A GUERRA DOS PENSAMENTOS – PARTE 3

Sobre acreditar nos pensamentos

Acreditar nos pensamentos é o começo do erro

 – Geronta, quando estou com raiva, eu me torno como uma tempestade que ruge, incapaz de me controlar.

 – Por que você não consegue se controlar?

 – Porque eu acredito no meu pensamento.

 – Bem, nesse caso você tem sua própria crença, seu próprio “credo”! Seu egoísmo é sua falta. Não justifique seu pensamento. Quando um pensamento tolo chegar a você, afaste-o de si e não o aceite.

 – E como saberei quando um pensamento meu é tolo?

 – Bem, se você não souber, pergunte à Abadessa, e atire-o fora imediatamente, obedecendo a qualquer instrução espiritual que ela lhe dê. Quando uma pessoa espiritual acredita em seus pensamentos, esse é o começo do erro. Sua mente se obscurece com o orgulho e é prontamente levada ao erro. É melhor ser louco, porque, ao menos, essa é uma circunstância atenuante.

 – Existe alguma possibilidade de obter ajuda de outros, Geronta?

 – Para que uma pessoa receba ajuda quando se encontra nesse estado, ela primeiro deve ajudar a si mesma. Ela deve entender que acreditar em seus pensamentos, que, diga-se, lhe dizem que ela é a melhor, que é santa e assim por diante, é um erro categórico. Esse tipo de pensamento não pode ser removido nem com um revólver, na medida em que a pessoa se agarra a ele tenazmente. A pessoa deve ser humilde, se quiser avançar. Às vezes me chamam para rezar nessas circunstâncias. E o que eu rezo? Na medida em que uma pessoa abriga em sua alma o pavio do diabo, ele sempre poderá ater-lhe fogo. É como alguém que segura dinamite em suas mãos e pede aos demais que o ajudem a não se explodir.

 – Geronta, eu me tornei rabugento e ríspido.

 – Quem disse isso de você? Talvez os seus pensamentos? Eu o observo desde a Montanha Santa. Você não se tornou rabugento e ríspido. Mas se você chegou a acreditar no pensamento que o envolveu, então você pode perder a cabeça. Não acredite nos seus pensamentos, nem quando eles dizem que você é terrível, nem quando dizem que você é santo.

Acreditar nos pensamentos acarreta problemas psicológicos

 – Geronta, quando alguém crê que todos parecem estar pensando ou falando de si, como isso pode ser dissipado?

 – Isso provém do diabo, que tenta fazê-lo enfermo. A pessoa deve ser indiferente a esse tipo de pensamentos, não acreditando nele. Por exemplo, se alguém que é propenso à suspeição vê um conhecido falando baixo com outra pessoa, ele pode pensar: “Ele está falando sobre mim; eu nunca esperaria isso dele!”. Claro está que os dois não falavam sobre ele. Se essa tendência não é verificada, ela pode levar a terríveis consequências. Ele pensa estar sendo observado, que está sendo perseguido. Ainda que haja alguma evidência de que outros estejam prestando atenção nele, ele deve se dar conta de que isso está sendo urdido pelo inimigo para convencê-lo. Como o diabo sabe combinar essas coisas!

Conheci um jovem que era muito inteligente, mas que começou a acreditar em pensamentos que lhe sobrevieram, e que diziam que ele não era muito equilibrado mentalmente. Ao aceitar esses pensamentos, que lhe eram induzidos pelo diabo, ele se tornou vítima de muitos complexos. Chegou mesmo a tentar o suicídio, acarretando muita tristeza e desgosto aos seus pais. Enquanto que Deus lhe concedera muitas habilidades e talentos, o inimigo tornava tudo isso inútil, causando tormento a ele e aos demais. Não posso compreender por que as pessoas aceitam esses pensamentos diabólicos; elas tornam sua própria vida miserável, reclamando amargamente de Deus, que tanto nos ama e beneficia. Nada do que você diga a essas pessoas parece ajudá-las. Se elas não pararem de acreditar nos pensamentos que o inimigo lhes impõe à alma, elas apenas continuarão a se desgastar.

 – Uma pessoa sensível é interiormente fraca, doente?

 – Não, a philotimo e a sensibilidade são dons naturais, mas, infelizmente, o diabo consegue manipulá-las. O diabo consegue fazer com que uma pessoa sensível exagere as coisas até o ponto de se tornar incapaz de suportar as dificuldades, ou então fazer com que ela suporte por algum tempo, para então enfraquecê-la, desanimá-la e acabar por torná-la inútil. Se a pessoa administrar e utilizar bem sua sensibilidade herdada, ela se tornará celestial. Mas se ela permitir que o diabo a explore, irá desperdiçá-la; ora, se uma pessoa não dá bom uso aos seus dons e talentos, o diabo saberá explorá-los para seus próprios propósitos. Assim, os dons de Deus são jogados fora. Ao invés de mostrar gratidão a Deus por esses dons, a pessoa as toma erradamente; uma pessoa sensível que acredita nos seus pensamentos pode mesmo ir parar numa instituição psiquiátrica. É por isso que o diabo procura as pessoas sensíveis.

 Outras colocam na cabeça, ou melhor, o diabo as convence de que herdaram um peso, e tenta persuadi-las de que existe algo de errado com elas. Ele as aterroriza a fim de torná-las perplexas, inutilizando-as sem razão nem causa. Ainda que alguma coisa tenha sido herdada, ela pode ser superada com a Graça de Deus. Lembra-se de São Cipriano[20], que de feiticeiro chegou a Hierarca e Mártir da Igreja? Outro exemplo é Moisés o Etíope[21], notório ladrão que se tornou um grande e refinado asceta dentre os Doutores da Igreja. Ele atingiu grandes alturas espirituais! Quando ele visitou São Macário do Egito e lhe perguntou: “O que devo fazer? O mundo me perturba e não consigo encontrar a paz”, Macário lhe respondeu: “Moisés, Moisés, você é demasiado sensível; vá para Petra na Arábia[22], para conseguir expulsar de si o mundo[23]”. Moisés excedia em sensibilidade espiritual até mesmo a Santo Arsênio o Grande, que era uma pessoa culta e bem-educada de uma família aristocrática, enquanto Moisés era um ladrão e assassino. Veja o que a Graça de Deus é capaz de fazer. Mas, naturalmente, é preciso muita humildade.

As manias começam com pensamentos

 – Geronta, por que algumas pessoas se irritam tão facilmente?

 – Diga-me, o que o irrita?

 – Tudo me irrita.

 – Nesse caso, tudo de ruim lhe acontecerá. Vermes nas suas frutas e vagens, cabelo no seu pão, e por aí vai.

 – É exatamente isso que acontece, Geronta!

 – Glória a Deus! Você percebe o quanto Deus está fazendo para você superar seu problema?

 – Geronta, mas esse problema não começa pelo pensamento? Digamos que encontremos um cabelo em nosso pão. Podemos simplesmente atirá-lo fora.

 – Isso é uma bênção! Se fosse comigo, eu consideraria uma bênção. Oh, eu lembro certa vez no Monte Sinai, quando eu estava indo a certo lugar junto com outro monge, e eu dei a ele duas peras. Mas percebi que ele não as comeu. Ele queria lavá-las primeiro, e seguiu segurando-as nas mãos, para que não fosse contaminadas por algum micróbio em seu bolso. Seu irmão, que tinha oito filhos, costumava me dizer: “Ele usa mais sabão para lavar suas mãos do que nós usamos para dar banho em oito crianças!”. Mas veja o que aconteceu com ele. No Monte Sinai era uso assinalar a cada monge um Beduíno que o acompanhasse e providenciasse alimento e coisas assim. O Beduíno que caiu com nosso monge arisco era o menos limpo de todos. Ele era realmente imundo; ele e suas roupas cheiravam mal. Ele teria que ser deixado na água por uma semana para ficar limpo. Suas mãos eram tão sujam que teriam que ser lixadas para ficar limpas.  Toda vez que ele trazia a bandeja com alimentos para o monge, seus dedos mergulhavam dentro da comida. “Vá embora, vá embora!”, gritava o monge a cada vez que o Beduíno de aproximava dele. Ao final é claro, o pobre monge não permaneceu mais do que duas semanas no Monastério do Monte Sinai.

 Lembro-me também que no Cenóbio tínhamos um monge que fôra policial nos seus tempos de leigo. Eles o fizeram leitor, porque ele era educado. Ele permaneceu no monastérios por muitos anos, até que começou a ficar desgostoso com certas coisas. Ele nunca tocava nas maçanetas! Ele tentava abrir a porta com o pé, ou girar a maçaneta com o cotovelo, limpando-a depois com álcool. Mesmo a porta da igreja, ele abria com o pé. Depois de velho, Deus permitiu que seu pé desenvolvesse gangrena, especificamente aquele que ele utilizava para abrir portas. Eu servia de auxiliar de enfermeiro, quando ele veio pela primeira vez ao hospital do monastério com o pé envolto em bandagens. O enfermeiro ordenou-me que retirasse as bandagens, enquanto ele ia providenciar novas. Quando as retirei, cheguei a engasgar. O pé estava coberto de pequenos vermes. “Vá até o mar e lave, e livre-se desses vermes, e só depois volte para trocar as bandagens”. Eu estava desorientado vendo a condição daquele pé, o grau de sua putrição. O enfermeiro me perguntou: “Sabe a causa dessa aflição?”. “Sim, é porque ele abria as portas com o pé”, respondi.

 – E, Geronta, ele continuou a abrir as portas com o pé?

 – Sim, com seu pé! E ele tornou-se um monge bem velhinho.

 – E no final, ele acabou por entender?

 – Não sei. Depois disso, eu fui para o Monastério de Stomion em Konitsa. Não sei como ele morreu. Mas no Cenóbio do Monte Athos alguns dos jovens monges comeriam os restos dos pratos dos monges mais velhos como se fosse uma bênção. Eles juntavam as sobras porque elas eram abençoadas. Outros beijavam as maçanetas tocadas pelos anciãos. Enquanto que aquele monge que se incomodava com tudo mal encostava o bigode nos ícones quando se inclinava para reverenciá-los. Imagine o que o pobre bigode havia de sofrer com todo o álcool que lhe poria!

 – Geronta, quando algo assim acontece com as coisas sagradas, não é uma irreverência?

 – É claro; as coisas começam assim, e depois se encaminham para outros desdobramentos. Esse mesmo monge chegou ao ponto de não mais beijar os ícones temendo que os outros monges que os reverenciavam pudessem estar doentes!

 – Em outras palavras, se alguém quer evitar desgostar-se, deve evitar ficar cheio de dedos ou de prestar atenção a essas coisas?

 – As pessoas não veem a quantidade de lixo que vem misturado com a comida que elas põem na boca! Ainda que alguém desenvolva uma fobia em relação a cair enfermo, Cristo ajudará se a pessoa faz o sinal da cruz com fé. Muitas pessoas, com diversas doenças, vinham à minha Kaliva. Algumas pessoas simples se persignavam quando eu lhes oferecia um copo que eu tinha para tomar água. Outras ficavam com medo até de tocar o copo. Certa vez, uma pessoa de alta posição veio me ver. Ele tinha tanto medo que germes que ele chegara a desbotar suas mãos, de tanto lavá-las com álcool desinfetante. Ele chegava a esfregar álcool desinfetante nos pneus de seu carro. Eu senti pena por ele. Você sabe o que é possuir uma alta posição, ao mesmo tempo em que se é assim? Eu lhe dei alguns loukoumi, e ele não quis aceitar porque eu os havia tocado. Mas, mesmo que eles estivessem na caixa, ele não os teria pegado, pensando que outra pessoa os tinha posto na caixa primeiro com suas próprias mãos. Eu peguei um loukoumi, esfreguei-o no seu sapato e o comi. Eu fiz várias coisas do tipo, para ajudá-lo a se libertar, ainda que um pouco, desse sentimento de desgosto.

 Hoje veio a mim uma mulher hipocondríaca. Ela não quis receber a bênção ao entrar, para não se expor a algum tipo de germe. E ao sair, depois de tudo o que eu disse para ajudá-la, ela ainda não quis receber a bênção. “Eu não vou beijar sua mão, Geronta, porque tenho medo de pegar germes”, disse ela a mim. O que se pode dizer? Essas pessoas tornam suas vidas miseráveis.

Aqueles que sofrem de doenças imaginárias

 Uma enfermidade maior do que o medo de germes é quando alguém imagina ter algum tipo de doença. Esse pensamento debilitante cria ansiedade, preocupação, perda de apetite, insônia, necessidade de tomar remédios, e, ao final, uma doença de fato, quando no princípio a pessoa estava bem. Estar doente e procurar tratamento é compreensível; mas estar saudável e se imaginar doente, e acabar por ficar doente por isso, não faz sentido. Por exemplo, quando alguém está realmente forte de corpo e espírito e começa a se acreditar doente e incapaz de fazer alguma coisa, por acreditar nos seus pensamentos, que lhe dizem que ele não está bem, acabando por definhar tanto física como espiritualmente. Não é que ele esteja mentindo. Se uma pessoa acredita que de fato existe alguma coisa de errado com ela, ela entra em pânico, fica alquebrada e não tem forças para fazer seja lá o que for. E assim ela se torna inútil sem motivo.

 Algumas pessoas chegam à minha Kaliva totalmente destruídas. “Algo em minha mente me diz que eu tenho AIDS”, elas dizem, e acreditam nisso. Eu pergunto a elas: “Aconteceu tal e tal coisas?”, e elas respondem: “Não”. “Então não se preocupe, examine-se com um médico para se livrar desse pensamento negativo”. Diante desse conselho, algumas reagem: “Mas, e se eu for ao médico e descobrir que de fato tenho AIDS?”. Algumas não seguirão meu conselho e continuarão a se atormentar. Em contraste, aquelas que me ouvem e se fazem examinar descobrem que não estavam de fato doentes, e suas vidas mudam, e elas se restabelecem. As outras se põem de cama e chegam a recusar comer. Pode ser que você tenha AIDS, mas para Deus esse não é um grande problema. Se você tentar viver mais espiritualmente, se arrepender e se confessar, se receber a Santa Comunhão e tudo o mais, você obterá auxílio.

 – Como alguém começa a se imaginar doente?

 – A pessoa começa gradativamente a cultivar essa imaginação. Muitas vezes existe uma causa física, mas é raro que seja grave. Então a imaginação se junta a isso e aumenta o problema. Quando eu estava no Monastério de Stomion, eu conheci um pai de família que pensava ter tuberculose. Ele sequer permitia à sua esposa que se aproximasse dele. “Não se aproxime, você vai pegar a doença também!”, dizia ele a ela. A pobre mulher tinha que pendurar uma cesta com comida na ponta de um bastão e dar a ele de longe. Ela estava devastada. Seus filhos só podiam vê-lo à distância. É claro que não havia nada de errado com ele, mas como ele nunca tomava sol e estava constantemente na cama, coberto, ele se tornou amarelo e passou a acreditar que estava com tuberculose. Eu fui à sua casa. Quando ele me viu, disse: “Monge, não se aproxime, eu tenho tuberculose, você pode pegá-la de mim e transmiti-la a todo o Monastério”. “Quem lhe disse que você tem tuberculose?”, perguntei. Sua esposa trouxe-me algumas nozes doces. Então eu disse a ele: “Agora abra sua boca e seja obediente”. Ele abriu a boca sem saber o que eu faria. Eu coloquei a noz em sua boca, a retirei e a comi. “Pare! Pare! Você vai ficar doente!”, gritou ele. “Você não tem nenhuma doença contagiosa”, eu lhe disse. “Se você tivesse, acha que eu seria louco para fazer isso? Levante-se e vamos para fora”. Eu ordenei à sua esposa: “Jogue tudo fora, os remédios, os cobertores…”. Ele se levantou e eu o levei para fora. Depois de três anos fechado em seu quarto, ele via o mundo exterior com um estranho olhar. Mais tarde ele retornou ao trabalho e a vida voltou ao normal. Quando cultivamos esses pensamentos, eles podem se tornar devastadores, de fato!

Tudo pode ser superado pela obediência

 – Geronta, como pode alguém ser ajudado quando imagina haver algo de errado consigo?

 – Para ser ajudado, é preciso ter um Pai Espiritual, alguém em quem se confia e obedece. A pessoa deve compartilhar seus pensamentos com seu guia espiritual e receber a orientação apropriada. “Não dê atenção a isso, procure por aquilo”, e assim por diante. Se ela não confiar e não obedecer, ela não será capaz de dispensar os pensamentos negativos. Você sabe o que é receber um pedido de ajuda de alguém que não quer ser ajudado?

 Um jovem, que vivia uma vida desregrada, que tinha doenças psicossomáticas e a alma atormentada, veio a mim com os olhos injetados de sangue pelo excesso de fumo, e pediu minha ajuda. Ele exibia ainda uma falsa piedade e me pediu que lhe desse um ícone do iconostase, como uma bênção, enquanto entrava na minha Kaliva com um cigarro nas mãos. Eu lhe disse, “Veja, seus olhos estão vermelhos como os de um cachorro com raiva. Nem mesmo os anciãos podem fumar nessa Kelli.[24] Eu queimo incenso aqui”. Ele continuou como se nada tivesse acontecido, pedindo minha ajuda e sem fazer nada para abandonar suas fixações e hábitos. “Por que você não me cura?”, perguntou. Ele queria se curar mediante alguma maneira mágica, sem que ele próprio fizesse qualquer esforço. Então eu lhe disse: “Você não precisa de um milagre. Você não está realmente doente; você simplesmente pensa que está e acredita em seus próprios pensamentos”. Se ele apenas houvesse obedecido, teria recebido algum auxílio. Eu já observei que aqueles que ouvem e obedecem podem progredir e se curar. Suas famílias podem ser felizes e viver em paz.

 Certa vez um padre veio ao monastério, e pediram-lhe que cantasse, mas ele recusou. “Por que você não canta?”, perguntaram-lhe. “Porque o salmo diz ‘Sejam elevados louvores a Deus em alta voz, com uma espada de dois gumes nas mãos’[25]”. Ele temia a espada quando elevasse sua voz ao cantar, e assim insistia que essa era uma coisa ruim a ser cantada. Os outros tentaram dissuadi-lo disso, mas ele não mudava de ideia. O que se podia fazer com ele? Ainda que o que ele tenha dito fosse certo, e outros o tivessem dissuadido, e ele os houvesse obedecido, isso lhe traria alguma Graça, uma Graça significativa, devido à sua humilde obediência.

 Quantas pessoas se atormentam por anos porque se fiam em seus próprios pensamentos e não escutam os demais! Não importa o que você diga a eles, eles tomam tudo ao contrário. E não é como se alguém primeiro acreditasse em seu próprio pensamento e que o mal parasse por aqui, mas, ao contrário, o mal prossegue. E isso pode conduzir a uma doença mental. Por exemplo, alguém está construindo uma casa de forma errada, e as pessoas avisam: “Como você pode construir uma casa assim? Ela irá desabar e matá-lo”. Se ele ouvir esse conselho desde o começo, ele poderá corrigir o problema e construir direito. Mas se ele prossegue e constrói de forma errada, poderá ainda desmontá-la e começar novamente? As pessoas continuam a dizer que a construção está errada e que a casa irá cair e matá-lo; também ele percebe o perigo de que a casa possa cair, mas teimosamente pensa consigo que já gastou muito dinheiro e muito trabalho duro na construção; e assim ele não corrige o erro. No fim, a casa cai e o esmaga.

 – Uma pessoa assim pode ser ajudada?

 – Se ele quiser, ele pode ser ajudado. Mas se você lhe diz que algo não está certo e ele se justifica, como poderá ser ajudado? Digamos que um jovem seja diabético e, por não se dar conta da seriedade de sua doença, imagina que não há nada de grave com ele. O doutor lhe diz: “O açúcar é nocivo, e você deve fazer dieta”. Se ele seguir esse conselho, ele não terá problemas. Mas, se ele disser: “Ainda que eu esteja diabético, continuarei a comer doces, porque quando o faço me sinto bem e aquecido, e posso dormir sem cobertas em minha cama; eu posso mesmo sair para fora quando neva”. Ora, como pode alguém se comunicar efetivamente com essa pessoa, que insiste em acreditar apenas nos seus próprios pensamentos?

 – Geronta, é natural para uma pessoa jovem acreditar em seus próprios pensamentos?

 – Uma pessoa jovem que acredita em seus próprios pensamentos tem em si muito egoísmo.

 – Com poderá ela se dar conta disso?

 – Bem, por exemplo, se ela recordar alguns incidentes de sua infância que indicam o grau de egoísmo que ela possui na sua juventude, ela pode ser capaz de entender isso. Certa vez eu observei duas crianças. Uma tomou um travesseiro e o levantou sobre a cabeça de uma maneira natural. A outra pegou um travesseiro e fingiu erguê-lo sobre sua cabeça como se ele fosse um pesado saco de cimento. Esse gesto indica um toque de egoísmo. Mas quando essa criança amadurecer um pouco e entender que sua ação resultou do egoísmo, e confessá-lo, a Graça de Deus virá ajudá-la e redimi-la. De fato, Deus é Bom e Justo e deseja ajudar a todos!

 – Geronta, quando eu consigo perceber o desenvolvimento futuro de algo dentro de mim, dada minha experiência prévia, haverá nisso o pecado da autoconfiança?

 – Não tire conclusões por si próprio. Quando Cristo o convidou, Pedro andou sobre as águas. Mas, assim que seu próprio pensamento lhe disse que ele afundaria, ele começou de fato a afundar[26]. Cristo concedeu. Se você pensa que vai afundar, afunde.

 E você pode ver um homem humilde, capaz até de fazer milagres, mas que não confia nos seus próprios pensamentos. Na Jordânia, havia um padre, muito simples, que fazia milagres. Ele lia orações sobre pessoas e animais com enfermidades, e todos se curavam. Mesmo os muçulmanos o procuravam, e ele os curava. Ele tinha o hábito de tomar um pouco de água ou chá com um pedaço de pão seco antes de celebrar a Divina Liturgia, e não comia mais nada o resto do dia. Quando o Patriarca ouviu falar que esse padre comia antes da Divina Liturgia, ele o denunciou ao Patriarcado. O padre foi chamado sem saber o motivo. Ele aguardou numa sala com outras pessoas. Estava muito calor lá fora, e haviam fechado as cortinas, mas um raio de sol penetrava por um pequeno rasgo.  O humilde padre pensou que o raio de luz fosse um varal e, como estava muito encalorado, tirou sua batina e pendurou-a no raio de luz. Todos os que estavam sentados na sala e viram isso ficaram pasmados. Eles correram e disseram ao Patriarca: “O padre que come antes da Divina Liturgia pendurou sua batina num raio de luz!”. O Patriarca chamou-o ao seu escritório e começou a interrogá-lo: “O que você está fazendo? Está tudo bem com você? Com que frequência você celebra a Divina Liturgia? Como você prepara a Divina Liturgia?”. E ele respondeu: “Bem, eu leio o Ofício de Matinas, faço um certo número de prostrações, então preparo alguma coisa para comer e beber, e então começo a Divina Liturgia”. “Por que você faz isso?”, perguntou o Patriarca. E vele respondeu: “Bem, se eu como e bebo antes da Divina Liturgia, ao receber a Santa Comunhão e consumir os Santos Dons ao final, nosso Senhor Jesus Cristo estará por cima. Mas, se eu comer depois da Divina Liturgia, Cristo estará por baixo”. Ele fazia isso com um bom pensamento e razão! Mas então o Patriarca lhe disse: “Não, esse procedimento está errado. Você deve primeiro celebrar a Divina Liturgia, consumir os Santos Dons, e só depois comer alguma coisa”. Ele fez uma prostração diante do Patriarca, e aceitou seu conselho.

 O que eu quero dizer é que, ainda que o padre tivesse recebido a Graça de fazer milagres, ele, não obstante, aceitou o conselho do Patriarca e não insistiu na sua própria vontade. Ao contrário, se ele se fiasse em seus próprios pensamentos, ele poderia dizer algo como: “Eu leio oração sobre pessoas e animais e os curo; por que você está me dizendo isso agora? Meu modo de pensar é melhor; caso contrário, meu alimento ficará por sobre Cristo”.

 Eu cheguei à conclusão de que a obediência é muito útil. Mesmo que alguém tenha um mínimo de inteligência, se for obediente, poderá se tornar um filósofo. Seja uma pessoa inteligente ou não, saudável de corpo e espírito ou não. Se ela for atormentada por pensamentos, ela se libertará pela obediência. A obediência é redenção.

 O maior egoísmo consiste em seguir os próprios pensamentos e não pedir orientação nem guia a ninguém, conduzindo a si próprio para a destruição. A pessoa pode ser extremamente esperta e astuta, mas se for voluntariosa, autoconfiante e presumida, estará constantemente atormentada. Começará a ficar confusa, e criará muitos problemas para si. Para encontrar o caminho, é preciso abrir o coração para um Pai Espiritual e pedir ajuda humildemente. Naturalmente, algumas pessoas, ao invés de buscar um Pai Espiritual, optam por procurar um psicanalista. Se o psicanalista for uma pessoa espiritual, ele recomendará ao seu paciente que procure um Pai Espiritual. Caso contrário, ele simplesmente prescreverá alguma medicação para o caso. Mas pílulas não são capazes de resolver o problema. A ajuda espiritual é necessária para lidar apropriadamente com o problema específico, melhorando a condição de quem busca e prevenindo seu sofrimento.

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[20] Festa em 2 de Outubro.

[21] Festa em 28 de Agosto.

[22] O deserto interior na região nordeste da Arábia.

[23] Sayings of the Desert Fathers, Abba Macarios o Grande, 22, pg. 11, trad. Benedicta Ward, Mowbrays, London & Oxford, 1977.

[24] Uma Kelli (cela) é uma habitação monástica autossuficiente constituída por uma edificação com uma Capela e os terrenos adjacentes. Geralmente ela é situada perto de um Monastério e depende dele; ela não pertence a uma Skete, e é maior do que uma Kalyvi.

[25] Salmo 149: 6.

[26] Cf. Mateus 14: 28-31.

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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