A GUERRA DOS PENSAMENTOS – PARTE 2

“Quando o homem vê tudo com bons pensamentos, ele é purificado e recebe a graça de Deus. Com pensamentos maus, o homem condena a si próprio e desencaminha os outros, fazendo com que a Graça divina não os alcance, e permitindo que o diabo venha e faça suas más obras contra nós e em nós.”

Pensamentos blasfemos

Quais são os pensamentos blasfemos

 – Geronta, ainda não entendi quais são os pensamentos blasfemos.

 – Quando chegam à mente imagens inapropriadas a respeito de Cristo, da Panaghia, dos Santos, de alguma coisa santa ou sagrada, ou mesmo sobre nosso Pai Espiritual e coisas assim, esses pensamentos são blasfemos. Eles não devem sequer ser proclamados em voz alta.

 – Nem mesmo para nosso Pai Espiritual?

 – Para ele, é suficiente dizer: “Pensamentos blasfemos vieram à minha mente, a respeito de Cristo, ou do Espírito Santo, ou da Panaghia, ou dos Santos, ou sobre você, meu Pai Espiritual”. Todos esses pensamentos blasfemos e pecaminosos são obra do diabo; eles não são nossos. É por isso que não devemos nos afligir com eles; não precisamos nos estressar com os pecados do diabo. Quando eu era um monge noviço, durante algum tempo, o diabo me impingiu esses pensamentos blasfemos, mesmo quando eu estava na igreja, e eu me afligia muito a respeito. Qualquer coisa que eu ouvisse dizer por outras pessoas, fossem juramentos ou maldições, o diabo levava à minha mente como se fossem sobre os Santos. Meu Pai Espiritual me disse: “Esses pensamento são do diabo. O fato de que alguém se aflige com esses pensamentos impuros que lhe surgem à mente sobre as coisas sagradas e santas, basta para provar que eles não lhe pertencem, mas que vêm do exterior”. Porém, eu continuei a ser afligido por eles. Eu frequentava a Capela de São João o Precursor, e seu ícone exalava uma fragrância quando eu o reverenciava. Quando esses pensamentos começaram a me assaltar, eu voltei à Capela e, mais uma vez, a fragrância emanou do ícone! Um dia, durante a Divina Liturgia, no Hino Trisagion, eu cantava tranquilamente o Trisagion de Neleos[13]. Então eu vi uma besta enorme e feroz, com uma cabeça de cão, que entrava pela porta da Litía[14]. Saíam chamas de sua boca e de seus olhos! Ele se voltou e fez dois gestos de ameaça contra mim, porque eu estava cantando o “Santo Deus, Santo Poderoso, Santo Imortal, tem piedade de nós”. Eu me voltei para o lado para ver se alguém também via a besta, mas ninguém a via, só eu. Depois disso, eu disse o que me acontecera ao meu Pai Espiritual. E ele me falou: “Aí está, você o viu. É ele. Agora, pare de se preocupar e se endireite”.

 – Geronta, alguém é capaz de distinguir sempre quando um pensamento é blasfemo?

 – Se a pessoa usar o cérebro que Deus lhe deu, sim. Por exemplo, as pessoas me dizem: “Geronta. Como é possível que exista o inferno? Se nós nos preocupamos com uma pessoa que está na prisão, quanto mais devermos nos preocupar com alguém que está no inferno!”. Mas isso é uma blasfêmia, porque essas pessoas se apresentam como sendo mais justas do que Deus. Deus sabe o que faz. Você se lembra do incidente mencionado por São Gregório o Dialogista?

Certa vez o Bispo Fortunato expulsou um demônio de uma mulher possuída. O demônio circulou pela cidade disfarçado de mendigo, reclamando do Bispo e dizendo: “Aquele Bispo impiedoso me expulsou”. Alguém chegou-se a ele e disse: “Isso não está certo; como um Bispo pode fazer algo tão injusto? Venha à minha casa, pobre homem”. O diabo entrou na casa desse homem e logo disse: “Estou com frio; coloque lenha na lareira”. O homem colocou mais lenha e reacendeu o fogo. Finalmente, quando do fogo estava alto, o diabo penetrou em seu filho, e a pobre criança se atirou ao fogo, queimando-se. Só então o desafortunado homem compreendeu o que o Bispo havia expulsado, e quem ele havia trazido à sua casa. O Bispo Fortunato sabia muito bem o que estava fazendo, quando expulsou aquele demônio[15].

De onde vêm os pensamentos blasfemos

 – Geronta, pode nos falar alguma coisa a respeito da “boa indiferença”?

 – A “boa indiferença” só é necessária quando alguém é muito sensível e o tagalaki[16] o atormenta com diversos pensamentos. Então é benéfico se tornar um pouco insensível, no bom sentido do termo, e não analisar demasiado certas coisas. Mais do que isso, essa “indiferença abençoada” é necessária a alguém que, embora normalmente indiferente a muitas coisas, se torna demasiado sensível a respeito de uma determinada coisa, algo que o diabo desenvolveu nele de modo a destruí-lo. Nesse caso será útil desenvolver essa boa indiferença” por algum tempo. Isso irá requerer uma cuidadosa observação. Ele deverá confessar seus pensamentos ao Pai Espiritual, que o observará atentamente; de outro modo, ele pode se rebaixar gradualmente, chegar ao outro extremo e se tornar completamente indiferente.

 – Geronta, quando me sinto triste, eu tenho pensamentos blasfemos; por que isso acontece?

 – É o seguinte. Quando o tagalaki o vê triste, ele tira proveito da situação e lhe oferece um “docinho” mundano, um pensamento pecaminoso. Assim que você cai pela primeira vez, ele o conduzirá a mais tristeza, e você não terá forças para resistir. É por isso que você nunca deve permanecer num estado de tristeza, mas lutar para fazer algo espiritual que o ajudará a sair do estado de desolação.

 – Geronta, eu me sinto perturbado por alguns pensamentos…

 – Isso vem do diabo, do tentador. Esteja em paz e não dê atenção a ele. Você é sensível. O Diabo está tirando vantagem da sua sensibilidade; ele está fazendo com que você perscrute certas coisas, de modo a que sua mente se cole a elas e que você fique atormentado sem nenhum bom motivo. O diabo pode levar a você pensamentos impróprios a respeito da Abadessa, ou mesmo em relação a mim. Não dê atenção a eles. Se você der atenção, mesmo ao menor pensamento blasfemo, ele o atormentará de modo a alquebrar seu espírito. Você precisa de uma “boa indiferença”.

 O diabo costuma atormentar com pensamentos blasfemos aqueles que são muito devotos e sensíveis. Ele aumenta sua queda, de maneira a afligi-los; e, se ele não consegue levá-los ao desespero, até o ponto em que cometam suicídio, ele tenta ao menos induzi-los a alguma doença mental de modo a torná-los inúteis. E, se mesmo isso ele não consegue, ele se diverte impondo a eles alguma forma de depressão ou melancolia.

Eu conheci alguém que discutia constantemente. As pessoas me diziam: “Ele está possuído por um demônio”. Eu disse: “Esse não é um hábito de alguém que está possuído”. Como fiquei sabendo mais tarde, essa pessoa não estava em falta de coisa alguma que pudesse lhe causar ser possuído por um demônio. Ele simplesmente crescera como órfão, e tinha muita sensibilidade; mas ele também tinha pensamentos sinistros e imaginações confusas, que o diabo explorava para levar a ele pensamentos blasfemos. Dessa maneira, quando o diabo lhe inspirava tais pensamentos, ele resistia cuspindo neles. Outra pessoa que visse esse comportamento assumia que ele estava possuído pelo demônio. Para ele, era uma vergonha ter tal sensibilidade, assim como para os outros, dizer que ele estava possuído!

Muitas vezes os pensamentos blasfemos provêm da malícia do diabo. Às vezes, especialmente depois de uma vigília, quando a pessoa está cansada e incapaz de resistir, o diabo leva a ela pensamentos blasfemos, e então, visando confundi-la e levá-la ao desespero, começa a lhe dizer: “Nem mesmo o diabo poderia causar semelhantes pensamentos! Você já não pode mais se salvar…”. O diabo envia pensamentos blasfemos até a respeito do Espírito Santo, e então diz que esse pecado não poderá ser perdoado, e assim por diante.

 – Geronta, pode um pensamento blasfemo nos atingir por nossa própria culpa?

 – Sim, o próprio homem é capaz de fazer com esses pensamentos cheguem à sua consciência. Quando não há sensibilidade, os pensamentos blasfemos procedem do orgulho, de julgar os demais, e assim por diante. Por esse motivo, quando você desleixa de uma disciplina ascética e começa a ter pensamentos blasfemos ou de descrença, saiba que sua disciplina ascética (jejuns, vigílias, etc.) foram prejudicadas pelo orgulho. A mente é rebaixada pelo orgulho; a descrença começa e a pessoa se vê desprovida da Graça de Deus. Ora, quando alguém está preocupado com questões de doutrina, sem possuir as necessárias qualificações e a preparação espiritual, ele é acossado por pensamentos blasfemos.

O desprezo pelos pensamentos blasfemos

 – Geronta, Abba Isaac disse que ele superou as paixões através da humildade, e não através do desprezo[17]. O desprezo pelas paixões e o desprezo pelos pensamentos blasfemos são a mesma coisa?

 – Não, o desprezo pelas paixões traz em si orgulho, autoconfiança e, pior do que tudo, autojustificação. Em outras palavras, você justifica a si próprio e não reconhece sua paixão. É como se você dissesse: “Essa paixão não é minha, ela não está ligada a mim”, e a partir daí você deixa de lutar para se livrar dela. Mas os pensamentos blasfemos devemos desprezar e rejeitar, porque, como eu disse, eles não são nossos, mas pertencem ao diabo.

 – Quando alguém finge diante dos outros ter uma determinada paixão, a gula, por exemplo, ela está escarnecendo o diabo?

 – Ele está fingindo o bom fingimento; mas não está escarnecendo o diabo. Você escarnece o diabo quando ele lhe traz pensamentos blasfemos e você continua a cantar.

 – Como pode alguém dissipar um pensamento blasfemo que lhe chega durante o serviço da Igreja?

 – Cantando. “Abrirei minha boca e o Espírito há de me inspirar…[18]”. Você não está familiarizado com esse hino? Não fique remexendo o pensamento: despreze-o. Quando alguém discute tais pensamentos durante a hora de oração, é como o soldado que desmonta uma granada de mão enquanto escreve seu relatório ao oficial.

 – E se o pensamento persistir?

 – Se ele persistir, você deve estar ciente de que em algum lugar dentro de você ele estabeleceu uma fortaleza. A solução perfeita é a seguinte: despreze o diabo, porque ele está tutelando você em artimanhas. Nesse momento, é melhor nem dizer a Oração de Jesus, porque dessa maneira mostramos que estamos seriamente preocupados com o problema, e o diabo, vendo que ele nos perturbou, dominará esse ponto fraco e começará um constante bombardeio com pensamentos blasfemos. É melhor cantar durante algum tempo. Você vê, mesmo as crianças, quando querem escarnecer outra criança, cantam aquele “lalala…” familiar. Também nós devemos fazer a mesma coisa com o diabo. Mas cantamos hinos, não canções. A Salmodia é uma prece dirigida a Deus, mas é também uma rejeição de desprezo em relação ao diabo. Assim o diabo é atingido dos dois lados, e logo abandonará a rinha.

 – Quando estou em semelhante estado, Geronta, eu não consigo me obrigar a cantar hinos, e tenho dificuldade até mesmo em tomar a Santa Comunhão.

 – Isso é muito perigoso! O diabinho está realmente impondo um bloqueio a você. Você deve cantar e receber a Santa Comunhão, porque esses pensamentos não são seus. Seja obediente, pelo menos nisso: cante o Axion Estin[19], de modo a que o diabinho receberá o que merece e irá embora. Já não lhe contei a história que aconteceu com um certo monge?

 Ele chegou à Montanha Santa com a tenra idade de doze anos. Ele era um órfão que perdera o terno amor de sua mãe natural e que devotara todo seu amor à Panaghia.  Ele A sentia como se fosse sua mãe. Se você pudesse ver a terna devoção com que ele beijava os Ícones! Mais tarde, o diabo explorou esse amor e começou a lhe trazer pensamentos blasfemos. O pobre menino já não reverenciava os santos ícones. Seu Ancião, percebendo isso. Tomou-o pela mão e o colocou diante do ícone da Panaghia com Jesus Cristo, e ordenou-lhe que os beijasse diretamente na face, e não nas mãos; e imediatamente o diabo se retirou. De certo modo, é impudente beijar a Panaghia ou o Cristo na face, mas o Ancião orientou o jovem noviço a fazê-lo a fim de dissipar os pensamentos perturbadores.

Quando é por nossa falta que temos pensamentos blasfemos

 – Geronta, quando sou atacado por pensamentos blasfemos sem meu consentimento, estarei eu em falta?

 – Se você ficar perturbado com isso e não aceitar o pensamento, não é nada.

 – Geronta, quando é por falta, que alguém tem pensamentos blasfemos?

 – Se a pessoa não se perturbar com esses pensamentos e perder tempo discutindo isso, então a falta é dela. E, quanto mais ela aceitar o pensamento blasfemo, mas ela será atormentada pelo diabo. Pois quando um pensamento blasfemo entra na mente de alguém e ele o acolhe para examiná-lo, na verdade ele se expôs a algum tipo de influência diabólica.

 – E como afastar esses pensamentos, Geronta?

 – Se a pessoa fica perturbada quando eles chegam, e não os examina, eles vão embora sozinhos, porque não são alimentados. Uma árvore que não é regada morrerá com o tempo. Mas a partir do momento em que alguém se agrada desses pensamentos, mesmo por pouco tempo, ele fornece alimento a eles. Irrigando o velho “eu”, e os pensamentos inapropriados só poderão ser eliminados com grande dificuldade.

 – Geronta, às vezes eu aceito esses pensamentos blasfemos; eu dou meu consentimento e então me dou conta do que aconteceu, e não consigo dissipá-los.

 – Sabe o que acontece com você? Por um momento, você se distraiu e sua mente saiu vagando por aí. Você sonhou acordado com a boca aberta. Então o diabinho veio e jogou um doce na sua boca, e você começou a saboreá-lo. Você provou de sua doçura e agora já não quer atirá-lo fora. Mas você deve se livrar dele imediatamente, assim que sentir seu gosto açucarado, ou seja, assim que perceber a tentação.

 – Geronta, o que acontece quando um pensamento blasfemo chega e eu o aceito por um momento antes de dissipá-lo?

 – É o mesmo caso do diabo que lhe deu um doce; antes de chupá-lo, cuspa de sua boca. Mas você deve cuspi-lo desde o começo. Caso contrário, o diabo será mais esperto do que você no começo com o doce, e então enchê-lo-á de veneno e escarnecerá de você.


__________________________

[13] Neleos Kamarados, que viveu em Constantinopla por volta de 1880, foi um músico prolífico que estudou a teoria do canto bizantino e se distinguiu como um dos maiores cantores da Igreja.

[14] O nartex interior das igrejas monacais, o espaço entre o nartex e a nave da igreja. O nome provém do breve ofício chamado Litía, que é cantado nessa área da igreja nas grandes festas durante a vigília noturna, e que consiste em hinos e de uma “grande litania” de petições e súplicas.

[15] Ver São Gregório Dialogista, Evergetinos. Vol. I, Capítulo 35, ed. Mathew Lagges, Atenas 1980, pg. 510.

[16] Esse é o termo pelo qual o Ancião designa o diabo.

[17] Ver Santo Isaac o Sírio, The Ascetical Homilies, Apêndice B: Epistle do Abba Symeon, pg. 433, tr. Monastério da Santa Transfiguração, Boston, Massachusetts, 1984.

[18] A linha de abertura do Irmos da Primeira Ode do Cânone do Hino Acatiste.

[19] “Digno é, em verdade, bendizer-Te, ó Theotokos…”.


São Paísios, o Athonita
tradução de Tito Kehl

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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