Quando falamos da doença da alma, referimo-nos principalmente à perda da Graça Divina, que também tem repercussões no corpo, e então a pessoa toda adoece. Pode haver ausência de doença corporal, mas sem a Graça de Deus não há saúde.
Para melhor compreender a Queda do homem, é necessário começar com o que dizem os Santos Padres: a alma é noética e inteligente, ou seja, contém tanto o nous quanto a razão, e estes se movem em paralelo. O nous se distingue da razão por ser o olho da alma, o foco da atenção, enquanto a razão é verbal e articulada, formulando pensamentos através do cérebro. Assim, se o nous se move de acordo com a natureza, ou seja, se é saudável, a razão também é saudável, e o espírito, isto é, o amor, também é saudável. Se o nous não é saudável, o homem adoece tanto na razão quanto no amor. O mau funcionamento dessas duas faculdades, nous e razão, causa a doença.
Antes da Queda, Adão vivia em estado natural. Seu nous estava voltado para Deus e recebia a Graça d´Ele, enquanto a razão estava subordinada ao nous gracioso e, portanto, funcionava normalmente.
A Queda, que constitui a verdadeira doença, é na realidade o obscurecimento do nous. O nous obscureceu-se, perdeu a Graça de Deus e espalhou trevas por todo o homem. Na Tradição Ortodoxa, por Queda do homem, entendemos três coisas:
- Primeiro: o nous obscureceu-se e deixou de funcionar normalmente.
- Segundo: o nous identificou-se com a razão, e a razão tornou-se o centro do homem.
- Terceiro: o nous foi escravizado pelas paixões e pelas condições externas. Esta foi a morte espiritual do homem. E, assim como acontece quando o olho do homem é ferido e todo o corpo se obscurece, quando o olho da alma, o nous, é cegado, todo o organismo espiritual adoece. Ele cai em profundas trevas. Cristo disse: “Se a luz que há em ti são trevas, quão grandes são essas trevas?” (Mateus 6:23).
O obscurecimento do nous cria terríveis anormalidades na vida do homem. Provoca um colapso devastador de toda a sua composição espiritual. Entre outras coisas, o homem faz de Deus um ídolo, pois Deus torna-Se uma criatura da lógica; O homem explora seus semelhantes por prazer, ambição e avareza, e vê o mundo como uma pedreira que precisa ser subjugada às suas próprias necessidades individuais.
Assim, percebemos que todos os problemas, tanto sociais quanto interpessoais, são internos; referem-se à doença da alma, à perda da Graça divina. Quando a energia noética do homem não funciona bem, observamos muitas anomalias. Todas as paixões se revoltam, e o homem usa tanto Deus quanto o seu semelhante para consolidar a sua própria segurança e felicidade individuais. Ele fica, então, continuamente sob estresse, pensando estar numa prisão.
Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução de monja Rebeca (Pereira)








