimas salutares do arrependimento, são o sinal deste estremecimento das camadas profundas do ser, em que se veem engolidos como que por uma forte onda o orgulho e a confiança em si do homem natural. Trata-se neste momento do enternecimento, do amolecimento no sentido próprio do termo, no qual a dureza do coração se funde ao toque da graça divina.

É são Serafim de Sarov quem diz: “No coração daquele que verte lágrimas de enternecimento resplandecem os raios do Sol de Justiça, Cristo Deus”.

Na alma preparada para receber, pelo labor da oração, pela descida do intelecto ao coração – onde ele descobre os sinais de sua origem divina e também os de sua decadência –, na alma já purificada pelas lágrimas do arrependimento, o Espírito Santo pode agora realizar sua obra.

Primeiramente a graça mostra ao homem seu pecado, ela o faz surgir diante dele, colocando-o constantemente debaixo de seus olhos, e o leva a julgá-lo. Ela lhe revela nossa queda, este temível, profundo e sombrio abismo de perdição no qual caiu nossa raça, por sua participação no pecado de Adão. Depois, pouco a pouco, ela concede uma profunda atenção e ternura no coração no momento da oração. Tendo deste modo preparado o vaso, de uma maneira súbita, inesperada e imaterial, ela toca as partes separadas e as reúne. “Quem as tocou? Eu não posso explicar. Eu nada vi, nada ouvi, mas me vi mudado, subitamente em me senti assim pela força de um poder todo-poderoso. Quando suas mãos tocaram meu ser, o intelecto, o coração e o corpo se reuniram para constituir uma unidade total. Depois eles mergulharam em Deus e lá permaneceram enquanto uma mão invisível, impalpável e onipotente os susteve[22]”.

Assim é que o primeiro e essencial dom da graça (dom positivo, do qual o arrependimento sincero é de certo o aspecto negativo) é o restabelecimento da natureza espiritual do homem em sua integridade original. O intelecto e o coração, estes dois polos da vida interior, voltam a ser uma unidade harmoniosa da qual as duas tendências opostas se fundem sinfonicamente para construir a pessoa na graça.

Sublinhemos que o que é descrito aqui não é um arrebatamento, um êxtase passageiro – ou, pelo menos, não o é essencialmente. Sem dúvida a alma não permanece “imersa em Deus” senão na medida em que “ele a sustém com uma mão onipotente”, e do ponto de vista da contabilidade humana, isto não passa de alguns instantes. Mas depois do êxtase, permanece o efeito da graça. É uma transfiguração ontológica profunda que se realiza: um homem novo nasce, no qual surgem faculdades, poderes, visões novas. Nele, a desordem antiga cede lugar a uma nova ordem, dominada pela consciência da presença de Deus. Esta se reveste de uma evidência comparável, mas infinitamente superior, à de um axioma matemático.

A consequência mais notável dessa união do coração com o intelecto é a transformação radical do próprio caráter da oração. Se até então ela consistia numa obra trabalhosa e às vezes penosa, agora ela jorra espontaneamente, sem esforço, aquecendo o coração e enchendo-o de luz, paz e alegria. Enquanto o êxtase é um dom raro, concedido apenas a alguns, essa mudança  na natureza da oração é o sinal mais habitual e infalível da ação da graça para aqueles que se dedicam à obra espiritual. Eis como o peregrino dos Relatos descreve essa transformação:

“Certa manhã, fui despertado pela Oração. Comecei a dizer minhas orações da manhã, mas a língua se embaraçava e eu não tinha outro desejo senão o de recitar a Oração de Jesus. Assim que eu a retomei, fiquei feliz, meus lábios se moviam sozinhos e sem esforço. Eu passei todo o dia em estado de alegria. Eu estava como que separado de tudo, e me sentia em outro mundo (…). Eu passei todo o verão a recitar sem descanso a Oração de Jesus e todo o tempo estive tranquilo. Durante o sono, às vezes sonhava que estava recitando a Oração. Durante o dia, quando acontecia de encontrar pessoas, elas me pareciam tão amáveis como se fossem da minha família. Mas eu nunca permanecia com elas. Os pensamentos se apaziguavam e eu não vivia senão com a oração; eu comecei a inclinar meu espírito para escutar e às vezes meu coração sentia a si mesmo com um calor e uma grande alegria (…). Assim caminho agora, dizendo sem cessar a Oração de Jesus, que me é mais cara e doce do que todo o mundo. Às vezes eu caminho setenta verstas[23] em um dia e nem sinto que estou andando; eu só sinto que sigo dizendo a Oração. Quando sou tomado por um frio violento, eu recito a Oração com mais atenção e logo me sinto aquecido. Se a fome se torna demasiada, eu invoco com mais frequência o Nome de Jesus Cristo e já não me lembro de ter fome. Se me sinto enfermo, se meu dorso e minhas pernas doem, em me concentro na Oração e não sinto mais a dor. Quando alguém me ofende, eu não penso senão na benevolente Oração de Jesus; logo a cólera ou a pena desaparecem e eu esqueço tudo. Eu me tornei simples. Eu não me preocupo com nada, nada me preocupa, nada do que é exterior me retém, eu desejo estar sempre na solidão; por hábito, eu não tenho mais do que uma necessidade: recitar sem cessar a Oração. E, quando o faço, fico logo alegre e feliz. Deus sabe o que ele fez em mim”.

O testemunho deste humilde peregrino coincide em tudo com o dos mestres da obra espiritual.

É sem dúvida são Serafim de Sarov quem deu dessa experiência a expressão mais concisa e perfeita: “Quando o Senhor aquecer seu coração com o calor da graça e restabelecer você na unidade de um só espírito, então esta oração ininterrupta jorrará de você. Ela permanecerá sempre com você, você se deleitará nela e ela o alimentará[24]”.

Os frutos da oração ininterrupta são o calor espiritual, a serenidade, o desligamento do mundo e sobretudo a caridade para com Deus. “Os que desejam se unir pela caridade e amor ao Dulcíssimo Jesus, escreve o Ancião Paisios, desprezando todas as belezas deste mundo, todas as doçuras e mesmo o repouso corporal, já não desejam possuir outra coisa além da atividade paradisíaca do espírito que se entrega a essa oração ininterrupta[25]”. Inflamando o coração de caridade e amor a Deus, a Oração de Jesus aparece assim como fruto desta Caridade divina, tocando o coração e o espírito do homem e ressuscitando-os para uma vida nova. “O fogo espiritual do coração é a caridade e o amor a Deus; ele se inflama quando Deus toca o coração, pois Ele é inteiramente Amor e ao Seu contato o coração se inflama de amor por Ele”.

Nesta vida nova, não estão descartadas ainda as possibilidades de tentações e de quedas. Mas quem recebeu a visita da graça recebeu também uma lucidez espiritual, que lhe permite combater eficazmente seus inimigos interiores. Até aqui ele estava mergulhado nas trevas e era como um homem que, atacado à noite, luta às cegas contra inimigos invisíveis. Agora a intuição constante da presença de Deus atua como um candeeiro colocado no centro da consciência, iluminando até os menores recantos.

O estado de graça aparece assim, não como um estado de passividade e de repouso, mas como uma atividade fecunda de purificação que se cumpre com alegria, embora a fidelidade à graça possa exigir ainda, como insiste Teófano, o Recluso a respeito, sacrifícios dolorosos.

Um traço característico dos mestres russos da oração espiritual se revela menos em sua doutrina do que em sua atitude prática, a oração ininterrupta cuja doçura enche de alegria e paz o coração, longe de separá-los dos homens, acaba por aproximá-los destes. Com efeito, se durante a fase inicial o silêncio absoluto e o distanciamento eram para eles a própria condição de todo progresso espiritual, chega um momento em que, sentindo a oração fortemente enraizada em seu coração, o retorno aos homens surge como uma necessidade de obediência à vontade divina.

São Serafim de Sarov, os Startsi de Optino, acolhiam milhares de peregrinos; eles recebiam inumeráveis cartas e as respondiam. Se num São Nilo de Sora, no século XVI, essa atividade de cura de almas ainda tinha uma caráter de sacrifício voluntário inspirado pelo amor fraternal, entre os Startsi do século XIX isto vinha como o desabrochar de sua vocação espiritual. No meio da multidão, a oração mística continuava a ressoar em seus corações, intimamente unida ao batimento, constituindo como que a trama de sua vida interior, e nunca os impedindo de tomar parte da vida dos homens.

Assim eles pensavam na possibilidade de levar a prece espiritual a todos os cristãos. Paisios Veltchkovsky já admitia que a prática da oração de Jesus podia ser recomendada aos leigos. Entretanto, no círculos dos Startsi da Moldávia, a “oração espiritual” é essencialmente um método de oração monástica. Ela está ligada, para Paisios e seus amigos, ao renascimento do monaquismo nos países eslavos. Em seus escritos, por seus preceitos e seus conselhos, ele se dirigem sobretudo aos monges, aos quais unicamente seriam acessíveis os graus mais elevados da oração contemplativa.

Mas esta não é exatamente a atitude dos Startsi do século XIX. Sem dúvida a vida monástica lhes parecia também como a via por excelência que conduz à união com Deus.  Mas sua experiência profunda de uma prece cuja chama, longe de se extinguir ao contato com o mundo, se nutria de uma atividade caridosa que os aproximava dos homens, lhes inspirou uma nova concepção da obra espiritual. Esta, mesmo nas suas formas mais místicas, não seria incompatível com a vida no mundo e alguma atividade cultural. São Serafim de Sarov elabora uma regra de oração para os leigos[26]. Permitindo a um leigo, Nicolau Motovilov, participar de uma de suas mais extraordinárias iluminações, ele dá como que uma demonstração da possibilidade aberta a todos de receber o dom do Espírito Santo através da oração [27]. Teófano o Recluso também afirma que a oração espiritual não exclui toda atividade, mas apenas aquelas que são más ou vãs: “É falso, escreve ele, pensar que para cumprir a oração espiritual é preciso estar sentado num lugar secreto para aí contemplar a Deus. Para orar, não é preciso mais do que se esconder em seu próprio coração e, fixando-se aí, ver o Senhor sentado à nossa direita, como fez David”.

Sem dúvida a obra espiritual exige a concentração interior e, por conseguinte, alguma solidão. Mas se a solidão completa é impossível no mundo, cada qual sempre poderá encontrar “horas de solidão” nas quais poderá fortalecer e vivificar em si a Prece de Jesus até que, enraizando-se em seu coração, ela o acompanhe mesmo no fluxo barulhento da vida no mundo.

Assim, segundo o testemunho dos mestres mais recentes da mística ortodoxa, a prece ininterrupta a Jesus pode e deve se tornar a atmosfera espiritual de toda a vida cristã. Mas isto não os leva absolutamente a minimizar o caráter místico e extático dos estados nos quais, no limite, se realiza a obra espiritual do orante.

Já falamos da discrição da maior parte dos místicos ortodoxos, dessa espécie de pudor espiritual que os impede de falar das maiores graças que receberam. Temos não obstante testemunhos muito precisos sobre suas experiências místicas, em especial a de São Serafim de Sarov. Este último, falando dos graus mais elevados da oração contemplativa, se exprime assim: “Quando o intelecto e o coração estão unidos na oração e nada perturba a alma, então o coração se enche de calor espiritual, e a luz de Cristo inunda de paz e de alegria todo o homem interior[28]”.

A luz de Cristo da qual fala o Santo não é nem sensível, nem intelectual, mas espiritual, iluminando as profundezas do coração. Não obstante, conforme veremos, ela pode se tornar visível aos olhos carnais daqueles a quem é concedida a graça de contemplá-la[29]. É a Luz da Vida, que não conhecem senão os que vivem nela e são iluminados por ela. Experiência de uma simplicidade infantil, conforme afirma com força São Serafim, e no entanto inefável. Mas a criança não é exatamente aquele ser que não pode falar[30], e não é o milagre do espírito o nascimento para esta nova e inexprimível infância[31]?

Dom do Espírito Santo, arrebatamento do espírito humano numa irradiação da Glória incriada de Deus, tal é a revelação final da obra espiritual. Aqui a oração ultrapassa a si mesma. Se, de acordo com as palavras de São Serafim, “por meio da oração nos tornamos capazes de conversar com o Deus vivificante”, toda oração cessa entretanto no momento em que Deus desce sobre nós por Sua graça. “Quando somos visitados por Ele, é preciso deter a oração. De fato, por que seguir implorando: ‘Vem e habita em nós, purifica-nos de toda mancha e salva nossas almas, Tu que és Bondoso[32]’, quando Ele já veio, quando já chegou, em resposta às nossas humildes e amorosas solicitações?[33]”.

Aqui entrevemos a finalidade última da oração mística: a transfiguração total do homem, na unidade de seu espírito e de seu corpo, pela Luz divina, Luz de Cristo e do Espírito Santo, irradiação gloriosa da Santíssima Trindade. Cabe notar aqui que nas experiências que foram descritas, o espírito do homem, mesmo tendo consciência de participar da Vida divina, não perde por isso a consciência pessoal, não se apaga, mas ao contrário adquire uma lucidez sobrenatural. Pelo mistério insondável do dom da graça a natureza humana se transforma. As trevas da matéria se dissipam e, vencidas, se tornam translúcidas ao Espírito. O homem se torna capaz de ver a Glória de Deus.

Mas este não passa ainda do termo terrestre da oração, as primícias das iluminações do século futuro. O fim da oração mística anuncia em verdade o final os tempos: a libertação completa da Criação “da escravidão da corrupção para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus[34]”.

É na direção da Luz sem declínio do Dia eterno, mas cuja aurora se ergue agora para os que sabem reconhecer os sinais, que nos orienta finalmente o testemunho daqueles que oram a Oração de Jesus.

      5.  Uma oração para os nossos tempos

Chamada também de “obra espiritual”, a Oração de Jesus se encontra no coração da tradição ascética e mística do monaquismo contemplativo ortodoxo. Suas raízes mergulham na mais alta antiguidade cristã, em particular na espiritualidade dos Padres do Deserto. Seria inexato porém não ver nela mais do que uma relíquia venerável de uma época desaparecida, no máximo tingida, para o homem ocidental, de um certo exotismo. Método de oração simples e fácil, a Oração de Jesus permanece atual. Ela pode ser adotada por homens e mulheres modernos, ela se adapta à sua mentalidade e ao seu modo de existência. Irradiando para além dos quadros institucionais do monaquismo, ela auxilia os leigos que vivem no mundo a unificar sua vida segundo o Espírito de Jesus Cristo.

Historicamente, a prática da Oração de Jesus nasceu do encontro de duas correntes espirituais distintas: de um lado o culto bíblico (e mesmo mais genericamente semítico) pelos Nomes de Deus, e de outro lado a prática da oração chamada de “jaculatória” dos meios monásticos do deserto.

Desligada das crenças mais ou menos mágicas, aparece com efeito, na Bíblia, a ideia de que o Nome divino é revelação, manifestação dinâmica da Pessoa do Deus transcendente. Vários textos do Antigo testamento podem ser citados a este respeito. Em especial nos Salmos, o Nome divino aparece como um refúgio, um poder auxiliador. Mas devemos lembrar sobretudo as múltiplas referências ao Nome de Jesus no Novo Testamento, no qual uma diversidade de fórmulas cuja tradução para as línguas modernas, “em Nome de Jesus”, é impotente para ilustrar a riqueza de sua complexidade e de seu dinamismo.

Três textos são capitais: “Nesse dia, vocês não Me farão mais perguntas. Eu garanto a vocês: se vocês pedirem alguma coisa a Meu Pai em Meu Nome, Ele a concederá. Até agora vocês não pediram nada em Meu Nome: peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa[35]”; “Não existe salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos[36]”; e “Por isso, Deus o exaltou grandemente, e lhe deu o Nome que está acima de qualquer outro nome; para que, ao Nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e sob a terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai[37]”.

Quanto à oração jaculatória, Santo Agostinho, a quem devemos sua descrição, a encontrou já no século IV entre os monges do deserto egípcio, sob a forma de preces frequentes mas muito curtas e como que “rapidamente lançadas” (quodammodo jaculatas). A fórmula empregada para as invocações era o Kyrie eleison ou algum versículo do Saltério. Mas chegou um dia em que o Nome de Jesus foi associado à oração jaculatória. Este encontro, esta fusão entre o Nome e a aspiração foi obra de uma escola mística designada sob o nome de Hesicasmo. Movimento que se estendeu por muitos séculos (do século V aos XVIII e, em certa medida, até os nossos dias), o Hesicasmo passou por uma evolução com tendências e expressões diversas. O que constitui sua continuidade, porém, é a busca de uma técnica contemplativa destinada a unificar e pacificar o homem interior em Cristo, pela graça do Espírito Santo.

Depois de um pequeno eclipse no século XVII, a Oração de Jesus conheceu paradoxalmente um renascimento no “século das luzes” da Razão. Simultaneamente signo e instrumento dessa renovação, a publicação em 1782 da Filocalia (“amor ao Belo”) dos Padres Népticos inaugurou um período de difusão da Oração de Jesus nos diferentes países ortodoxos e nos mais variados meios fora dos quadros do monaquismo original. Traduzida para o russo com o título de Dobrotolioubé, esse livro influenciou mais o povo russo do que o fizera a Filocalia em relação aos meios gregos. Foi na Dobrotolioubé que não apenas os monges, mas as pessoas das cidades, vilas e aldeias, homens e mulheres de todos os meios, se familiarizaram com os Padres, com o espírito e os métodos da oração contemplativa.

Depois da tempestade da Revolução de 1917, a emigração russa que se instalou com dificuldades na Europa e na América conheceu, também ela, uma discreta primavera filocálica. Por seu intermédio, a Oração de Jesus penetrou em determinados meios cristãos ocidentais, católicos, protestantes e sobretudo anglicanos.

Praticada tanto pelo operário de fábrica ou pelo mineiro, como pelo professor de teologia, ela se despojou, neste novo contexto histórico, de conceituações herdadas do passado para reencontrar sua espontaneidade e simplicidade originais. Assim é que ela se revelou naquilo que ela sempre foi essencialmente: não a crença na virtude mágica de uma fórmula, mas a atenção para a Presença de Deus da qual o Nome Divino é o Sacramento; não a alienação num mecanismo obsessivo, mas a arte espiritual que, recolhendo o intelecto do mundo dos fenômenos para levá-lo às profundezas do coração – vale dizer: da pessoa – prepara este coação para receber o perdão, a paz e a iluminação; não a abolição do pensamento e da consciência pessoais, mas o reencontro em comunhão, lúcido, com a pessoa divino-humana de Jesus.  Ao mesmo tempo em que exige o silêncio e certo retiro, ao menos interior, do mundo, a Oração de Jesus é também instrumento de oferenda e de transfiguração de toda a criação. Da espiritualidade monástica tradicional ela chega assim a integrar um dos temas essenciais da filosofia religiosa russa moderna: a visão de um mundo transfigurado em esperança.

Foi uma autora leiga, Nadejda Gorodetzky, que talvez tenha falado com mais justiça e sobriedade do uso prático da Oração de Jesus, tal como a pode experimentar um cristão dos dias de hoje, que viva no mundo, e da inspiração que ele pode encontrar nessa oração: “A Oração de Jesus é tão simples que basta aprendê-la uma vez para se lembrar para sempre dela. Muitos se ocupam de seus trabalhos habituais ao mesmo tempo em que repetem essa prece. Nem as tarefas administrativas, nem o trabalho nos campos ou nas fábricas são incompatíveis com ela. Também é possível, ainda que um pouco mais difícil, desfrutar dessa prece contínua junto com as ocupações intelectuais. Ela nos preserva de muitos pensamentos e palavras vãos e pouco caritativos. Ela santifica o trabalho e as relações cotidianas. Depois de algum tempo, as palavras da invocação parecem vir por si sós aos nossos lábios. Elas nos introduzem pouco a pouco na prática da presença de Deus. As palavras parecem gradualmente esvanecer. Uma vigília silenciosa acompanhada de uma profunda paz do coração e do espírito se manifesta no meio do tumulto da vida de todo dia. O Nome de Jesus se torna uma chave mística que abre o mundo, um instrumento de oferenda secreta de cada coisa e cada pessoa, uma aposição do selo divino sobre o mundo. Podemos falar aqui em sacerdócio de todos os fiéis. Em união com nosso Grande Pai, imploramos ao Espírito: faça de minha oração um sacramento[38]”.

Em conclusão, gostaríamos de sublinhar o alcance ecumênico da Oração de Jesus. Assim como escreveu o Monge da Igreja do Oriente, “a invocação do Nome de Jesus foi, na origem, comum a todos, e ela permanece aceitável a todos, acessível a todos[39]”, a todos os que foram batizados em Cristo. Ela pode assim realmente unir os cristãos ainda dolorosamente divididos em outros planos institucionais ou sacramentais. Ao conduzir ao aprofundamento da relação do fiel coma pessoa divino-humana do Filho do Homem, a Oração de Jesus nos introduz igualmente nessa comunidade de pessoas in Christo per Spiritum Sanctum,  que os Padres denominavam “a comunhão dos santos”.



[21] Cf. João 5: 2-4.

[22] Teófano, o Recluso, Entretiens, p. 97.

[23] Antiga medida de distância russa equivalente a 1.067 metros.

[24] Cf. também Teófano, o Recluso, Entretiens, p. 421.

[25] Teófano, o Recluso, Entretiens, p. 299.

[26] Serafim de Sarov, Instructions spirituelles, pp. 212-214.

[27] Cf. Saint Séraphim de Sarov, Entretien avec Motovilov, p. 176ss.

[28] Serafim de Sarov, Instructions spirituelles, p. 201.

[29] “Em meu coração, em pensamento somente, eu orei: Senhor, torne-o digno de ver claramente, com os olhos da carne, a descida do Espírito Santo, como a Seus servidores eleitos quando você concede lhes aparecer na magnificência de Sua glória!” (Serafim de Sarov, Entretien avec Motovilov, p. 177).

[30] Cf. o latim infans, “que não fala”.

[31] Cf. João 3: 5-7.

[32] Tropário ortodoxo recitado no início os ofícios.

[33] Serafim de Sarov, Entretien avec Motovilov, p. 162.

[34] Romanos 8: 27.

[35] João 16: 23-24.

[36] Atos 4: 12.

[37] Filipenses 2: 9-10.

[38] Nadejda Gorodetzky, The Prayer of Jesus, Revue des Dominicains anglais, XXIII, 1942, p. 76.

[39] Un Moine de l’Église d’Orient, La prière de Jésus, Chevetogne/Seuil, 1963, p. 70.


Elisabeth Behr-Sigel
tradução de Tito Kehl

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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