A grandeza da Sexta-feira Santa e do Sábado Santo reside no fato de que a razão humana é incapaz de compreender que o Filho de Deus morreu. Em uma guerra, por exemplo, podemos avaliar a tragédia da situação pela extensão da destruição. De certa forma, o mesmo se aplica aqui. Para impedir a grande catástrofe da história da humanidade, Deus morreu. Para que não tivéssemos uma morte como a dos animais ou das plantas, para que continuássemos, para que tivéssemos ressurreição e salvação. Para impedir que nossa morte fosse eterna, Deus morreu.
Mas aqui e agora, na Terra, como vivemos? Às vezes, como se Cristo nunca tivesse morrido e ressuscitado.
Frequentemente vivemos como se estivéssemos mortos, espiritualmente e em nossa alma. Há tantas feridas e partes da nossa alma que não reconhecemos, e muitas vezes desconhecemos as raízes dos nossos problemas. Consciente ou inconscientemente, as enterramos, sem nos preocuparmos se isso é bom ou ruim. E será que esse enterro leva à ressurreição, como um grão de trigo, ou a outros distúrbios? Se pensássemos de forma diferente, seríamos capazes de reconhecê-las e cuidar delas? Naturalmente, isso implica esforço, o que é uma provação para a alma e o espírito. Mas será que é uma provação para a glória daqueles que a sofrem, o caminho para o Gólgota e a Ressurreição, ou simplesmente a carregamos conosco pela vida? Será que reagimos e construímos relacionamentos com os outros com base no que enterramos dentro de nós? Dessa forma, vemos o que está por trás das nossas vidas. Nossas discussões e confissões sobre os problemas acontecem sem que tenhamos consciência da raiz desses problemas. Dessa forma, a raiz pode crescer e se tornar muito difícil de remover, e a recuperação das feridas que deixa será longa e árdua.
Se estivermos em tal condição, como é possível que a morte de Deus nos alcance? Como podemos nós também ter uma ressurreição? Todos desejamos uns aos outros uma “boa ressurreição”. Mas será que temos consciência da ressurreição que almejamos? Será apenas para deixar para trás um mau hábito? Para sair de uma situação difícil? Para não pecar da mesma maneira novamente? Cada um de nós experimenta a ressurreição pessoalmente, dependendo do estado de nosso espírito e alma. Como foi o caso da multidão na época de Cristo, quando cada pessoa que se aproximava dele tinha algo diferente em mente.
A única maneira de encontrarmos alívio para o que estamos vivenciando é se decidirmos seguir o Gólgota de Cristo, subindo o nosso próprio. Porque sabemos que somente Cristo experimentou isso e é somente assim que podemos perseverar. Se nos encontrarmos no Gólgota sem termos trilhado o caminho de Cristo, será difícil, em primeiro lugar, encontrar a perseverança necessária e, em segundo lugar, experimentar a ressurreição.
Em nosso próprio Gólgota, precisaremos compreender o que estamos carregando para que possamos crucificá-lo com Cristo. Costumamos dizer que temos uma cruz, que carregamos uma cruz em nossa vida. Todos nós sabemos o que significa experimentar dor, injustiça e muitas outras coisas que pertencem a uma cruz. Pode ser que nossa própria cruz seja o autoconhecimento genuíno, porque está longe de ser fácil enxergar quem realmente somos. De fato, essa autoconsciência costuma ser o Gólgota mais difícil. O autoconhecimento não é apenas a revelação de alguns pensamentos ruins. É uma jornada completa durante a qual adquirimos autenticidade dia após dia e descobrimos se nossas reações são uma condição patológica que temos há anos ou algo mais. Estamos realmente em contato com nosso mundo interior? Ou simplesmente vivemos mecanicamente? A autenticidade reflete a congruência entre nossa vontade e nossas ações, entre nossos sentimentos e pensamentos, entre o “eu deveria” e o “eu quero”, ou entre o ethos e a forma de pensar ortodoxos e a liberdade social. Que concordância existe entre o que realmente nos representa e o que adotamos sem que seja algo que realmente nos define? Que concordância existe entre nossa fé e a fé da sociedade, entre a nossa aparência e o que realmente somos? Este caminho da autenticidade é o caminho do Gólgota e da Cruz. Quando essa autenticidade se perde, a identidade também se perde, quando deixamos de ser como Deus nos criou, quando deixamos de ser as maravilhosas obras de Suas mãos e começamos a adotar outras imagens, sejam as de outras pessoas ou outros valores que não nos representam, simplesmente porque queremos ser aceitos. Tornamo-nos, então, produtos de uma fábrica, todos iguais, e a singularidade e a personalidade se perdem.
Cristo, o Deus autêntico, é o único que sabia o que acontecia dentro e fora d´Ele. Ele não Se preocupava com Seus próprios problemas, mas, firme em Sua missão, pensava apenas em salvar a humanidade. Estava ciente da direção que tomava; sabia o cálice que iria beber. Mas deixou tudo de lado e seguiu em frente, porque desejava a cura redentora da raça humana. Entre os grandes eventos da Semana Santa, chegamos, ao final, a Nicodemos, na Sexta-feira Santa. Como sabemos, Nicodemos aparece no final, como vemos na pirografia, baseada em uma ilustração original do artista francês Gustav Doré. No serviço da deposição (a descida da cruz), cantamos com grande reverência: “Como Te sepultarei, meu Deus?”. Nesse serviço, vemos o grande evento que mencionamos no início. Deus morreu. Eles O sepultariam. Aqui vemos o nascimento de Nicodemos no Espírito e sua própria ressurreição pessoal. Diante dos terríveis sofrimentos e acontecimentos, na hora crítica da vida de Cristo, um momento em que todos estavam amedrontados, Nicodemos decidiu sepultar o Senhor com as próprias mãos.
Ele encontrou a coragem e tomou a decisão. Ele era o discípulo secreto. Costumava se encontrar com Cristo em segredo. Mas, no momento crucial, ele foi o homem de Deus. Seu amor genuíno por Cristo o fez revelar sua própria verdade e seu amor pelo Senhor.
No fim, como tudo isso nos afeta? Teremos nós também uma decisão ressurreta que revelará nossa própria verdade? Ou nos acostumamos tanto com outra coisa que qualquer mudança exigiria sangue, suor e lágrimas? A ressurreição exige autenticidade, autoconhecimento e a coragem de tomar uma decisão. Esses são elementos de liberdade e alegria verdadeira, especialmente quando os experimentamos pessoalmente e são mais do que apenas um pensamento agradável.
Cristo sabia de Sua morte e a aceitou; Sua morte foi o cumprimento de sua missão. Que tipo de morte experimentamos ainda hoje? E como podemos nos preparar para a morte do nosso corpo? Concordamos em sepultar aquelas partes mortificadas de nós que precisam ser ressuscitadas? Aquele dia seria o dia em que decidiríamos como viver dali em diante e com base em quê. Ou nos apegaremos às horas e minutos emocionalmente comoventes dos cultos? Será que esse dia nos fará nascer no Espírito e na Verdade, como filhos da Ressurreição, como aconteceu com Nicodemos?
Cristo morreu para nos libertar da situação trágica em que havíamos caído. Era um estado de morbidez e confinamento total dentro do nosso ego, que nos torna um sepulcro selado e “primitivo”, onde qualquer possibilidade de contato ou comunicação já está extinta, mesmo antes da morte. Esse era o estado trágico dos judeus e fariseus que crucificaram Cristo. E é a condição de muitos de nós que, embora a condenemos nos belos hinos da Grande Semana, seguimos o caminho dos judeus e fariseus. Deus nos chama para a vida da ressurreição, não para a morte, mas nossa condição fatal se reflete em Sua morte. Ele nos criou para “a abundância da vida”, como diz São João Evangelista [10, 10], mas nos restringimos à escassez, à mera sobrevivência. A queda da humanidade e nosso afastamento de Deus nos adoeceram na alma e no espírito, e é por isso que nos encontramos nesta situação. Nos tempos em que vivemos, acontecem eventos terríveis: pandemias, guerras, suicídios, homicídios, isolamento, medos, estresse, depressão e assim por diante. Nesta realidade sombria, parece não haver luz. Talvez devêssemos tentar enxergar com mais clareza o centro desta imagem e veríamos que é precisamente ali que Cristo crucificado Se encontra. Aquele dia resume toda a história da humanidade. Escolhamos escrever nossa própria história, diferente, e não deixar Cristo sozinho na cruz. Em vez disso, encontremos a coragem de Nicodemos, o discípulo secreto, mas verdadeiro. Amém.
Irmã Parakliti do Santo Monastério de Santa Maria Madalena, em Liti
tradução de monja Rebeca (Pereira)







