“Quando o homem vê tudo com bons pensamentos, ele é purificado e recebe a graça de Deus. Com pensamentos maus, o homem condena a si próprio e desencaminha os outros, fazendo com que a Graça divina não os alcance, e permitindo que o diabo venha e faça suas más obras contra nós e em nós.”
Pensamentos bons e malignos[1]
O poder dos bons pensamentos
– Geronta, no Antigo Testamento, no Livro dos Macabeus IV, está escrito: “Os pensamentos devotos não desenraizam as paixões, mas antagonizam com eles[2]”. O que isso significa?
– As paixões estão profundamente enraizadas em nós, mas os pensamentos bons e devotos nos ajudam a não nos tornarmos escravos deles. Quando um homem só conduz bons pensamentos à sua mente, e estabelece um estado forte e saudável, as paixões permanecem adormecidas, quase como se não existissem. Em outras palavras, os pensamentos devotos não desenraizam as paixões todas juntas, mas as combatem e podem derrotá-las. Penso que o autor está descrevendo o que os Sete Jovens, sua mãe Santa Salomona e seu mestre São Eleazar, eram capazes de suportar, por possuírem pensamentos bons e devotos[3], indicando assim com precisão a extensão do poder dos bons pensamentos.
Um bom pensamento equivale a uma longa vigília! Trata-se de algo muito poderoso. Similar a certas armas capazes de interceptar um míssil ainda em sua base, utilizando raios laser e impedindo-o de ser lançado, o bom pensamento é capaz de antecipar e imobilizar os pensamentos malignos ainda no “aeroporto” do diabo, de onde seriam lançados. É por isso que você deve se esforçar ao máximo – antes de que o tentador tenha a chance de plantar maus pensamentos em sua mente – para plantar bons pensamentos e transformar seu coração num jardim florido, de modo a que sua oração seja enriquecida pela fragrância divina de seu coração.
Quando guardamos o menor ressentimento, um pequeno mau pensamento a respeito de qualquer pessoa, qualquer disciplina ascética que pratiquemos, como o jejum, as vigílias, etc., se tornam vãs. Que utilidade terão essas disciplinas ascéticas, se a pessoa não lutar de modo a prevenir e rejeitar os pensamentos malignos? Por que não esvaziar primeiro o recipiente cheio de qualquer resíduo impuro de azeite, que só serve para fazer sabão, antes de nela colocar o bom azeite; por que misturar o bom azeite com um resíduo imundo?
Um simples pensamento puro e bom possui mais poder do que todo exercício ascético. Por exemplo, uma pessoa boa é tentada pelo demônio e desenvolve pensamentos impuros, e se empenha em vigílias e jejuns de três dias para se afastar desses pensamentos impuros. Mas um simples pensamento puro e bom que ele coloca em sua mente pode fazer mais efeito do que as vigílias e os jejuns; ele pode ser de um auxílio mais positivo para o jovem na superação de seu problema.
– Geronta, quando você fala em “pensamento puro”, você se refere a algo específico ou a coisas mais gerais?
– Eu estou me referindo a assuntos gerais. Pois quando o homem é capaz de ver todas as coisas com bons pensamentos, ele se purifica e se enche da graça de Deus. Com maus pensamentos tendemos a condenar e caluniar os outros, impedindo a chegada da divina Graça, e então o diabo vem com sua obra maligna em nós e sobre nós.
– Em outras palavras, Geronta, damos ao diabo o direito de nos atacar apenas por condenarmos a alguém?
– Sim. Tudo começa com os bons pensamentos. É isso que eleva uma pessoa e a torna melhor. Devemos buscar o ponto em que nos tornemos capazes de ver todas as coisas com pureza. É o que disse Cristo: “Não julgueis pelas aparências, mas com correto discernimento[4]”. Tendo adquirido isso, o homem pode buscar o ponto em que seja capaz de ver todas as coisas com olhos espirituais, não com os olhos físicos. Todas as coisas podem ser então justificadas, no bom sentido do termo.
Devemos evitar cuidadosamente as mensagens malignas do demônio, para não poluirmos o Templo do Espírito Santo[5], e assim banirmos a Graça de Deus, trazendo escuridão espiritual para nossa alma. Quando o Espírito vê nosso coração em estado de pureza, Ele vem e habita em nós, porque Ele ama a pureza – e é por isso que ele que Ele se manifesta como uma pomba.
A pior enfermidade: os maus pensamentos
– Geronta, eu fico ansioso e não consigo dormir quando tenho um problema para resolver.
– Seu problema básico é o grande número de pensamentos. Se você não tivesse todos esses pensamentos, você seria capaz de realizar muito mais das obras que você assumiu para si em sua vida espiritual. Eis uma maneira de evitar todos esses pensamentos: quando você pensa em algo, digamos, que será preciso fazer amanhã, diga para si mesmo: “Essa tarefa não é para hoje, pensarei nela amanhã”. Do mesmo jeito, quando você precisa tomar uma decisão, não se preocupe com qual será o modo de tomar a melhor decisão, e pare de procrastinar. Tome uma decisão a assuma; então deixe que Deus cuidará do resto. Tente evitar ser demasiado meticuloso e acadêmico a respeito de muitos detalhes, que apenas confundem a mente. Faça o que estiver ao seu alcance com philotimo[6], simplicidade, e, acima de tudo, com grande confiança em Deus. Dessa maneira “obrigamos” Deus, por assim dizer, a nos ajudar, quando colocamos em Suas mãos nossas esperanças e nosso futuro. Mesmo uma pessoa saudável se torna inútil com muitos pensamentos rondando sua mente. Se a pessoa está doente e sofrendo, é justificável que tenha pensamentos preocupantes. Mas quando se é saudável, e ainda assim sobrevém a confusão e o sofrimento a partir de pensamentos sinistros, isso requer uma camisa de força! Ser saudável e ainda assim atormentar-se com pensamentos é uma terrível doença!
Em nossos tempos, uma das maiores enfermidades são os pensamentos vãos das pessoas que vivem no mundo. As pessoas conseguem ter tudo de bom na vida, exceto bons pensamentos. Elas se atormentam simplesmente por não conseguir encarar as coisas de modo espiritual. Por exemplo, alguém resolve ir a algum lugar, mas por causa de um pequeno problema no carro acaba se atrasando ao seu destino. Se ela tiver um bom pensamento, ela dirá: “Talvez nosso Deus Benevolente me tenha concedido esse atraso para prevenir um possível acidente” Como posso agradecer-Te por isso, ó Deus?”. E assim ela agradece a Deus pelo atraso. Ao contrário, se ela não tiver um bom pensamento, ela não irá encarar o incidente de maneira espiritual; ela irá amaldiçoar e culpar a Deus: “Que azar, que atraso inútil! Onde está Deus nessas horas?”.
Quando aceitamos seja lá o que aconteça com um pensamento bom e positivo, somos ajudados; quando fazemos o contrário, somos atormentados e nos descosemos emocional e fisicamente quando os pensamentos maus e negativos prevalecem. Uma vez, anos atrás, estávamos num caminhão que possuía alguns bancos no baú da carroceria, viajando de Ouranoupolis (Chalkidiki) para Thessaloniki. O interior do baú era uma confusão: roupas, caixotes de laranja, peixes, caixotes sujos e vazios de peixes que retornavam, estudantes da Escola Athonias[7], alguns sentados e outros em pé, monges, leigos… Veio um senhor e sentou-se ao meu lado. Ele era um pouco robusto e, como estava apertado, começou a reclamar em voz alta: “Que situação!”. Um pouco adiante estava um monge rodeado por caixotes. A ponto de que só víamos sua cabeça. A tantas, enquanto o caminhão sacolejava ao longo da trilha de carroças, o monge teve que permanecer em pé, segurando-se nos caixotes vacilantes para não cair. Ao mesmo tempo, o outro senhor continuava reclamando por estar um pouco apertado no seu assento. Então eu lhe falei: “como você continua a reclamar, vendo o que esse monge tem que suportar?”. E perguntei ao monge: “Como está indo, meu Pai?”. Com um sorriso, ele respondeu: “Geronta, isso aqui é bem melhor do que o inferno!”. Um homem estava atormentado, embora pudesse estar sentado, enquanto o outro estava contente de pé, virtualmente soterrado pelos caixotes. E foi uma viagem de duas horas, não um passeio curto. O senhor só pensava no conforto que ele teria se estivesse viajando de ônibus, enquanto o monge pensava nos sofrimentos do inferno, e estava feliz por viajar num baú imundo. “Chegaremos ao nosso destino em duas horas, e iremos embora, enquanto os coitados no inferno sofrerão para sempre. Acima de tudo, aquilo é o inferno, não uma acomodação desconfortável. Glória a Deus, está bem melhor aqui!”.
– Geronta, como você explica os diferentes graus de confiança de dois noviços para com seu Ancião?
– Pensamentos. As pessoas podem desenvolver um criticismo em relação a tudo e a todos. Se um homem não possui bons pensamentos e não remove o interesse próprio e o desejo de suas atividades, vale dizer, se continua a agir egoistamente, ele não poderá ser ajudado nem mesmo por um santo. Um santo Ancião, mesmo Santo Antônio, junto com todos os santos, não serão de auxílio para num homem egoísta. Nem o próprio Deus pode ajudar essa pessoa, ainda que Ele muito o queira. Quando alguém ama a si próprio e é egoísta, ele interpreta tudo de acordo com seu ego interior. Algumas pessoas interpretam as coisas de modo carnal ou pecador, outras de qualquer maneira como seu ego queira, e gradualmente essas interpretações se tornam como uma segunda natureza para elas. Não importa como você aja, elas ficarão escandalizadas.
Existem algumas pessoas que voam se você lhes dê atenção, se disser a elas uma palavra corajosa e amável. Mas se você não prestar atenção a elas, elas se entristecem profundamente e têm uma reação extrema, que provém do tentador, do diabo. Ou elas veem alguma atividade acontecendo, e dizem: “Aha! É isso que deve estar acontecendo!”. Mais tarde elas se convencem de que isso realmente aconteceu. Ou elas veem alguém pensativo e imaginam que esse alguém deve ter algo contra elas. Quando na verdade o outro está pensativo simplesmente porque está preocupado com uma questão pessoal.
Há algum tempo, alguém veio a mim e disse: “Por que (fulano) costumava falar comigo e agora não mais? Foi por alguma coisa que eu disse?”. Então eu disse a ela sem rodeios: “Olha, talvez ele tenha te visto mas não tenha percebido, ou tenha algo em mente, como um amigo doente que precisa de médico, ou das providências que precisa tomar para uma viagem, e assim por diante”. De fato, a outra pessoa estava preocupada com um amigo enfermo que necessitava cuidados. Mas, como a pessoa esperava uma atenção exclusiva e seu amigo não parou para falar com ela, ela permitiu que uma série de maus pensamentos entrassem em sua mente.
Bons pensamentos conduzem à saúde espiritual
– Geronta, quais são as características de um pensamento fraco?
– O que você quer dizer com isso? É a primeira vez que ouço falar nisso.
– Geronta, você disse isso a respeito de alguém que tenha um pensamento sinistro, ou que entenda mal o comportamento de outra pessoa.
– E eu chamei isso de pensamento fraco?
– Eu me lembro de uma pessoa que queria ficar consigo e se tornar noviço sob sua direção, e você lhe disse: “Não posso mantê-lo comigo, porque você tem pensamentos fracos”.
– Não foi isso que eu quis dizer. Eu disse a ele: “Não posso tomá-lo como noviço, porque você não tem saúde espiritual”. E ele me perguntou: “O que você quer dizer com saúde espiritual?”. “Você não tem bons pensamentos”, eu disse, “Como homem, eu possuo minhas faltas, e como monge por todos esses anos, eu devo ter desenvolvido algumas virtudes. Se você não possui bons pensamentos, você será prejudicado tanto por minhas faltas, como por minhas virtudes”. Podemos dizer de uma criança, que ela tem o pensamento fraco por ser imatura, mas você não pode dizer isso de uma pessoa crescida.
– Todas as pessoas crescidas, Geronta, são maduras?
– Algumas, por causa de sua mente, de seu modo de pensar, não são maduras. E eu não me refiro a pessoas que são mentalmente alteradas e não compreendem. Mas quando alguém não se comporta, nem age com simplicidade, seus pensamentos se voltam para o mal, e ela interpreta tudo de maneira errada. Essa pessoa não possui saúde espiritual, e não pode ser ajudada pelo bem; inclusive, ela é atormentada pelo bem.
– Geronta, se vemos que algo não está certo no monastério devemos tentar encontrar o responsável?
– Primeiro verifique se você não é o responsável. É o melhor a fazer.
– Mas, Geronta, e se outros dão ocasião a dúvidas?
– E quantas vezes não foi você a dar ocasião? Se você pensar nisso. Você se dará conta de que está cometendo um erro em lidar assim com esse tipo de situação.
– Mas, e quando dizemos: “Isso é claramente algo que a Irmã Fulana fez”, seria esse um pensamento sinistro?
– Você tem certeza de que isso foi feito pela Irmã?
– Não, mas ela fez coisas similares em outras ocasiões.
– Então, uma vez mais é um pensamento sinistro e inapropriado, uma vez que você não pode estar certo a respeito de quem fez isso. E, ainda que tenha sido feito pela Irmã, ninguém sabe como nem porque ela cometeu isso.
– Geronta, o que fazer quando vejo que determinada Irmã tem uma paixão específica?
– Você é a Abadessa? A Abadessa tem a responsabilidade sobre isso; é tarefa dela examinar as paixões de todas as Irmãs. E por que você examinaria as paixões de outra Irmã? Infelizmente, vocês ainda não aprenderam a trabalhar espiritualmente sobre si próprias. Se vocês quiserem trabalhar espiritualmente sobre si mesmas, não examinem o que estão fazendo aquelas que estão ao seu redor; ao contrário, tenham bons pensamentos a respeito do bom e do mau que vocês veem nas outras. Independentemente da razão pela qual alguém faz alguma coisa, você deve colocar um bom pensamento em sua mente. Um bom pensamento contém amor; ele desarma a outra pessoa e a faz comportar-se apropriadamente.
Lembra-se do incidente com aquelas monjas que confundiram um ladrão com um Pai Espiritual? Quando se revelou que ele era um ladrão, elas continuaram pensando que ele era um louco de Jesus Cristo e que apenas se passava por ladrão, e continuaram a reverenciá-lo. No final, elas salvarão a ele e a seus companheiros[8].
– Geronta, quando uma Irmã mente para mim…
– E se ela se sentiu forçada por você a mentir, ou se ela esqueceu, ou se o que ela disse não foi mentira? Por exemplo, a monja responsável pela hospitalidade, sabendo que há salada na cozinha, pede salada à cozinheira, que replica: “Não tenho salada alguma”. Se a monja responsável pela hospitalidade não tiver bons pensamentos, ela pensará: “Ela está mentindo”. Mas, se ela tiver bons pensamentos, ela dirá: “Pobre monja, ela está tão ocupada com seu trabalho, que esqueceu-se de que há um pouco de salada na cozinha”. Ou ela pode pensar: “Talvez ela esteja guardando a salada para outra pessoa”. Você não tem saúde espiritual, e é por isso que você pensa do seu jeito. Se você tivesse saúde espiritual, você veria como puro mesmo o impuro. Somente reconhecendo o valor do fruto, você saberá o valor do adubo, porque é o adubo que ajuda o fruto a crescer.
Quem quer que tenha bons pensamentos, esse terá também saúde espiritual, e todo o mal poderá ser transformado em bem. Lembro-me, durante a ocupação alemã, as crianças fisicamente fortes comiam com grande apetite um pedaço de bobota[9], e permaneciam com saúde. Em contraste, as crianças fracas, que comiam pão com manteiga, tendiam a ficar doentes porque não tinham uma constituição forte. Algo similar acontece na vida espiritual. Alguém que possui bons pensamentos, ainda que atingido injustamente, dirá: “Deus permitiu isso para me redimir de minhas faltas passadas. Glória a Deus!”. Por outro lado, alguém que não tenha bons pensamentos imaginará estar sendo ferido, mesmo que estiver sendo cuidado. Veja o exemplo do bêbado. Se ele for mau, destruirá tudo durante sua bebedeira. Se for bom, pôr-se-á a chorar e a perdoar a todos, vivos e mortos. Havia um bêbado que dizia: “Eu ofereço um balde cheio de moedas de ouro a qualquer um que me inveje!”.
Quem tem bons pensamentos vê o bem em todas as coisas
Algumas pessoas me dizem estar escandalizadas por verem tantas coisas erradas na Igreja. Eu digo a elas que, se perguntarem a uma mosca: “Existem muitas flores nessa área?”, ela dirá: “Não sei de flores, mas existe por aí grande quantidade de lixo, onde você encontrará toda comida que queira”. E fará uma lista de todas as sujeiras disponíveis. Agora, se você perguntar a uma abelha: “Você viu muito lixo nessa área?”, ela responderá: “Lixo? Não, nada; o lugar está todo cheio de flores perfumadas”. E passará a nomear todas as flores do jardim ou do prado. Veja, a mosca só sabe onde está o lixo, enquanto a abelha sabe onde encontrar os lírios e jacintos…
Eu entendo que algumas pessoas se parecem com abelhas, outras se parecem com moscas. As que se parecem com moscas veem o mal em todas as circunstâncias e se preocupam com isso; elas não veem o bem em parte alguma. Mas aquelas que se parecem com as abelhas só veem o bem em tudo o que as rodeia. A pessoa estúpida pensa estupidamente e toma tudo ao contrário, enquanto que a pessoa que possui bons pensamentos, não importa o que veja ou o que lhe digam, mantém um pensamento bom e positivo.
Certa vez um estudante universitário chegou à minha Kalyvi[10], e bateu à aldrava da porta. Eu estava lendo as cartas que recebera, nesse momento, mas decidi me levantar a ver no que ele desejava. “O que você quer, meu filho?”, perguntei. “É essa a Kalyvi do Pai Paisios?”, ele perguntou, acrescentando: “Eu gostaria de ver o Pai Paisios”. “Essa é sua Kalyvi, mas ele não está aqui. Saiu para comprar cigarros”, eu lhe disse. “Creio que talvez ele tenha ido ajudar alguém”, respondeu ele, com um bom pensamento. “Ele foi comprar cigarros para si próprio”, disse eu. “Ele fumou todos os que havia e estava desesperado por um cigarro. Ele me deixou sozinho aqui, e não sei quando voltará. Se ele demorar demais, eu vou embora”. Os olhos úmidos do rapaz mostravam sua emoção, e mais uma vez ele expressou um bom pensamento: “Nós atormentamos o Pai Paisios…”. “Por que você quer vê-lo?, perguntei. “Eu queria receber sua bênção”, disse ele. “Que espécie de bênção você espera receber dele, tolo! Ele está desencaminhado; eu o conheço bem. Não há Graça nele. Não perca seu tempo esperando por seu retorno. Ele chegará resmungando; talvez até esteja bêbado, porque ele bebe demais”. Apesar de tudo, o jovem continuava a ter bons pensamentos. Finalmente, eu lhe disse: “Eu vou esperar por ele um pouco mais, o que quer você que eu lhe diga?”. “Eu tenho uma carta para lhe entregar”, disse ele, “mas esperarei, para poder receber sua bênção. Você vê? Não importa quantas coisas negativas eu relatava, ele a tudo tomava com bons pensamentos. Quando eu lhe falei da necessidade de cigarros, seus olhos se encheram de lágrimas. “Quem sabe”, pensou, “ele não terá saído para ajudar alguém”. Existem pessoas bem-educadas e que sabem analisar as coisas, mas que, mesmo assim, não possuem os bons pensamentos desse jovem estudante! Você demole seu pensamento, e ele imediatamente cria um pensamento melhor e chega a uma conclusão melhor ainda. Eu fiquei maravilhado com ele. Foi a primeira vez que vi uma coisa dessas!
Pensamentos de um homem santificado e de um homem ardiloso
– Geronta, alguém que foi santificado é capaz de perceber um homem ardiloso?
– Sim, ele pode discernir o homem ardiloso, assim como pode discernir a santidade do Santo. Ele vê o mal, mas, ao mesmo tempo, vê o homem interior e percebe se o mal vem do tentador, o diabo, procedente do exterior. Vendo com os olhos de sua alma, ele amplia suas próprias faltas, enquanto diminui as faltas dos demais. E, principalmente, ele vê todas essas faltas em verdade, não falsamente. Ele é capaz de discernir que algumas dessas faltas podem mesmo ser crimes; mas ele encontrará alguma justificativa, no bom sentido do termo, para os esquemas ardilosos do homem mau, que ele não despreza ou considera ser inferior. Ele pode mesmo considerar o homem mau como sendo melhor do que ele próprio, e irá conscientemente tolerá-lo, por muitas razões. Por exemplo, ele reconhece a natureza criminosa do mal, mas pensa que o homem que se tornou criminoso o fez por não ter recebido ajuda; ele pode inclusive pensar que ele próprio poderia se tornar criminoso [nas mesmas circunstâncias], se Deus não o tivesse ajudado. E assim ele recebe mais Graça. Ao contrário, o homem ardiloso, ao ver a santidade de alguém, não vê os bons pensamentos em seu coração, assim como o próprio diabo não os conhece.
Aquele que faz um trabalho espiritual apurado justifica os demais, mas nunca a si mesmo. E, quanto mais ele avança espiritualmente, mais se liberta, mas ama a Deus e as outras pessoas. Assim, ele não consegue compreender o que significa o mal, porque tem sempre bons pensamentos em relação aos demais, pensa sempre com pureza e vê todas as coisas sob uma luz santificada e espiritual. Essa pessoa se beneficia até mesmo com a queda de outrem, que ela utiliza como um breque para si mesma, evitando se desencaminhar pelas mesmas faltas. Ao contrário, aquele que não foi purificado internamente pensa de forma ardilosa, e vê todas as coisas através do brilho fosco da malícia. Mesmo as boas coisas são poluídas por sua malícia. Essa pessoa não se beneficia com as virtudes dos outros, porque está obscurecida pela escuridão do mal destruidor dos homens, e interpreta as virtudes através de seu próprio vocabulário de ardis. Ele está sempre em aflição, e aflige os demais com suas sombras espirituais. Se ele deseja se libertar, ele deve entender que precisa de purificação, tanto da mente como do coração, que lhe trarão a claridade espiritual.
– Geronta, o que acontece quando uma pessoa ora é maliciosa, ora boa?
– Nesse caso, a pessoa transita por incomensuráveis influências e mudanças. O homem é mutante. Pensamentos maliciosos podem provir do temperamento, do diabo, e às vezes o próprio homem pensa maliciosamente. Muitas vezes o diabo cria as condições que conduzem o homem aos maus pensamentos. Certa vez um Arquimandrita veio à minha Kaliva pela primeira vez, mas não consegui recebê-lo. Da segunda vez em que veio, não pude atendê-lo por estar seriamente doente, e pedi a ele que voltasse em outra hora para que pudéssemos conversar. Então ele teve maus pensamentos, de que eu não queria vê-lo, que eu tinha algo contra ele; sendo assim, ele voltou para seu Monastério queixando-se. Tudo isso procedeu do maligno.
Os pensamentos de uma pessoa revelam seu estado espiritual
– Geronta, como é possível que a mesma coisa seja interpretada de modo diferente por suas pessoas?
– Todos os olhos veem com igual claridade? Para que alguém veja com clareza, ele precisa ter os olhos da alma em condição saudável, pois só assim conseguirá ter pureza interior.
– Geronta, por que uma pessoa vê um acontecimento como uma bênção, enquanto outra o vê como um desgraça?
– Cada pessoa interpreta os acontecimentos de acordo com seu próprio pensamento. Qualquer coisa pode ser vista sob seu aspecto bom ou sob seu aspecto ruim. Eu escutei a respeito do seguinte acontecimento: Num monastério situado próximo a uma área desabitada, havia o costume de celebrar as Vésperas e as Matinas à meia-noite, de forma a permitir que os moradores das casas próximas – que foram sendo construídas ao redor do monastério ao longo do tempo – pudessem comparecer aos Ofícios da igreja. Certa vez um jovem monge foi ao Ofício e, tendo deixada aberta sua cela, uma mulher entrou nela. Quando ele soube do fato, ficou confuso e preocupado, porque isso seria considerado uma coisa muito ruim! “Minha cela foi conspurcada!”. Ele pegou álcool, espalhou pelo chão e pôs fogo, para desinfetá-la. E quase incendiou todo o monastério. Ele queimou o piso de sua cela, mas não o pensamento de sua cabeça. Ele deveria ter queimado o pensamento, pois era ali que o diabo estava atuando. Se ele tivesse tido um bom pensamento, ele diria que a mulher penetrou na sua cela por devoção, para receber uma bênção, para receber uma graça, a fim de vencer alguma batalha espiritual em sua casa, com mais fervor; dessa maneira, ele teria se transformado espiritualmente, e teria glorificado a Deus.
O estado espiritual de uma pessoa é indicado pela qualidade de seus pensamentos. As pessoas julgam as coisas de acordo com o conteúdo espiritual de seu coração. Se elas não tiverem um conteúdo espiritual, chegarão a conclusões erradas e farão mal a outras pessoas. Por exemplo, alguém que está prestando caridade à noite, para não ser visto, jamais pensará mal se encontrar outra pessoa à noite pelas ruas. Mas a pessoa que passa suas noites em pecado, ao encontrar alguém tarde da noite, dirá: “Quem sabe no que esse mau indivíduo andará gastando seu tempo?”, porque ele próprio experimenta a mesma coisa. Ora, se algum barulho provém do andar de cima, a pessoa de bons pensamentos dirá: “Eles estão orando e fazendo prostrações”. Mas a pessoa com maus pensamentos dirá: “Eles dançaram a noite inteira”. Se se ouve uma melodia, o primeiro pensará: “Que linda salmodia”, enquanto o segundo dirá: “Que espécie de som é esse?”.
Lembra-se como se dirigiram a Cristo os dois ladrões que foram crucificados junto com ele? Ambos viram Cristo na Cruz, sentiram a terra tremer e tudo o mais. Mas, quanta diferença entre os pensamentos de um e de outro! Aquele à esquerda blasfemou e disse: “Se é o Cristo, salva-te, e a nós também[11]”, enquanto o da direta disse: “Recebemos o que merecemos por nossos atos. Mas esse Homem não fez nada que O condenasse[12]”. Assim, um foi salvo, enquanto o outro se perdeu.
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[1] O termo logismos (razão, pensamento) nos escritos ascéticos, denota tanto um simples pensamento que atravessa a mente, ou uma emoção da alma dirigida para o bem ou para o mal, como uma tendência boa ou má, adquirida com a ajuda da mente, da consciência, das emoções e da vontade. Uma vez que o pensamento precede toda ação, a luta de todo fiel, e em primeiro lugar de todo monge, para ser autêntica, requer uma vigilância constante e um exame desses pensamentos, de modo a cultivar os bons e descartar os maus.
[2] Cf. IV Macabeus 3: 5 LXX.
[3] Cf. IV Macabeus 5:1 LXX.
[4] João 7: 24.
[5] Cf. I Coríntios 6: 19, 3: 16.
[6] Zelo.
[7] A Escola Athonias foi estabelecida em 1748 no Monte Athos como uma Academia de estudos Gregos. Hoje ela funciona como uma Universidade Ortodoxa sob jurisdição da Igreja.
[8] Dentre as histórias dos monges dos primeiros tempos, conta-se essa: um conhecido gatuno, que pretendia roubar um convento bem guardado, vestiu-se de monge e pediu abrigo ali. A Abadessa e todas as monjas o receberam com grande respeito como se fosse um Pai. Todas as monjas buscavam receber sua bênção: elas lavaram seus pés e aguardaram a água como se fosse benta. Uma monja paralítica, que com grande fé foi banhada com essa água, foi curada e chegou a andar para receber sua bênção, para espanto geral. Vendo esse milagre, o ladrão se transformou, arrependeu-se, jogou fora a espada que escondia sob o hábito, e, junto com seus companheiros, tornou-se monge naquele mesmo instante, e todos viveram monasticamente e cheios de fé pelo resto da vida. (D. Tsamis, Miterikon, vol 3, Thessaloniki 1992, pgs. 18-24).
[9] Pão de milho.
[10] Uma habitação que inclui duas ou três celas e uma pequena Capela, tudo pertencente a um dos vinte Monastérios maiores da Montanha Santa.
[11] Lucas 23: 39.
[12] Lucas 23: 41.
São Paísios, o Athonita
tradução de Tito Kehl







