Enquanto, por um lado, há feridas que o mundo exterior nos causa (como a injustiça, a violência, o abandono), há também, por outro, outro tipo de feridas, mais silenciosas e por vezes mais profundas, que não vieram do mundo, e sim da Igreja. Ou, pelo menos, daqueles que afirmavam falar em Nome de Cristo.
Muitos carregam marcas deixadas por palavras ouvidas em púlpitos, salas de catequese ou encontros pastorais. Sermões que insistiam quase exclusivamente no medo, no julgamento e na condenação. Discursos que apresentavam Deus como alguém sempre à espreita, pronto para punir. Para alguns, isso não produziu conversão, mas paralisia. Não gerou arrependimento, e sim vergonha, angústia e fuga.
Quando a fé é construída apenas sobre o medo, a imagem de Deus Se deforma dentro de nós. Ele deixa de ser Pai e passa a parecer um acusador. E, assim, aquilo que deveria nos conduzir aos Seus braços acaba nos empurrando para longe. Não porque Cristo tenha falhado, mas porque a Sua face foi encoberta por palavras que não nasciam do Seu coração.
A Sagrada Escritura, porém, nos apresenta outro rosto. Cristo não Se revela como um juiz irado que Se alimenta da queda do pecador. Ele Se apresenta como o Bom Pastor, que conhece Suas ovelhas pelo Nome, Que vai ao encontro da perdida, Que carrega nos ombros a ferida, não para esmagá-la, mas para curá-la. Ele mesmo diz que não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Na tradição espiritual da Igreja Ortodoxa, o pecado nunca foi compreendido apenas como uma infração legal, mas como uma doença da alma. E, se há doença, o que se espera do médico não é condenação, mas θεραπεία, cura. Os Santos Padres falam de Cristo como o Médico que desce até a enfermidade humana, toca as feridas e restaura o que foi quebrado. Um médico não humilha o doente por estar ferido. Ele o trata.
Por isso, quando a ferida nasce dentro da experiência eclesial, ela não deve ser escondida nem negada. Também não deve ser transformada em amargura permanente. Ela precisa ser colocada diante de Cristo. Com verdade, com dor, talvez até com lágrimas. E com uma oração simples: “Senhor, não permitas que isso endureça o meu coração. Não deixes que a dureza dos homens roube de mim a Tua misericórdia”.
Cristo não é a voz do medo que paralisa. Ele é a voz Que chama pelo Nome. A voz que diz “não tenhas medo”, “levanta-te”, “vai em paz”. Ele não apaga a verdade, mas a revela sempre unida ao amor. Não relativiza o pecado, mas nunca separa o arrependimento da esperança. Onde Ele passa, a verdade não destrói, cura.
A maturidade espiritual, muitas vezes, começa quando conseguimos distinguir entre Cristo e as caricaturas que fizeram d’Ele. Quando ousamos reaprender o Evangelho com os olhos do coração. Quando permitimos que o Bom Pastor nos conduza novamente, mesmo depois de termos sido feridos no aprisco.
A Igreja, em sua essência mais profunda, não é o lugar da opressão da consciência, mas do encontro com o Deus vivo. Onde isso foi esquecido, há feridas reais. Mas nenhuma delas está fora do alcance da Ressurreição. Levadas a Cristo, elas podem deixar de ser fontes de endurecimento e se tornar caminhos de compaixão, humildade e cura. Afinal, não é o medo que nos salva. É o amor que nos reconstrói.
08.01.2026
+ Bispo Theodore El Ghandour







