Entramos no grande e auspicioso tempo da Quaresma, a Grande Quaresma, que se abre diante de nós para que possamos trabalhar espiritualmente e perseverar neste período de batalha espiritual com prontidão e determinação, a fim de venerar a Santa Ressurreição de nosso Senhor, que significa nossa própria libertação e ressurreição do pecado.
A Santa Quaresma é considerada um período especial e abençoado na Igreja para a batalha espiritual. É claro que isso não significa que um cristão deva esperar até a Quaresma para começar a batalha espiritual. Para nós, cada dia deveria ser tanto Quaresma quanto Ressurreição; cada dia deveria ser tanto Sexta-feira Santa, quanto Sábado Santo e Páscoa. Mas, como somos humanos e experimentamos diversas mudanças e flutuações em nosso estado espiritual e em toda a nossa disposição, a Igreja, tratando-nos com grande cuidado e sabedoria, nos oferece lembretes espirituais diários: por meio das festas dos santos, por meio das grandes festas do Senhor e da Theotokos, por meio dos jejuns, por meio da Santa Quaresma, para nos lembrar que temos a oportunidade de trabalhar espiritualmente durante este tempo abençoado. A Santa e Grande Quaresma é um tempo particularmente abençoado, porque toda a Igreja, todos os cristãos ortodoxos desta terra, todos nós como um só corpo, jejuamos um jejum agradável ao Senhor e nos esforçamos para fazer todas as coisas necessárias que constituem a vida em Cristo.
“Eis agora o tempo aceitável, eis agora o dia da salvação” (2 Coríntios 6:2), cantamos nas Vésperas do Domingo do Perdão. Ou seja, agora é um tempo favorável, agradável a Deus, um tempo de arrependimento e salvação. A Santa e Grande Quaresma é permeada por uma paz especial de arrependimento, que atrai a graça do Espírito Santo aos corações das pessoas. Portanto, nas Vésperas do Domingo do Perdão, a Igreja lança o fundamento da Quaresma: o perdão entre nós. A passagem do Evangelho lida neste dia fala precisamente sobre isso: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós” (Mateus 6:14), diz Cristo.
Para travar a guerra espiritual, a presença da graça divina é necessária, pois não se trata de uma batalha humana. A luta espiritual da Grande Quaresma não é uma dieta que seguimos para perder peso. Os Quarenta Dias Santos têm um significado diferente: servem para que a graça penetre no coração humano, para que se evite o pecado, para que se vença o pecado e as paixões que destroem a alma, para que se receba a iluminação de Deus e, assim, se alcance o Reino de Deus. Juntamente com o esforço físico e o jejum, são necessários o fortalecimento que vem de Deus e a presença de Deus.
Buscamos o perdão uns dos outros para que, por meio do perdão e do arrependimento, o Espírito Santo de Deus possa entrar em nossos corações, permanecer conosco, abrir nossos olhos e nos conduzir ao reconhecimento de nossa pecaminosidade, para que possamos nos voltar para Deus e pedir perdão pelos nossos pecados. Se toda essa luta não nos levar a pedir perdão pelos pecados, se não nos conduzir ao estado abençoado do arrependimento, então essa luta não dará frutos. Somente o arrependimento nutre e purifica a alma humana.
O trabalho espiritual da Grande Quaresma consiste precisamente no arrependimento. Jejum, vigílias, numerosos serviços religiosos, prostrações, posturas em pé, leituras — tudo o que fazemos durante este período visa amolecer nossos corações. Trabalhamos neste campo do jejum com grande determinação, sem timidez. Aqueles que temem jamais alcançarão algo: os indecisos não têm parte no Reino de Deus. Aqueles que temem acreditam que suas conquistas espirituais dependem de sua própria força — esquecem-se do poder de Deus, esquecendo-se das palavras do Apóstolo Paulo, que diz: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13). É com essa mentalidade que devemos empreender a luta espiritual da Grande Quaresma, “como leões que expelem fogo”, como diz São João Crisóstomo. Como leões que expelem chamas e fumaça, cheios de força e impetuosidade, também nós devemos trabalhar espiritualmente com o mesmo vigor durante o abençoado período da Grande Quaresma. Não devemos ter medo, não devemos ser tímidos, não devemos pensar que falharemos. Deus está conosco e não nos abandonará. Mostre a Deus sua intenção e você receberá d´Ele a força para realizar a obra da sua salvação.
Mas a obra da salvação não se limita apenas ao jejum. Se deixarmos de jejuar de acordo com as ordenanças da Igreja e, com a bênção de nosso Pai Espiritual, demonstrarmos condescendência à nossa doença e fraqueza física, isso não será tão terrível. Quem pode nos impedir de sermos humildes e nos arrependermos? Não precisamos de força física, nem precisamos ser jovens, idosos, fortes ou maduros para termos um espírito humilde, para evitarmos o julgamento, para evitarmos o pecado, para termos um coração contrito e para permanecermos na graça da humildade. Todos nós, jovens e idosos, doentes e saudáveis, podemos ter essa graça do arrependimento em nossos corações, nascida da humildade. Este é o nosso objetivo.
É exatamente isso que Deus deseja de nós. Podemos alcançar isso se nos libertarmos dos grilhões das paixões e do pecado. O jejum é o primeiro passo que nos conduz a esse estado de maturidade e coragem que rompe os grilhões do pecado, para que possamos, posteriormente, continuar nossa batalha espiritual com maior zelo e ousadia. Devemos abandonar a malícia, a maldade e tudo o que obscurece a imagem de Deus e, acima de tudo, adquirir santa humildade. Uma pessoa humilde pode se arrepender, orar e receber saúde da alma e do corpo, enquanto uma pessoa orgulhosa não pode se arrepender. Uma pessoa orgulhosa não consegue compreender sua condição; acredita que não precisa de Deus nem de ninguém. Nunca sente culpa, nunca sente necessidade de pedir perdão ao seu irmão. Acredita que está sempre certa. Na realidade, vive na escuridão da ausência de Deus. Deus habita no coração dos pecadores, mas apenas naqueles que são humildes e arrependidos. Deus nunca habita em uma pessoa orgulhosa e nunca lhe concede graça. Deus resiste às pessoas orgulhosas. Ele é o inimigo do orgulho e do egoísmo. Portanto, neste tempo abençoado, resolvamos realizar um arrependimento ainda mais profundo, juntamente com o feito físico do jejum.
Esforcemo-nos para alcançar esse estado abençoado e pleno de arrependimento, conquistado através do choro diante de Deus. Deus entrará em nossos corações para nos consolar e proclamar o Seu amor e a nossa salvação.
Na Igreja, não vivemos de falsas utopias, sonhos ou piedade moralista. Na Igreja, conhecemos a Deus. Deus está aqui entre nós, e o homem é chamado a experimentar Deus como a maior experiência de sua vida. Prova disso são todos aqueles santos que sentiram a presença de Deus. Então seremos verdadeiramente filhos de Deus, filhos da Igreja; seremos verdadeiros cristãos, em quem o Evangelho se encarnou e frutificou, transformando nosso ser, tornando-o um templo do Espírito Santo, um vaso escolhido por Deus. Que esta graça do arrependimento sempre nos acompanhe, especialmente durante este abençoado tempo da Santa Quaresma. Recebendo o perdão uns dos outros, peçamos a Deus, com Sua graça e o poder da Preciosa Cruz, que nos abençoe, nos cubra e nos fortaleça, para que com alegria, determinação e grande coragem, como corredores em uma esteira, possamos continuar a batalha espiritual da Quaresma e nos seja concedida a doçura da presença de Deus em nossos corações. A Igreja Ortodoxa sempre coloca o amor a Deus em primeiro lugar. Amor significa uma relação pessoal, uma conexão pessoal entre uma pessoa e Deus. Para alcançar esse amor, temos cultos, vigílias, orações, genuflexões, oração mental e o Cordão de Oração. Os ensinamentos e o Evangelho de Cristo são as ferramentas e os meios que nos conduzem a Cristo. A Igreja fala de uma Pessoa, Cristo, e não de ideais. Quando compreendemos que essa Pessoa é o coração da Igreja, o cerne do amor e do nosso próprio ser, então compreenderemos muito sobre a Igreja. A Igreja une o homem a Cristo. Os hinos, as leituras e todo o espírito da Quaresma e da Semana Santa tocam o coração do homem, destruindo a insensibilidade e a dureza, para que ele se volte para a busca do amor de Cristo.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







