A ORAÇÃO DE JESUS : O MISTÉRIO DA ESPIRITUALIDADE ORTODOXA – PARTE 1



1. A obra espiritual

Um dos elementos mais importantes de toda regra de oração monástica na Igreja Оrtodoxa é a “Oração de Jesus”, também chamada simplesmente de “oração” ou então de “ação espiritual”. Sua forma exterior – podemos dizer sua “matéria” – consiste na repetição tão frequente quanto possível do Nome de Jesus Cristo, associado à oração do cobrador de impostos[1], nos seguintes termos: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador(a)”. Sua essência espiritual consiste na “descida do intelecto ao coração”, desembocando, por meio da purificação do pensamento e da lembrança constante de Jesus Cristo, na iluminação do homem interior pela graça divina e na tomada de consciência da habitação mística aí do Espírito Santo.

A prática desta oração é uma tradição antiga e venerável da Igreja do Oriente. Ela provém de uma corrente espiritual que remonta aos Padres do deserto e da qual os ensinamentos dos grandes pensadores cristãos dos séculos III e IV formam a expressão teológica.

Pouco ou nada conhecida no Ocidente, essa grande tradição mística, que de certa forma constitui a alma da teologia oriental, suscitou não obstante pesquisas e trabalhos interessantes. Mas esses estudos, escritos por especialistas da literatura patrística grega geralmente ignoram as formas mais recentes com as quais a antiga tradição se revestiu no seio das Igrejas eslavas e gregas modernas, esta tradição viva fora da qual os textos antigos permanecem muitas vezes incompreensíveis. É assim que o Padre Hausherr escreveu: “A questão do Hesicasmo não apresenta somente um interesse histórico – de resto, suficiente para merecer a atenção dos pesquisadores nestes tempos de renovação dos estudos ascéticos e místicos – como também ela não perdeu sua atualidade no Oriente ortodoxo. Alguns estimam inclusive que, de todas as questões cujo estudo se impõe a quem se preocupa com o futuro religioso grego ou eslavo, esta é a mais importante”. Nós acrescentaremos que a literatura ascética e mística russa, que poderia fornecer ensinamentos preciosos sobre a permanência e a renovação da prática da oração espiritual, permanece quase que totalmente desconhecida do Ocidente.

É preciso saber que a obra divina da santa oração espiritual consistiu na ocupação constante de nossos antigos padres teóforos e que, como o sol, ela resplandeceu em meio aos monges, bem como para inúmeros eremitas e em monastérios onde se praticava a vida em comunidade, no Monte Sinai, entre os solitários do Egito e do deserto nítrico, em Jerusalém e nos monastérios situados nas suas imediações, em resumo, por todo o Oriente, em Constantinopla, no Monte Athos, nas ilhas do Arquipélago e enfim, nestes últimos tempos, pela graça de Cristo, na Grande Rússia.

É com essas palavras que se inicia o primeiro dos Capítulos sobre a oração espiritual do grande Starets (Ancião) russo do século XVIII, santo Paisios Velitchkovsky. Assim, pelo testemunho de um dos mais zelosos promotores da “oração espiritual” do monaquismo russo dos tempos modernos, a prática desta oração remonta à mais alta antiguidade cristã e fez parte do patrimônio sagrado da Tradição Ortodoxa. Com sua obra literária, São Paisios e seus discípulos se propunham levar ao conhecimento dos monges eslavos os textos patrísticos gregos referentes à “Oração de Jesus”, e a provar com isso que seus adeptos não eram inovadores, mas que ao contrário retomavam uma tradição antiga e venerável da Igreja. Tal foi, em particular, um dos objetivos que eles visavam ao traduzir a famosa Filocalia dos Padres népticos, que foi, durante a primeira metade do século XIX, junto com a Bíblia e o Grande Menólogo (Vida dos Santos) de São Dimitri de Rostov, o alimento espiritual preferido dos monges russos. A escola de Paisios não fazia senão continuar a obra iniciada no século XVI por São Nilo de Sora, primeiro escritor religioso russo no qual encontramos uma exposição sistemática da “obra espiritual”.

Não devemos porém esquecer que a tradição da Oração de Jesus é antes de tudo transmitida por um ensinamento oral direto. Um pouco afastado dos grandes centros monásticos russos, mas sempre em íntima relação com eles, costumava ficar uma poustinia, um eremitério ou skite, nome dado a um pequeno grupo de celas isoladas onde viviam alguns monges soba a direção de um “Ancião”. Ali, longe do barulho dos peregrinos e da vida comum do monastério, um ou diversos solitários se dedicavam à obra espiritual. Só eram admitidos uns raros visitantes leigos e alguns jovens monges que tivessem ouvido o “chamado da solidão”. Eles recebiam dos Anciãos a iniciação à oração espiritual, iniciação sempre muito pessoal, adaptada ao temperamento ou ao grau de maturidade espiritual do discípulo, todos os Startsi (Anciãos) russos, de Paisios Velitchkovsky a Teófano o Recluso, sempre insistiram na necessidade, para os que pretendem se engajar no caminho da oração contemplativa, de se socorrerem de um mestre experiente e de seguir seus conselhos com espírito de total submissão. “Os Santos Padres, diz o Starets Paisios, dizem que esta oração é uma arte. A razão disso, me parece, é que, assim como é impossível a um homem instruir a si próprio numa arte sem receber as lições de um artista experiente, também é impossível se dedicar a esta obre espiritual sem um mestre experimentado”. Segue-se daí que todo conhecimento puramente livresco e racional da obra espiritual, que não seja acompanhado de uma experiência vivida na intimidade de um mestre espiritual, permanece esquemática e inadequada.

       2.  A invocação do Nome

Já definimos brevemente a “oração espiritual” como sendo uma invocação do Nome de Jesus Cristo realizada pelo intelecto (ou espírito) no coração. Devemos agora precisar o sentido desta definição.

O que se afirma, em primeiro lugar, é que o conteúdo objetivo essencial da oração é o Nome de Jesus Cristo. O Ancião Paisios, no capítulo V de seu opúsculo, a descreve como o fato de “trazer constantemente no coração o Nome dulcíssimo de Jesus e ser inflamado pelo chamado incessante de Seu Nome bem-amado com um inefável amor por Ele”. É notável que esta definição estabeleça uma ligação estreita entre o “Nome” e a “Pessoa” de Jesus Cristo. Invocar o Nome equivale a trazer a Pessoa em si. O poder do Nome é o próprio poder de Cristo. O fogo de Sua graça, revelando-se no Nome do Senhor, inflama o coração com um amor inefável e divino. Toda interpretação “psicológica” e “nominalista” é errônea. A Oração de Jesus não é um exercício com vistas a criar, por meio de uma repetição mecânica, uma espécie de monoideísmo psicológico. Tampouco se trata de montar um mecanismo psíquico, mas de liberar uma espontaneidade espiritual, este “grito do coração” que faz jorrar como de uma fonte de água viva a presença do Senhor, comunicada pela pronúncia do Nome Divino. O Nome de Cristo é, portanto, aqui, muito mais do que um simples signo. Ele é um símbolo, se por este termo designarmos aquilo que representa um instrumento de comunicação real face ao objeto significado. Ele revela o Verbo divino e o representa, ou seja, ele o torna presente de modo comparável àquele que um ícone, na Igreja ortodoxa, representa e atualiza para o fiel o poder de Cristo e de Seus Santos.

Isto explica que para aqueles que zelam pela “oração de Jesus” a sua pronúncia seja de um lado o “meio” e de outro o próprio “fim” da vida espiritual. Ela é um meio, porque “as palavras são um auxílio para o espírito fraco que não consegue se fixar num ponto e sobre um único objeto”. O grande mal de que padece a humanidade decaída é a desordem interior, a dispersão dos pensamentos e dos sentimentos, que tornam o homem incapaz de fixar seu espírito em Deus. A oração e, mais do que todas, a Oração de Jesus tende a recriar uma unidade espiritual, e isto não apenas por ser “o resumo em poucas palavras da essência da fé Cristã”, mas porque o Nome de Cristo comunica ao homem a força da graça divina, por meio da qual ele se torna capaz de expulsar as potências demoníacas cuja presença gera a desordem e a mentira. Chamando em seu socorro pelo Senhor Jesus na luta contra o inimigo e contra as paixões, o orante se torna testemunho da derrota destes diante do Nome terrível de Cristo e reconhece o poder de Deus e de seu socorro[2].

Mas se na luta contra as forças do mal cuja obra consiste na desintegração espiritual do homem, a Oração de Jesus é um meio, um instrumento, ela encontra também em si mesma seu próprio fim. Como a realidade transcendente de Deus se revela e se comunica pelo Nome de Jesus Cristo, a finalidade consiste em se deixar absorver pela pronúncia deste, de deixar que este Nome, ou seja, que a Pessoa de Jesus, se aposse da totalidade do ser e em especial de seu coração, até que seu próprio batimento se torne oração e glorificação do Nome do Senhor. Enquanto a oração permanecer mecânica e cerebral ela não terá alcançado seu objetivo. É preciso que o espírito mergulhe de certa forma na prece, que ela se aproprie inteiramente dele a fim de que a irradiação do Nome divino penetre até as profundezas do ser e as ilumine. Este é o sentido das palavras misteriosas dos Startsi ao exortar seus discípulos a “fazer descer o cérebro até o coração”. Não se trata aqui de um esforço puramente intelectual de assimilação do sentido das palavras da oração, acompanhado de certo calor emotivo. O Nome de Jesus Cristo contido na oração “traz” realmente consigo a presença de Deus. Abrir-se a esta “presença real”, a fim de que ela penetre nas profundidades mais íntimas de seu espírito e as ilumine, é nisto que irá consistir todo o esforço do orante.

Do ponto de vista subjetivo, ou seja, do ponto de vista da ascensão do homem, os Startsi costumam distinguir dois degraus na “obra espiritual[3]”. Assim, de acordo com o testemunho dos “Anciãos”, haveria, para o que se dedicam à “obra espiritual”, um primeiro período em que predomina o sentimento de um esforço pessoal e doloroso: esta é a oração “ativa” ou “laboriosa”. O segundo período é o da oração “espiritual” ou “carismática”, que também é chamada de “espontânea[4]” ou “contemplativa”.

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[1] Lucas 18: 14.

[2] A veneração do Nome de Jesus é tão antiga quanto a Igreja. Ela tem suas raízes na piedade dos fiéis da Antiga Aliança em relação ao nome de Javé. Ela encontra sua expressão perfeita nas palavras de São Paulo: “Deus o elevou soberanamente e lhe deu o Nome que está acima de todo nome, a fim de que ao Nome de Jesus todo joelho se dobre no, sobre a terra e sob a terra, e que toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus seu Pai” (Filipenses 2: 9-11).

[3] Sem dúvida existe um número quase infinito deles, mas esta primeira distinção é essencial.

[4] Traduzimos como “espontânea” a palavra russa samodwiznaia, que significa exatamente “que se move por si mesma”, mas que não pode ser traduzida neste contexto por “automática”. Ela aqui designa algo que jorra sem esforço, por oposição àquilo que é fruto de um esforço voluntário trabalhoso.

Elisabeth Behr-Sigel
tradução de Tito Kehl

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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