A purificação da mente e do coração
– Geronta, como alguém adquire a purificação da mente e do coração?
– Eu lhe disse que para purificar a mente e o coração você não deve aceitar os ardilosos pensamentos apresentados pelo demônio, nem ter seus próprios pensamentos ardilosos. Você deve tentar ter bons pensamentos todo o tempo, para evitar ser escandalizado facilmente, vendo as faltas dos outros com leniência e amor. Quando os bons pensamentos são multiplicados, a pessoa se limpa espiritualmente e se comporta com devoção autêntica, ela se torna pacífica e vive como se estivesse no Paraíso. Caso contrário, ela vê a tudo com suspeita e sua vida se torna um inferno. Ela própria transforma sua vida num inferno.
Devemos trabalhar para adquirir a purificação. Devemos reconhecer nossa miséria, mas isso ainda não é o suficiente. Se pararmos de aceitar os pensamentos ardilosos, e se não fizermos nada ardilosamente, mas, ao contrário, se tivermos apenas bons pensamentos a respeito do que nos dizem e do que vemos, então nossa mente e nosso coração serão purificados. Claro, o tentador continuará a nos enviar, de tempos em tempos, mensagens telegráficas traiçoeiras. Mesmo que nos afastemos de nossos próprios pensamentos, as tentações do diabo persistirão; mas elas não se cravarão em nós se nosso coração for puro.
– Geronta, a oração auxilia na purificação da mente?
– Apenas a oração não é suficiente. Não existe benefício em queimar quilos de incenso enquanto oramos, se nossa mente estiver cheia de maus pensamentos em relação aos outros. As mensagens telegráficas malignas são transmitidas da mente para o coração e transformam a pessoa num animal. Deus quer que tenhamos um coração puro[28], e nosso coração é lavado quando não permitimos que maus pensamentos em relação aos demais se instalem em nossa mente.
– Geronta, a pessoa deve primeiro ter bons pensamentos, para então Deus ajudá-la?
– Uma pessoa merece a ajuda divina apenas se tiver bons pensamentos. Com os bons pensamentos, ela purifica o coração maligno, porque é do coração que procedem todas as coisas más[29]. E é do que abunda no coração que a boca está cheia[30]. E, com certeza, Deus nos recompensará pelos bons pensamentos que tivermos.
Não devemos ser suspeitosos
– Geronta, o que poderá me ajudar a afastar minhas suspeitas?
– Será que as coisas são sempre como as vemos? Se você costumeiramente vê as coisas de modo negativo, coloque um grande ponto de interrogação antes de qualquer pensamento seu, e espalhe bons pensamentos em relação aos demais, para evitar cometer erros no seus juízos. É melhor se colocar dois pontos de interrogação, e melhor ainda se forem três. Isso acalmará e beneficiará você, e também beneficiará os outros. Caso contrário, com pensamentos sinistros você verá tudo embaçado, confuso e triste, e terá um prejuízo espiritual. Mas quando você confronta o que vê, com bons pensamentos, depois de um tempo descobrirá que, de fato, as coisas são como você as viu, com seus bons pensamentos. Eu vou lhe contar um incidente, para lhe mostrar o que um pensamento sinistro é capaz de fazer.
Um dia, um monge veio à minha kaliva e me disse: “O Ancião Caralampos é um feiticeiro, eu o vi praticando magia!”. “Que coisa tola para se dizer! Você devia ter vergonha de si mesmo”, eu lhe respondi. “De fato, eu o vi uma noite de luz cheia, pingando alguma coisa de um vidro junto aos arbustos, e dizendo ‘m, m, mmm…’”. Noutro dia em fui até o Ancião Caralampos e perguntei a ele: “Ancião Caralampos, como está você? Está tudo bem com você? Alguém o viu pingando algo de um vidro nos arbustos e fazendo um som “mmm…”. “Oh, havia alguns lírios muito bonitos entre os arbustos, e eu resolvi aguá-los”, ele explicou, “e, enquanto o fazia. Eu cantava para cada um deles ‘Rejubila, Noiva sem noivo’!” Vê, era isso que ele estava fazendo. E, no entanto, o outro monge tomou-o por feiticeiro.
Eu vejo muitos leigos que possuem pensamentos bons, maravilhosos! Outros são atormentados com coisas que não apenas não existem, como ainda que o diabo nem imaginaria! Certa vez, quando choveu depois de uma longa estiagem, eu senti tanta gratidão por Deus que sentei-me em minha kaliva, dizendo repetidamente: “Ó Deus, estou tão agradecido, eu Te agradeço um milhão, um bilhão de vezes…”. Do lado de fora, sem saber o que se passava, um leigo me ouviu. Mais tarde, quando ele me viu, ele disse: “Padre, estou chocado. Eu o ouvi contando ‘um milhão, um bilhão’, e pensei comigo, ‘o que estará o Padre Paisios contando?’. Veja, o que eu poderia responder a ele? Eu estava expressando minha gratidão a Deus pela chuva maravilhosa, e ele imaginou que eu estava contando dinheiro. E, se fosse alguma outra pessoa, ele poderia ter pensado em me roubar o dinheiro, e me bateria se não encontrasse nada para levar.
Em outra ocasião, alguém com um filho doente veio me ver. Eu o levei à capela para conversarmos. Depois de ouvir seu problema, num esforço para ajudá-lo, eu lhe disse: “Você mesmo pode fazer algo para ajudar seu filho. Como você não costuma fazer prostrações, nem jejum, nem tem dinheiro para oferecer à caridade, você deve dizer a Deus, ‘meu Deus, nada tenho para sacrificar pela saúde do meu filho, mas tentarei cortar meu hábito de fumar’”. O pobre homem ficou comovido, e me prometeu que faria isso. Eu fui até a porta para abrir-lhe, e ele deixou seu isqueiro e os cigarros na capela, debaixo do ícone de Cristo, sem que eu percebesse. Depois dele, um jovem entrou na capela para conversar comigo; ao sair, ele começou a fumar. Eu tive que lhe dizer, “Será permitido fumar na capela?”. Aparentemente ele viu o isqueiro e os cigarros deixados pelo pai do menino doente, e imaginou que eu fumava. Eu o deixei ir com esse pensamento negativo. E afinal, mesmo que eu fumasse, eu haveria de fumar na capela? Você percebe o que significa ter pensamentos negativos?
– Geronta, quanto prejuízo faz à alma ser suspeitoso, desconfiado?
– O prejuízo é proporcional ao grau de suspeita e de desconfiança. Suspeita e desconfiança trazem consigo sentimentos de fraqueza e rebaixam os espíritos.
– E qual é a cura?
– Bons pensamentos.
– Geronta, quando uma pessoa reconhece ter cometido um erro devido aos seus pensamentos suspeitosos, isso constituirá uma ajuda para ela?
– Se a pessoa cometeu o erro uma vez, é compreensível. Mas se ala comete o mesmo erro duas vezes, ela será grandemente prejudicada. A guarda contra a suspeita requer atenção, porque ainda que uma coisa em mil não seja o que imaginamos, ainda assim seremos prejudicados. Quando eu estava ainda no Cenóbio, um velho monge, Padre Doroteu, estava fritando abóboras. Um dos Irmãos o viu colocando as abóboras na frigideira, e veio me contar: “Pai Doroteu está fritando um grande pargo vermelho!”. Mas eu lhe disse, “Não é possível que o Padre Doroteu esteja fritando peixe durante o jejum da Quaresma”. “Eu vi com meus próprios olhos ele fritando um grande pargo vermelho!”, insistiu ele. O Padre Doroteu havia chegado à Montanha Santa com quinze anos, e era como uma mãe para todos nós. Se ele visse um monge cair doente, ele se aproximaria dele, dizendo: “Venha, eu tenho um segredo para lhe contar”, e lhe daria um pouco de sésamo com nozes picadas, ou algo do gênero. A mesma coisa ele fazia com os monges idosos. Mais tarde eu fui até o Padre Doroteu, e vi que, na verdade, ele estava fritando abóboras para a enfermaria!
– Geronta, e o que acontece quando a suspeita sobre alguém se prova acertada?
– Ainda que o pensamento se prove acertado, significa isso que tais pensamentos serão sempre verdadeiros? E como você poderá saber se não foi Deus que permitiu que tal pensamento se mostrasse certo, para testar você e lhe dar uma lição espiritual de humildade?
Certamente, devemos ser cuidadosos para não levarmos os demais a conclusões erradas. Por exemplo, alguém pode ter pensamentos sinistros a seu respeito, apenas por ser rancoroso; mas pode ser que você tenha lhe fornecido a causa, pelo seu próprio comportamento. Mas ainda que você seja cuidadoso em não causar, ainda assim alguém pode pensar mal a seu respeito e ter pensamentos negativos sobre você, e, nesse caso, você deve dar glória a Deus e orar por essa pessoa.
Conversando com os pensamentos
– Geronta, quando um pensamento de orgulho vem a mim, eu sofro com isso.
– Você o carrega consigo?
– Sim.
– Por que você o leva consigo? Você deve fechar-lhe a porta. Você se prejudica mantendo-o do lado de dentro. O pensamento chega como um ladrão – você lhe abre a porta, deixa-o entrar, começa uma conversa com ele, e então ele o rouba. Você já entabulou uma conversa com um ladrão? Não apenas você não fala com ele, como também não lhe abre a porta para que entre. Você pode não falar com ele, mas, em primeiro lugar, por que deixá-lo entrar? Deixe-me dar-lhe um exemplo. Não estou dizendo que você tenha esse tipo de pensamentos, mas digamos que lhe venha a ideia de se tornar Superiora. Assim que esse pensamento chegar a você, diga para si mesma: “Ah, então você quer se tornar Superiora? Pois bem, comece a ser a Superiora de si mesma”. Desse modo você cortará imediatamente qualquer conversação. Afinal de contas, será que somos obrigados a conversar com o diabo? Veja, quando o diabo veio tentar a Cristo, Ele lhe disse, “Fora daqui, Satanás”. Uma vez que o próprio Cristo mandou o diabo embora, quem somos nós para conversar com ele?
– Geronta, é ruim examinar um pensamento sinistro para verificar de onde ele vem?
– O ruim é que você não estará conversando com o pensamento, como acha que está, mas com o diabo. Você poderá passar um tempo agradável, mas depois ficará atormentado. Jamais inicie uma conversa com tais pensamentos. Pegue uma granada de mão e atire-a contra o inimigo que tenta matá-lo. Demora dois ou três minutos para que a granada exploda. O mesmo acontece com os pensamentos sinistros; eles não poderão prejudicá-lo se você os expulsar imediatamente. Mas algumas vezes você pode não estar vigilante, sem dizer a Oração de Jesus, e então não terá como se defender. A mensagem do diabo chega de fora, você a recebe, a lê, relê, acredita nela e a arquiva. Esses arquivos serão apresentados pelo diabo no Dia do Juízo para conseguir sua condenação.
– Quando o ataque de um pensamento sinistro constitui um pecado?
– Quando o pensamento chega e você o expulsa imediatamente, isso não é um pecado. Quando ele chega e você conversa com ele, é um pecado. Ele chega, você o aceita e o afasta. Isso é meio pecado, porque o prejuízo alcançou você, uma vez que o diabo poluiu sua mente. Em outras palavras, é como se o diabo chegasse para você, e você lhe dissesse, “Bom dia, como vai você? Sente-se, vou lhe trazer uma bebida. Ah, mas você é o diabo? Então vá embora”. Uma vez que você percebeu que se tratava do diabo, por que o deixou entrar? Você o tratou bem, e agora ele quer voltar.
Consentindo os pensamentos
– Geronta, por que eu tanho tantos maus pensamentos agora que estou no monastério, se quando eu estava no mundo isso não acontecia? Sou eu que os permito?
– Não, abençoada criança! Deixe-os vir, mas mande-os embora. Os aviões pedem sua permissão quando voam sobre o monastério e arruínam sua paz e quietude? O mesmo acontece com esses pensamentos. Não perca a esperança. Esses pensamentos são sugestões do diabo. São como pássaros migrantes que são bonitos de ver quando passam nos céus. Mas, quando eles pousam e fazem ninhos na sua casa, e começam a ter filhotes, eles sujam tudo e se tornam uma incomodação.
– Mas por que, Geronta, esses pensamentos chegam a mim?
– Esse é o trabalho do tentador, do diabo. Mas dentro de você ainda existe um pouco de sedimento; a purificação ainda não está completa. Na medida em que você não aceita esses pensamentos, você não se torna responsável. Deixe que os cachorros continuem a latir. Mas não joguem muitas pedras neles. Se você o fizer, eles continuarão a latir, e com as pedras que você atirar construirão um mosteiro, uma casa, ou algo assim… E será muito difícil para você demoli-la.
– Em outras palavras, Geronta, quando de fato damos consentimento a esses pensamentos?
– Quando você se delicia com eles como se fossem um doce. Você deve lutar para não se deliciar com esses pensamentos açucarados por fora, mas venenosos por dentro, que a levarão ao desespero. Ter maus pensamentos que passam por nós não é motivo de preocupação; somente os anjos, que são perfeitos, não têm maus pensamentos. Há motivo para se preocupar, quando uma pessoa deixa uma parte de seu coração para fazer uma pista de pouso, e aceita os diabinhos que chegam por aí. Se isso acontece mais de uma vez, corra para a Confissão, destrua o campo de pouso, na mente e no coração, e plante árvores frutíferas, para que seu coração se torne outra vez o Paraíso.
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[28] Salmo 50: 12 (LXX).
[29] Mateus 15: 19.
[30] Lucas 6: 45.
São Paísios, o Athonita
tradução de monja Rebeca (Pereira)







