A IGREJA COMO CENTRO TERAPÊUTICO: A CURA DA ALMA

Na seção anterior, dissemos que a Igreja é um Hospital, um centro de cura. Ela cura a personalidade doente do homem. Se o obscurecimento do nous é a verdadeira doença, então a cura consiste na iluminação e vivificação do nous. O tema da psicoterapia ortodoxa deve ser visto sob essa perspectiva. Não se preocupa com o equilíbrio psicológico, mas sim com a iluminação do nous e a união do homem com Deus.

Há um hino da Igreja muito expressivo no qual pedimos a Deus que ressuscite a alma mortificada, assim como ressuscitou Lázaro. Cantamos:

Imitemos, ó fiéis, Marta e Maria e enviemos ao Senhor atos piedosos como ntercessores, para que Ele venha ressuscitar nossa alma, agora morta no túmulo, insensível à negligência, sem temor do Divino, sem a energia da vida. Clamemos: “Vê, Senhor, e assim como ressuscitaste Teu amigo Lázaro do terrível cativeiro, Misericordioso, concede-nos a vida a todos, oferecendo-nos a Tua grande misericórdia.

Os Três Tipos de Cristãos

A imagem de um centro de cura, um hospital, nos ajuda a compreender a tarefa dos clérigos, que é médica, e toda a vida e o objetivo da Igreja. Existem três tipos de pessoas na Igreja.

O primeiro inclui os psicologicamente não curados, ou seja, aqueles que são batizados, que são potencialmente membros da Igreja, mas não ativam o dom do Batismo. De fato, o Batismo não é suficiente; a observância dos mandamentos de Cristo também é necessária.

A segunda categoria inclui aqueles em processo de cura, os cristãos que lutam para serem curados. Eles veem as paixões em si mesmos; percebem o obscurecimento da mente e se esforçam para serem curados com os meios oferecidos pela Igreja Ortodoxa.

A terceira categoria inclui os curados. A esta categoria pertencem os Santos, que receberam a Graça do Espírito Santo, purificaram seus corações das paixões, alcançaram a iluminação da mente e a visão de Deus. Os Santos são chamados deificados porque participam da deificação. O fato de terem sido curados não significa que não cometam erros em nível humano, mas sim que possuem uma orientação correta; sabem o que é a Graça de Deus e sabem como se arrepender. Sua sabedoria está corretamente direcionada a Deus, eles possuem bom autoconhecimento, estão cientes dos dogmas e, em geral, sabem exatamente o propósito de sua existência.

Formas de Curar a Alma

É necessário agora examinar as formas pelas quais a personalidade do homem é curada. Entre outras coisas, isso demonstra o caráter e o conteúdo do ascetismo ortodoxo.

O primeiro requisito é a fé correta. Por fé, entendemos a verdade revelada. Deus Se revelou aos Profetas, aos Apóstolos e aos Santos. Essa verdade é autêntica porque se manifesta por meio da Revelação.

A fé correta mostra o que Deus é, o que o homem é, qual o propósito do homem e como ele pode alcançar a comunhão com Deus. Quando a fé é adulterada, a vida é imediatamente adulterada; o homem perde sua orientação e se torna incapaz de atingir seu objetivo. O que acontece é semelhante à ciência médica, ao tratamento curativo em um hospital. Se a teoria subjacente sobre uma doença estiver errada, a cura também estará errada, o que implica que tal doença não é curada naquele hospital específico. É por isso que nós, ortodoxos, insistimos em salvaguardar a Revelação. Se ela for alterada, nossa salvação se torna incerta.

Devemos encarar as decisões dos Concílios Ecumênicos sob essa perspectiva. O ensinamento de que Cristo é Deus está associado à salvação, visto que somente Deus pode salvar o homem. Se Cristo não possui duas naturezas perfeitas, uma divina e outra humana, nossa salvação é impossível. O mesmo se aplica se Deus não possui uma vontade divina e uma vontade humana. Portanto, mantermo-nos fiéis à precisão dogmática é um pré-requisito para a cura, a salvação e a santificação.

O segundo requisito para a terapia da alma é a consciência da doença. Isso é necessário porque, uma vez que sabemos que estamos doentes, buscamos um médico e uma cura. Caso contrário, permanecemos na ignorância e na doença.

O mesmo se aplica às doenças corporais. A ignorância da doença leva à morte. O conhecimento da doença, derivado da dor, nos impulsiona a tomar todas as medidas necessárias para obter a cura. É terrível desconhecer nossa doença corporal.

Um dos maiores pecados de nossa época é o amor-próprio e a autossuficiência. Estamos contidos em nós mesmos, iludidos de que estamos bem, de que não precisamos de médico. A ilusão da saúde é a pior hipocrisia. São João Evangelista disse: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 João 1:8).

Obviamente, perceber nossa terrível condição não é fácil. O homem carnal não consegue conhecer suas paixões. Aliás, ele pensa que a vida contrária à natureza, como a experimentada após a Queda, é natural. Isso é realmente trágico. Contudo, existem certas maneiras pelas quais o homem pode chegar ao autoconhecimento. Permitam-me relatar algumas delas.

Pode-se conhecer a própria condição através da energia da Graça Divina. O que acontece com as doenças espirituais é idêntico à forma como as doenças corporais são detectadas, por meio de exames apropriados, como radiografias e tomografias. A Graça incriada de Deus entra em nossa alma, e então vemos nosso terrível estado distorcido e desordenado. No início da vida espiritual, a visão da Luz incriada é vivenciada negativamente, ou seja, como um fogo que consome as paixões.

Outra forma de autoconhecimento é o estudo das Sagradas Escrituras, das Obras Patrísticas e da Vida dos Santos. Ao lermos esses escritos, percebemos o amor e a filantropia de Deus e o quão longe o homem é capaz de chegar pela graça de Deus e por sua própria luta pessoal. Podemos também perceber nossas deficiências e fraquezas.

Nesse caso, o estudo funciona como um espelho espiritual. O ascetismo dos Santos incomoda nossa consciência, desfaz nossa inação, invalida todas as desculpas e nos leva à observância dos mandamentos de Cristo.

Podemos dizer que, ao reconhecermos nossa enfermidade, somos auxiliados por nossos fracassos na vida. Quando alguns de nossos alicerces são removidos, quando chegamos ao ponto de dizer, como os discípulos no caminho de Emaús: “Mas nós esperávamos que fosse Ele Quem havia de redimir Israel” (Lucas 24:21), então somos capazes de realmente ver Cristo e buscar a nova vida que Ele dá ao mundo. Fracassos pessoais, familiares e sociais nos levam a um impasse. Nesse ponto, se tivermos uma disposição interior, uma inspiração espiritual, associada à esperança em Deus, isso poderá nos levar a uma compreensão de nossa condição espiritual.

Outro excelente método para compreender as doenças da alma é a prática da oração racional. Quando repetimos com os lábios e a mente a oração “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”, a Graça de Deus romperá a barreira externa da ilusão do bem-estar e revelará nossa miséria.

Porque Deus nos ama e se interessa pela nossa salvação, Ele continua nos enviando convites para que não nos desviemos do nosso propósito e destino. Ele chama uma pessoa através do desespero piedoso, outra pela iluminação da Luz sagrada, uma terceira pelo estudo, uma quarta pelo encontro com uma pessoa santa que teve a experiência da outra vida existente na Igreja, e por diversos outros meios.

O terceiro requisito para a nossa cura é encontrar um terapeuta. Buscamos o médico adequado para as nossas doenças corporais, e devemos fazer o mesmo para as doenças espirituais. Para as primeiras, consultamos o médico da província, depois vamos a grandes hospitais especializados, depois consultamos especialistas renomados e, finalmente, visitamos professores de faculdades de medicina e médicos no exterior. Devemos demonstrar o mesmo, ou até maior, fervor pelas doenças espirituais que nos afligem.

Os Santos Padres afirmam em suas obras que os clérigos de todos os graus são chamados de curadores. Em muitos de seus sermões, São Gregório, o Teólogo, refere-se a esse ponto e chama os clérigos de curadores porque curam as doenças psicológicas do povo. Ele próprio afirma que se recusou a pastorear o povo e, em vez disso, partiu para o deserto após sua ordenação como presbítero, porque se sentia indigno de curar as doenças dos outros, uma vez que ainda não havia se curado. É significativo que São Gregório chame a obra da divina providência de Cristo de trabalho terapêutico e Cristo de terapeuta dos homens. Ele chama o sacerdócio de ciência terapêutica e serviço terapêutico. Ele diz, caracteristicamente: “Somos servos e colaboradores desta terapia”.

A tarefa fundamental dos sacerdotes não é vender ingressos para o Paraíso, mas curar, para que, quando o homem vir a Deus, ele se torne o Paraíso e não o Inferno para o homem. Se examinarmos todos os Sacramentos e Ritos Sacramentais disponíveis ao sacerdote, do Batismo à Sagrada Comunhão, e do arrependimento ao funeral, descobriremos que todos pressupõem e visam à cura do homem. Os Sacramentos não são eventos e rituais sociais; os ritos da Igreja não visam à justificação psicológica e ao cultivo de sentimentos religiosos, mas à cura do homem. Ao encararmos os Sacramentos fora do contexto da terapia da personalidade humana, ao participarmos deles sem a purificação do coração e a iluminação da mente, ignoramos o propósito mais profundo da vida na Igreja.

É comum ouvirmos a desculpa de que ainda não encontramos um Pai Espiritual adequado para nos acompanhar nessa terapia. Minha resposta é que a maioria de nós, na verdade, precisa de um enfermeiro e de um médico de família, não de uma cirurgia sofisticada. Precisamos começar com o Pai Espiritual mais próximo, em nossa paróquia, em nossa cidade. O indispensável é abrir o coração a Deus, expor livremente nossas feridas e pedir Sua Graça. Se Deus perceber que precisamos de um médico melhor e mais “científico”, Ele o revelará a nós. Da mesma forma, se o nosso Pai Espiritual perceber que precisamos da ajuda de um Pai Espiritual mais experiente, porque avançamos na vida espiritual e temos necessidades espirituais mais sutis, então Ele nos indicará o caminho. Sem dúvida, é fundamental começar a se confessar a alguém. Não devemos perder tempo precioso procurando um Pai Espiritual experiente. Se necessário, ele aparecerá no momento certo.

O que dissemos ainda não é suficiente. Precisamos também de um quarto caminho para a nossa cura interior, e este é a descoberta e a aplicação do tratamento terapêutico adequado. Nas doenças físicas, se alguém toma consciência da sua enfermidade e procura o melhor médico, mas não segue o tratamento recomendado, não se cura, não melhora. O mesmo se aplica às doenças espirituais. Fé correta, consciência da doença e um terapeuta adequado são pré-requisitos, mas se não seguirmos o caminho terapêutico correto, se não tomarmos o remédio adequado, não podemos ser curados.

Existem vários desses caminhos. Permitam-me mencionar o que é sugerido em muitos hinos da Igreja: o jejum, as vigílias e a oração. Menciono este método porque, no esforço de aplicar estes mandamentos, muitas coisas emergem e somos auxiliados na nossa vida espiritual. Ao praticá-los, desenvolvemos luto, arrependimento, amor a Deus e aos nossos irmãos, pureza de coração, e assim por diante. É por isso que são meios muito importantes para a nossa terapia espiritual.

O jejum visa ao exercício da alma e do corpo, para que caminhem juntos rumo à deificação. Há o jejum corporal e o jejum espiritual. O jejum corporal refere-se à qualidade e à quantidade de alimentos, conforme determinado pela Igreja. Está cientificamente comprovado que algumas refeições são mais pesadas e outras mais leves para o organismo. Às vezes, é essencial jejuar com muita rigidez, pois dessa forma a mente humana se desapega dos bens materiais e se volta para Deus. Além disso, a obediência aos jejuns determinados pela Igreja ajuda o homem a submeter sua vontade à vontade e à experiência universal da Igreja. Combinado com o jejum espiritual, o jejum corporal introduz o homem à atmosfera de purificação, ou seja, à luta para purificar o coração das paixões da autogratificação, da avareza, da ostentação e do egoísmo.

As vigílias são um esforço para subordinar o corpo à alma, no sentido de que ele não ultrapasse suas funções e sua missão. A Igreja não compartilha da visão dualista da filosofia helenística, segundo a qual existem duas entidades separadas, a alma e o corpo. As vigílias, assim como todos os outros exercícios físicos, visam precisamente à unidade da alma e do corpo. De qualquer forma, muitas pessoas permanecem acordadas por diversos motivos hoje em dia. Portanto, é valioso fazer esta vigília por Deus, permanecer acordado para a glória de Deus. É claro que, no mundo, a vigília não se resume à oração noturna dos monges nos Monastérios, mas sim a um exercício contra o sono excessivo e o conforto físico excessivo que geram inúmeros males para o organismo humano. A vigília também está intimamente ligada ao equilíbrio do organismo psicossomático do homem e à vigilância, que é essencial na vida espiritual.

A oração está ligada ao jejum e às vigílias. Jejum e vigílias sem oração são inúteis. De fato, se o Espírito Santo não vier, todos os exercícios físicos são fúteis. A oração pode ser adoração, com toda a comunidade, ou inteligente, feita pela razão humana, ou noética do coração, quando o nous, no Espírito Santo, entra no coração do homem. Então, o nous e o coração se unem no poder e na energia do Espírito Santo, e isso se chama iluminação do nous.

Os hinos da Igreja, o jejum, as vigílias e a oração são chamados de dons celestiais. Eles auxiliam o homem em sua jornada rumo à deificação e santificação. Conduzem o organismo psicossomático ao equilíbrio. Em Adão, havia tal equilíbrio antes da Queda. O nous era inspirado pela Graça de Deus; nutria o corpo e, em seguida, irradiava a Graça para toda a criação. Após a Queda, porém, o nous foi obscurecido. O corpo é alimentado pela criação em vez do nous, e as paixões corporais se manifestam. A alma é alimentada pelo corpo, e isso cria paixões psicológicas. Com o jejum, as vigílias e a oração, essas funções contrárias à natureza são corrigidas. É por isso que a purificação, a iluminação e a deificação se expressam por meio desses dons.

* * *

Precisamos de terapia. Não basta sermos membros em potencial da Igreja, precisamos nos tornar membros ativos. A Igreja Ortodoxa possui um sistema terapêutico perfeito, um excelente tratamento terapêutico, desde que desejemos nos tornar pessoas-hipóstases.


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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