O fato de a principal tarefa da Igreja é o de curar o homem implica que essa também seja a tarefa da teologia, que é a voz da Igreja. A Teologia Ortodoxa não é uma ciência acadêmica e reflexiva; não é uma ocupação racional cujo objetivo seja a pesquisa protestante e filológica, mas principalmente a ciência da cura. A teologia é ou fruto da cura ou o caminho para a cura. Ou seja, um teólogo ortodoxo é aquele que foi curado e adquiriu conhecimento pessoal de Deus e também aquele que cura os outros.
São Gregório, o Teólogo, afirma que os teólogos são “aqueles que passaram pela theoria[3], que primeiro purificaram a alma e o corpo, ou pelo menos estão em processo de purificação. A teologia está intimamente ligada à hesíquia ortodoxa (quietude), isto é, à purificação interior das imagens e fantasias que enganam o homem. Essas pessoas são capazes de ajudar aqueles com a alma doente.
São João Clímaco associa a teologia à pureza perfeita, à purificação perfeita do homem: “… um estado completo de pureza é o fundamento da teologia”[4]. Esta é a pessoa que verdadeiramente teologiza. E, claro, teologizar não se relaciona com expressões intelectuais, mas com a revelação de Deus e com a condução das pessoas a esse conhecimento.
Todos esses Padres mostram que a teologia é, em grande parte, um produto da terapia humana e não uma ciência intelectual. Somente os purificados, ou pelo menos aqueles que estão em processo de purificação, são capazes de serem iniciados nos mistérios inefáveis e nas grandes verdades, de acolher a Revelação e, então, transmiti-la ao povo. A terapia precede necessariamente a teologia, e só então o teólogo é capaz de curar os outros. É por isso que, na Tradição Ortodoxa, o teólogo é associado e identificado com o Pai Espiritual, e o Pai Espiritual é o teólogo por excelência, aquele que sofre o divino e é capaz de guiar seus filhos espirituais infalivelmente.
Existe um magnífico apolytikion[5] que ilustra o que é a Teologia Ortodoxa e o que constitui a Tradição Ortodoxa e a sucessão apostólica. Muitos de nós acreditamos que a sucessão apostólica é apenas uma linha ininterrupta de ordenações. Não podemos rejeitar essa verdade, mas a sucessão apostólica também tem um aspecto interno. O apolytikion diz:
“Participaste dos caminhos, ascendeste ao trono dos Apóstolos, foste inspirado por Deus e encontraste a práxis para alcançar a theoria; eis porque expressaste infalivelmente a palavra da verdade e lutaste até o sangue, Santo Mártir Antimío, intercede junto a Cristo Deus para salvar nossas almas.”
O Santo Mártir Antímio, como muitos outros santos, tornou-se sucessor dos Apóstolos e participou dos caminhos apostólicos. Ele não apenas recebeu a ordenação dos Apóstolos, mas também viveu seu modo de vida. Isso significa que alcançou o Pentecostes, a experiência da Revelação de Deus, a deificação. Por isso, tornou-se “inspirado por Deus”. Para alcançar esse estado, empregou um método especial. Ascendeu à theoria de Deus por meio da práxis. Sabemos muito bem que práxis é a purificação do coração das paixões e theoria é a visão da Luz incriada.
Como resultado, o Santo Mártir Antímio expressou infalivelmente a palavra da verdade e tornou-se mártir para a glória de Deus. Portanto, inferimos que a expressão infalível da palavra da verdade não é produto do conhecimento intelectual, mas fruto da experiência de Deus. Além disso, o martírio não é resultado de uma forte vontade, mas da Graça de Deus, que fortalece toda a personalidade; sendo, portanto, produto da teoria (theoria).
Este apolytikion manifesta, de maneira muito vívida, o que é a Tradição Ortodoxa, o que é a sucessão apostólica, quem é um teólogo ortodoxo, como alguém pode se tornar inspirado por Deus e quem devem ser os verdadeiros pastores do povo de Deus. Esses teólogos guiam de maneira ortodoxa, inspirados por Deus e conduzindo infalivelmente seus filhos espirituais rumo à deificação e santificação.
____________
3. São Gregório, o Teólogo. Or. 27, 3. NPNFns, vol. 7, p. 285.
4. São João Clímaco. A Escada. Degrau 30. CWS p. 288.
5. Um apolytikion é um hino de despedida, também conhecido como tropário.
Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução de monja Rebeca (Pereira)








