Neste momento, estamos entrando na grande arena espiritual da abençoada Grande Quaresma. A Santa e Grande Quaresma é um tempo de contrição, de arrependimento, de lágrimas, de transformação pessoal, de uma nova etapa na vida espiritual. Como uma mãe carinhosa que cuida de seus filhos, nós, cristãos, a Igreja designou este tempo da Quaresma como dedicado à luta, para ajudar seus filhos a lutarem com mais afinco, a se purificarem, a se aproximarem de Deus e a serem considerados dignos de celebrar o grande dia da radiante Ressurreição.
Os cristãos, especialmente os monges, sempre dedicaram particular atenção a esta esfera espiritual e a consideraram especialmente sagrada, pois é um período que contempla tanto lutas espirituais quanto corporais. Há a luta do jejum, a luta das vigílias, a luta da purificação e a luta para cumprir os deveres espirituais, que são muito mais numerosos do que em outras épocas do ano. Há uma “desfragmentação” espiritual e as pessoas prestam maior atenção à voz da sua consciência para corrigir o que talvez tenham negligenciado e para melhorar espiritualmente.
A Igreja nos auxilia com hinos e serviços penitenciais, bem como com ensinamentos, para nos preparar para a luta pela purificação de nossas almas.
Temos as Liturgias penitenciais vespertinas dos Dons Pré-Santificados. Os Pré-Santificados são extremamente benéficos. Seu Hino Querubim está repleto de espiritualidade, contemplação e presença angelical. É por isso que devemos participar dessas Liturgias durante a Grande Quaresma com ainda maior contrição. Nós, que consumimos o Corpo e o Sangue de Cristo, devemos ser tão puros e limpos, tão retos em corpo e alma, para que a graça divina tenha seu efeito. Por essa razão, devemos levar vidas muito cuidadosas. Tanto em nossas celas quanto na igreja, devemos umedecer o rosto com lágrimas para lavar nossas almas e sermos dignos de receber a Comunhão. Claro, o demônio muitas vezes nos faz pecar pela falta de contrição, a mim mais do que a qualquer outro. O que significa que não podemos chorar e muitas vezes temos maus pensamentos. Maus pensamentos e as imagens pecaminosas que os acompanham devem ser rejeitados assim que surgirem. E quando tivermos pensamentos perversos ou nossa alma estiver fria para com um dos irmãos, não nos aproximemos do Deus de amor, que é tão puro e santo.
Durante todo este período, em cada celebração da Grande Quaresma, recitamos a oração de Santo Efrém, o Sírio, que é a seguinte: “Senhor e Mestre da minha vida”.
Através desta oração, o santo deseja fazer-nos compreender com muita clareza que, para além de outras virtudes, precisamos de ter um cuidado especial com o último caso, o da autocensura e da crítica aos nossos semelhantes, e que sem amor ao próximo não há qualquer possibilidade de progredirmos, ainda que minimamente, rumo à nossa purificação espiritual. Se não prestarmos atenção aos nossos pensamentos, às nossas palavras e ao nosso coração, o jejum não terá qualquer benefício. O jejum só é benéfico quando aliado ao amor ao próximo e quando não criticamos os outros. Quando não criticamos os nossos semelhantes, mas sim a nós mesmos, somos marcados pelo amor ao próximo e pela nossa alma, pela preocupação com a purificação e pelo cumprimento do grande mandamento: o amor a Deus e ao próximo. O amor a Deus e ao próximo são as duas grandes virtudes que sustentam toda a estrutura espiritual, pois, na sua ausência, as outras não podem tomar forma. “Deus é amor, e quem permanece em Deus no amor tem Deus nele” (1 Jo 4, 16).
Outra questão que exige nosso máximo empenho é a oração. Devemos orar em Nome de Cristo, sem negligenciar nenhuma oportunidade e sem perder tempo. Em nossa vigília pessoal, devemos nos esforçar, não deixar que o sono nos vença, nem a negligência ou a ociosidade; devemos nos dedicar de bom grado às questões espirituais. Assim que acordarmos, a oração deve ser a prioridade, seguida por nossa regra, nosso cordão de oração, o estudo e a contemplação de Deus. Devemos ir à igreja com grande disposição e, assim, obter os melhores resultados de nossa presença.
Além disso, o jejum, juntamente com o esforço físico, auxilia no perdão dos pecados. “Contempla a minha humildade e os meus esforços e perdoa todos os meus pecados”. Quando nos esforçamos no jejum, ajoelhando-nos, orando, com um esforço de coração e mente, esse esforço piedoso é santo e ricamente recompensado por Deus, porque torna as pessoas dignas da coroa da glória e da honra. Os demônios temem muito o jejum, porque ele os subjuga. “Este tipo [de demônio] não se afastará senão com oração e jejum”, disse o Senhor (Mateus 17:21). É por isso que os Santos Padres sempre iniciavam qualquer tarefa divina com um jejum. Consideravam o jejum muito poderoso e acreditavam que o Espírito Santo não exerce influência sobre as pessoas quando estão fartas de comida e com o estômago cheio. E todo cristão que deseja purificação deve começar por este fundamento, que é o jejum, a oração e a vigilância. Quando estes três se combinam, as pessoas alcançam grande estatura.
Antigamente, os padres tinham um costume sagrado. Na véspera da Quaresma, eles deixavam os monastérios e se embrenhavam no deserto, onde viviam em grande ascetismo até o Sábado de Lázaro, quando retornavam para celebrar o Domingo de Ramos juntos. Alguns levavam consigo apenas o essencial em termos de alimentação, outros comiam somente vegetais verdes, para enfrentar com mais vigor o deserto. Depois disso, passavam todos os dias da Semana Santa juntos na igreja, alimentando-se apenas de um pedaço de pão torrado e algumas nozes por dia. Fomos abençoados e agraciados por conhecer pessoas ascéticas que não apenas dedicavam a Semana Santa ao jejum e à luta espiritual.
Nosso falecido ancião, o Ancião José Hesicasta e Eremita (ele costumava viver em cavernas, onde o conheci), mantinha um jejum muito rigoroso durante a Semana Santa. E, claro, ele o impunha a nós também. De segunda a sexta-feira, cinco dias por semana, não havia comida, exceto um punhado de farinha, com a qual fazíamos uma massa apenas com água. Era isso. Um pratinho a cada vinte e quatro horas. E, ao mesmo tempo, trabalho árduo carregando pesos nas costas durante o dia e a noite inteira, centenas de prostrações e horas de oração. E tudo isso para purificar o ser interior, para torná-lo mais puro, mais honrado aos olhos de Deus, para adquirir ousadia diante de Deus e ser capaz de orar pelo mundo inteiro. Porque o mundo, as pessoas em todos os lugares, precisam das orações dos santos, particularmente as dos ascetas. Santo Antão, o Grande, sustentou o mundo inteiro com suas orações.
Geronda Efraim de Filoteou e Arizona
tradução de monja Rebeca (Pereira)







