Na quinta quinta-feira da Quaresma, nas Igrejas Ortodoxas, cantamos o Ofício do Grande Cânone de Santo André de Creta. Trata-se de uma obra monumental de hinografia, com mais de 250 odes, ou versos, às quais acrescentamos a longa leitura da vida de Santa Maria do Egito. Isso a torna provavelmente um dos ofícios mais longos da Grande Quaresma. Se contarmos também o número de prostrações realizadas após cada Ode, torna-se também um dos ofícios mais desconfortáveis para qualquer observador casual.
Mas a duração do Ofício e o desconforto físico de ficar em pé e das prostrações não são os únicos fatores que causam desconforto às pessoas durante este Ofício. O cânone expõe, como num espelho fiel, a natureza decaída e pecaminosa da humanidade, fazendo ampla referência a exemplos do Antigo e do Novo Testamento e relacionando-os às nossas próprias falhas. Não percebemos isso porque nos acostumamos a ter uma imagem muito positiva de nós mesmos; Fomos ensinados pela sociedade a nos orgulharmos de nossas conquistas e a desenvolver uma alta autoestima. Assim, mesmo quando nos olhamos no espelho, sempre buscamos as qualidades, não os defeitos, e quando alguém nos mostra que não somos tão bonitos, inteligentes ou piedosos quanto pensamos, nos sentimos um tanto ofendidos.
Mas o Grande Cânone não é a única coisa desconfortável na Igreja Ortodoxa; há muitas coisas aqui que contrariam a corrente do mundo secular. Veja, por exemplo, a iconografia. Muitas vezes, João Batista é retratado com uma figura muito severa, olhando para nós com olhos flamejantes que parecem dizer ao longo dos séculos: “Arrependei-vos, pois o reino dos céus está próximo!”. Muitos gostariam de substituir essa aparência acusatória, que nos chama a um senso elevado de responsabilidade cristã, por uma que transmita sentimentos calorosos e afetuosos, embora esse não fosse o verdadeiro São João Batista. Isso aconteceu no Ocidente, onde a estrutura corporal esguia do maior asceta que já existiu foi substituída pelas curvas arredondadas de um corpo bem nutrido, como nas representações de Leonardo da Vinci e outros. Quem se importa com a precisão histórica e teológica quando podemos ter nossa própria versão feliz da verdade?
A música bizantina tradicional da Igreja Ortodoxa também pode parecer áspera, por vezes, aos ouvidos ocidentais treinados, mais acostumados aos intervalos equilibrados da música clássica. Mas a música bizantina não é um sistema musical independente que por acaso é aplicado à Igreja, como acontece com o ocidental; a música bizantina cresceu organicamente na Igreja ao longo dos séculos, em completa simbiose com a poesia das orações e súplicas, com seus intervalos intrincados e, às vezes, aparentemente estranhos de seus oito modos, para se ajustar à complexidade dos sentimentos que são despertados em nossos corações, não apenas pelos intervalos musicais, mas pelas próprias palavras da oração.
Também não elogiamos a gula e a preguiça, mas praticamos o jejum e o trabalho constante em busca da salvação. Muitos consideram isso arcaico, desnecessário, opcional, antiquado, fundamentalista e assim por diante. Mas, ao observarmos os ícones da Igreja, não vemos indivíduos bem alimentados e relaxados, mas apenas figuras ascéticas, fortalecidas pelas grandes obras de jejum e luta espiritual, mártires que sofreram muito por sua fé, soldados que lutaram bravamente pela Verdade. Não é paradoxal que desejemos estar unidos a Cristo como os santos, mas não estejamos dispostos a seguir seus passos? Pedimos suas intercessões, mas discordamos de seu modo de vida simplesmente porque ele interfere em nosso conforto?
A arquitetura das igrejas ortodoxas, por sua vez, fomenta um certo desconforto na congregação, ao organizar seus espaços litúrgicos de forma a permitir a participação de todo o corpo na oração por meio de posturas prolongadas, prostrações, ajoelhamentos e assim por diante. O Ocidente limitou essa participação orgânica e holística nos cultos, ainda que por vezes aparentemente desordenada, com a introdução de fileiras bem organizadas de bancos fixos que aumentam o conforto, mas reduzem consideravelmente nosso envolvimento nos serviços.
Poderíamos continuar o dia todo com exemplos, mas é evidente que a ênfase excessiva no conforto e no Cristianismo “para se sentir bem” é prejudicial à nossa vida espiritual. O próprio Cristo, nosso Modelo arquetípico, não viveu uma vida confortável. Ele não se sentiu confortável quando foi injustamente acusado, nem quando foi espancado, flagelado ou pregado na cruz. Ele aceitou tudo isso como meios necessários para a nossa salvação. Ele não a buscou, pois orou para que esse fardo fosse removido Dele no Jardim do Getsêmani, mas ainda assim aceitou a vontade do Pai e cumpriu Sua missão. Conforto e bem-estar não eram Suas prioridades, mas sim a salvação da humanidade.
É claro que não somos responsáveis por toda a humanidade, mas somos responsáveis por nós mesmos em um nível muito pessoal. Não deveríamos necessariamente…
Sacerdote Vasile Tudora
tradução de monja Rebeca (Pereira)







