A LUTA DA GRANDE QUARESMA – PARTE 2

É claro que devemos jejuar apenas na medida de nossas capacidades, com discernimento, pois não somos todos iguais. “Se o bem não for bem feito, não é bom”. Em outras palavras, a menos que o bem seja feito de maneira adequada, com método, tempo e quantidade corretos, mas sim sem discernimento, fará mais mal do que bem. O jejum é certamente extremamente necessário, é bom, mas é um meio, e não um fim. O meio tem um fim, que é a humildade. É por isso que precisamos organizar tudo de acordo com o discernimento de um Pai Espiritual, alguém iluminado pelo Espírito Santo. Seu Pai Espiritual lhe dirá quanto tempo jejuar, com que frequência comungar, onde atacar o inimigo, o que fazer aqui e ali. E então, através do discernimento do seu Pai Espiritual, você poderá colocar sua vida em ordem. Não devemos fazer mais do que o apropriado; precisamos de moderação em todas as coisas, porque a imoderação anula qualquer benefício. Portanto, o jejum é santo, mas é um meio. Devemos ajustar isso de acordo com o que nosso Pai Espiritual diz e o que nossas faculdades psicossomáticas permitem. Contanto que haja boa vontade. Basílio, o Grande diz que há tanta diferença na resiliência entre as pessoas quanto entre o ferro e a grama.

Santa Sinclítica adoeceu no final da vida com uma doença na garganta. Sua garganta bendita, que sempre proclamara a palavra de Deus, infeccionou por dentro. Sua boca salvara inúmeras pessoas. O demônio pedira permissão para pô-la à prova e Deus a concedera. O fedor de sua carne em decomposição tornou-se tão insuportável que as monjas tiveram grande dificuldade em atender às suas necessidades. Usavam os perfumes mais pungentes para tentar lhe proporcionar um pouco de alívio em sua doença. Quando sua boca estava saudável, ela falava e beneficiava muitos, mas quando adoeceu, ela foi capaz de pregar com ainda mais força. Como poderia uma boca silenciosa e em decomposição pregar? Ela declarava silenciosamente sua grande paciência e perseverança na provação de Deus. Ela fez um esforço titânico para lidar com o demônio da impaciência, da queixa, do trabalho e da labuta da doença. De que ela precisava do jejum? É por isso que a doença é considerada um ascetismo involuntário. Uma pessoa tem câncer, outra diabetes, outra ainda tem muitos problemas de saúde. Como essas pessoas se purificarão? Como eles verão a luz de Deus? Através da paciência e da gratidão a Ele. Isso compensa o jejum que, por causa da doença, eles não conseguem cumprir e, na verdade, muitas vezes enfrentam dez vezes mais dificuldades do que se estivessem jejuando.

Durante esse período, precisamos realmente nos esforçar para nos purificar. Da tradição ascética, temos os eremitas que passavam a vida inteira no deserto, com trabalhos, labutas, jejuns, lágrimas, dormindo no chão e privando-se de todo tipo de prazer. E todo esse esforço, juntamente com a luta da alma contra todos os tipos de pensamentos referentes às rebeldias da carne, gerava santidade. Portanto, todo cristão que é monge e deseja experimentar a purificação tem o direito de trabalhar e não ser privado de sua recompensa. A pureza traz grande ousadia para com Deus, porque Ele mesmo é puro, a Mãe de Deus é puríssima e São João, o Teólogo, viveu sua vida como virgem, assim como tantos outros santos. Toda a beleza da Igreja se fundamenta na pureza. Quando nosso coração é puro e belo, ele exala fragrância e encanto. Mas se as pessoas têm impurezas em seus corações, é isso que elas expelirão. Vamos nos esforçar para purificar o interior do nosso ser, o nosso coração, para que sejamos puros e agradáveis ​​aos olhos de Deus.

Na história da Igreja, temos exemplos de muitas pessoas “no mundo” (não monges, diga-se de passagem) que agradaram a Deus e se tornaram grandes. Abba Pafnúcio [do egípcio antigo = “homem de Deus”], um asceta de grandes dons, certa vez orou a Deus e disse: “Deus, com quem me colocaste? Com ​​quem compartilho a mesma medida de virtude?”. E ouviu uma voz que lhe dizia: “Lá em Alexandria há um homem pobre, um sapateiro, num porão. Tu tens a mesma virtude que ele”. “Mas eu fui um eremita no deserto desde a infância e sou igual em virtude a um leigo, um homem casado?”. “Sim, tu és igual a ele”. No dia seguinte, o santo pegou seu cajado e sua bolsa, colocou alguns pães secos dentro e partiu para Alexandria. Desceu à cidade, encontrou o leigo e lhe disse: “O que fazes aqui, amigo?”. “O que devo fazer, padre? Sou um pecador, a pior pessoa do mundo”. “Podemos conversar?”. “Claro”. “Qual é a virtude que você está se esforçando para adquirir?”. “Virtude, eu? Eu vivo ‘no mundo’ e estou completamente perdido. Agora você, você tem virtudes”. “Não, você está fazendo alguma coisa”. “Não estou fazendo nada”. “Deus me mostrou, então você não pode mentir para mim. Eu orei e Ele me disse que compartilhamos a mesma medida de virtude. Deve haver algo em você”. “Desculpe, padre. Se o que eu faço pode ser considerado alguma coisa, eu lhe direi. Eu me casei e, desde o momento em que coloquei a coroa, disse à minha esposa: ‘Se você me ama, viveremos separados, como irmão e irmã, e trabalharemos pela santificação de nossas almas. Você concorda?’. ‘Concordo’. E desde então vivemos em pureza e virgindade”.

No deserto, o Bem-Aventurado Pafnúcio procurava purificar-se através da vida ascética e da contenção, sendo grandemente auxiliado pelas condições de seu modo de vida. O outro homem vivia “no mundo”, com esposa, com todos os desafios da vida secular e, com a ajuda de Deus, alcançou a estatura de santo. E sua luta era maior que a do eremita. Prova de que ele era grande aos olhos de Deus.

Depois disso, aconteceu algo mais relacionado a esse sapateiro. Certo dia, um cristão foi até o Bem-Aventurado Pafnúcio e disse:

“Padre, briguei com um sacerdote e não sei como ele reagiu, se me amaldiçoou ou me xingou, mas ele já faleceu e não nos reconciliamos. O que devo fazer agora?”.

“Não há nada que eu possa fazer neste caso, mas há um homem santo a quem posso enviar e ele o ajudará. Desça até Alexandria, a um porão onde há um sapateiro. Diga a ele que eu o enviei, mencione o problema e ele o ajudará.”

O cristão pensou: “Ora essa! Um eremita não pode ajudar, mas um leigo pode?”. Mesmo assim, por obediência ao eremita, fez como lhe foi dito. O sapateiro disse-lhe para esperar até o anoitecer e então o levou a uma igreja na cidade. Depois de lhe dizer novamente para esperar, o sapateiro aproximou-se da grande porta, fez o sinal da cruz e ela se abriu. O interior da igreja estava banhado em luz e havia música celestial. O sapateiro disse ao homem:

“Entre e olhe para os coros à esquerda e à direita. Você verá o padre lá”.

O homem entrou, viu o padre no coro da esquerda e recebeu o perdão.

Veja o que o esforço ascético pode alcançar? O que a luta da alma pode fazer? O que aquele leigo fez para purificar sua alma? Quando disse à moça com quem se casara que deveriam viver como irmãos, isso foi o fim da história? Não, eles jejuaram e vigiaram juntos, fizeram prostrações e leram o Evangelho. Eles liam livros patrísticos, iam à igreja, confessavam-se, comungavam, afastavam os maus pensamentos e lutavam assiduamente. E foi assim que se tornaram santos “no mundo”.

Eis aqui a prova de que, mesmo “no mundo”, quando os cristãos enfrentam a luta com boa vontade, a Graça de Deus não exclui ninguém. Mas nos desculpamos dizendo que, por estarmos “no mundo”, não podemos. O desejo nos domina. O que precisamos fazer? Lutar no corpo e na alma. Em outras palavras, controlar nossos pensamentos. Pensamentos vêm, fantasias pecaminosas, imagens, rostos, ídolos e cenas. Devemos nos livrar deles imediatamente com “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”. Quando a mente se atenta para não aceitar tudo isso e possui a arma divina, o Nome de Cristo, então todo inimigo da nossa alma é derrotado, seja o diabo, fantasias sórdidas ou pensamentos repulsivos. Então, se guardarmos nossa alma, mente e coração dessa maneira, nosso ser interior permanecerá limpo e puro.

Vamos lutar com todas as nossas forças agora, e as recompensas serão imensas. Ninguém encontra a graça a menos que se esforce. Se um agricultor não cuidar de suas plantações, não terá colheita. Quando nosso jejum é acompanhado, reforçado e flanqueado pela oração, estudo, vigilância, frequência à igreja, confissão, Sagrada Comunhão, boas obras – especialmente a esmola – então a beleza da preparação da alma para a recepção da Grande Semana Santa se completa. Então experimentaremos a Santa e Sagrada Paixão de Cristo com mais intensidade, porque nosso coração se enternecerá, se transformará e perceberá quão grande é o amor de Deus pela humanidade. Então, dentro de nós, experimentaremos com muita força a Santa Ressurreição, a celebraremos de maneira digna de Deus e celebraremos a Santa Páscoa junto com os anjos. Amém.


Geronda Efraim de Filoteou e Arizona
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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