A GRANDE QUARESMA E A CURA DE NOSSAS FERIDAS

Uma das lições mais difíceis da vida espiritual é ensinada por aqueles que nos insultam e ofendem. Deus permite e, às vezes, até envia indivíduos que podem nos conduzir ao céu ou ao inferno, dependendo da nossa resposta. Como disse São João Crisóstomo: “Tire o competidor e você tira a oportunidade de conquistar as coroas.”

Era uma vez uma mulher que teve um sonho. Em seu sonho, ela estava desapontada, desiludida e deprimida. Ela queria um mundo bom, um mundo pacífico, e queria ser uma boa pessoa. Mas o jornal e a televisão mostravam a ela o quão longe estávamos dessa realidade. Então, ela decidiu ir às compras. Ela foi ao shopping e entrou em uma loja nova – onde a pessoa atrás do balcão parecia estranhamente com Jesus. Reunindo coragem, ela se aproximou do balcão e perguntou: “Você é Jesus?” “Bem, sim, eu sou”, respondeu o homem. “Você trabalha aqui?” “Na verdade”, respondeu Jesus, “a loja é minha. Você pode passear livremente pelos corredores, ver o que eu vendo e depois fazer uma lista do que deseja. Quando terminar, volte aqui e veremos o que podemos fazer por você.”

Então, a mulher fez exatamente isso. E o que ela viu a emocionou. Havia paz na Terra, não havia mais guerra, fome ou pobreza, paz nas famílias, não havia mais drogas, harmonia, ar puro. Ela escreveu furiosamente e finalmente se aproximou do balcão, entregando uma longa lista a Jesus. Ele deu uma olhada rápida no papel e, sorrindo para ela, disse: “Sem problema”. Estendendo a mão por baixo do balcão, pegou alguns pacotes e os colocou sobre o balcão. Confusa, ela perguntou: “O que são estes?”. Jesus respondeu: “São pacotes de sementes. Veja bem, esta é uma loja de catálogo”. Surpresa, a mulher exclamou: “Quer dizer que eu não recebo o produto final?”. “Não”, respondeu Jesus gentilmente. “Este é um lugar de sonhos. Você vem e vê como é, e eu lhe dou as sementes. Então você planta as sementes. Você volta para casa, cuida delas e as ajuda a crescer, e outra pessoa colhe os frutos”. E então ela acordou.

A Grande Quaresma pode ser considerada um “campo de sonhos”, onde nos é apresentada tanto uma visão do produto final, no nosso caso o céu, quanto as sementes que precisam ser plantadas para chegarmos lá. Se existe uma semente que é a maior e mais benéfica, essa semente é o amor. Tiago escreve em sua epístola: “Se vocês cumprem a lei real, conforme a Escritura: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’, vocês estão agindo corretamente; mas, se fazem acepção de pessoas, praticam o pecado, sendo condenados pela lei como transgressores” (Tiago 2:8-9). São Tiago sabia que, para que o ensinamento de Cristo sobre o amor fosse aperfeiçoado, ele precisava ser universal. Os “ricos” e os “pobres” devem ser amados igualmente. Todas as pessoas devem ser amadas, independentemente de qualquer coisa. A Quaresma também é considerada uma “escola de arrependimento”, e o curso inevitavelmente nos levará a plantar sementes em lugares que jamais imaginaríamos. Aqueles que nos são queridos e aqueles que consideramos inimigos são ambos jardins que merecem amor. Uma das lições mais difíceis da vida espiritual é ensinada por aqueles que nos insultam e ofendem. Deus permite, e às vezes até envia, indivíduos que podem nos conduzir ao céu ou ao inferno, dependendo da nossa resposta. Como disse São João Crisóstomo: “Tire o competidor e você tira a oportunidade de conquistar as coroas”. A Quaresma começa com o perdão (com as Vésperas do Perdão, às 17h, dia 9 de março) e termina com a Liturgia da Páscoa e um apelo final para que nos amemos uns aos outros, para que possamos proclamar juntos: “Cristo ressuscitou dos mortos!”

A semente do perdão começa com a compreensão de que o Evangelho nos exige que amemos os outros da mesma forma que amamos a nós mesmos. São João Crisóstomo pediu à sua congregação que considerasse a maneira como nos amamos: “Não nos invejamos; desejamos todas as coisas boas para nós mesmos; preferimos a nós mesmos a todos; estamos dispostos a fazer tudo por nós mesmos. Se também fôssemos inclinados da mesma maneira para com os outros, todas as coisas dolorosas chegariam ao fim; não haveria inimizade; não haveria cobiça: pois quem escolheria levar vantagem sobre si mesmo? Ninguém estaria em conflito com ninguém. E se fizéssemos isso, a lembrança de ofensas não teria lugar: pois quem escolheria lembrar-se de ofensas contra si mesmo? Quem escolheria ficar com raiva de si mesmo? Não nos permitimos ser mais indulgentes conosco mesmos do que com os outros?” Somos chamados a empregar os mesmos padrões que temos para nós mesmos com os outros. O que torna possível plantar essa semente é o conhecimento das próprias feridas.

Todos nós fomos e estamos feridos. Se não fôssemos feridos pelo pecado, Cristo não teria precisado vir nos salvar na Cruz. Se não fôssemos feridos pelo pecado, todos nos daríamos bem; não haveria discussões, desentendimentos, conflitos ou divisões entre nós. Reconhecer as próprias feridas é uma parte importante para alcançar o sonho da perfeição, da unidade, do perdão e do amor. Se desejamos ver esse sonho se tornar realidade, isso precisa se tornar um objetivo comum a todos. O que causa golpes mortais nas comunidades é que os indivíduos feridos se dividem em duas categorias: aqueles que querem ser curados e aqueles que preferem curar todos os outros e ignorar suas próprias feridas. Ainda assim, aqueles que desejam a cura abraçam todas as oportunidades e começam por si mesmos. Tirar a trave do próprio olho precede tirar o cisco do olho do próximo (Mateus 7:3-4). O processo de remover aquilo que nos cega (uma trave no olho) visa a uma cegueira espiritual pessoal. “Não consigo ver meus pecados, não os conheço, Deus, mostre-me meus pecados!” É assim que removemos nossas muitas traves. Não podemos fazer isso sozinhos. A cura autodirigida deve ser evitada a todo custo. Escolher o próprio diretor espiritual pode ser muito perigoso, pois tendemos a evitar aqueles que tememos que nos digam a verdade. Preferimos nos submeter ao nosso próprio julgamento do que ao sacerdote que Deus nos confiou. O sacerdote é, ele próprio, um curador ferido que não julga, mas oferece cura com base na experiência pessoal que busca. Ambos são pecadores arrependidos que devem comparecer perante Deus e permanecer de pé ou cair de acordo com seus atos. A confissão é um ato voluntário de comparecer perante Deus em antecipação a esse comparecimento final. O objetivo é a cura das feridas.

Cristãos em processo de cura experimentam a libertação de comportamentos negativos, muitas vezes caracterizados por hábitos destrutivos (paixões). Alegria e felicidade são o que a maioria das pessoas deseja na vida. A alegria que provém da profunda fonte do amor de Deus é a experiência mais poderosa que um ser humano pode ter. Ela nos eleva acima do lamaçal de um mundo repleto das consequências do pecado. Cristãos em processo de cura não temem os males da sociedade, porque Cristo os venceu a todos. Sua graça e o Espírito Santo transformam vidas e trazem luz à escuridão ao nosso redor. Sabemos que isso é verdade porque experimentamos em primeira mão. Cristãos que evitam a cura veem apenas tristeza, desespero e escuridão, e, consequentemente, negam o poder de Deus com sua visão de mundo. Cristãos em processo de cura permitem que a bondade, a esperança e o amor de Deus encubram a escuridão do mundo. O amor de Deus está ao nosso redor, é o que inspira nossos sonhos por um mundo perfeito e é o dom da Igreja – é o céu na terra.

Que nossos sonhos por uma vida espiritual perfeita sejam nutridos com todas as sementes certas para que se tornem realidade.


Sacerdote Andrew Barakos
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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