HOMILIA PARA O DOMINGO DE SANTA MARIA DO EGITO
Este abençoado domingo marca o início da última semana da Quaresma, que dura quarenta dias, após a qual entramos na Semana Santa, a semana de grandes lutas em que toda a jornada deste jejum se completa quando a morte se transforma em ressurreição.
Os domingos da Quaresma são uma procissão ascendente, uma ascensão espiritual que nos leva a ver Deus à luz da Ressurreição de Cristo dentre os mortos. Os dois primeiros domingos da Quaresma, o Domingo da Ortodoxia e o Domingo de São Gregório Palamas, representam a experiência da verdadeira fé, a fé sobre a qual repousa toda verdadeira ascensão espiritual em direção a Deus, em Quem cremos. Os dois últimos domingos da Quaresma, o Domingo de São João Clímaco e o Domingo de Santa Maria do Egito, representam a experiência do arrependimento e a luta espiritual para alcançar a vida perfeita em Cristo.
No centro desta santa Quaresma está a experiência da Cruz, através da qual se cruzam a experiência da fé e a experiência do ascetismo. O Domingo da Cruz representa a experiência da fé viva no Filho de Deus e a experiência de entregar nossa vontade a Ele. A Cruz representa a conexão entre a crença e a vida, pois a vitória de Cristo sobre o pecado, o diabo e a morte foi consumada na Cruz. Ela também revelou a necessidade que o homem tem da Cruz de Cristo. Cristo reconciliou a rebeldia de Adão pela obediência até a morte, a morte na Cruz. A Cruz tornou-se o elo constante entre a verdadeira fé e a vida correta. Contudo, a Semana Santa é a coroação dessa ascensão espiritual. Na Semana Santa, o fim se torna o começo, por meio do qual um novo nascimento espiritual se realiza em nós através da experiência da morte e da ressurreição — a vitória com Cristo.
A ascensão espiritual do homem em direção a Deus é, antes de tudo, uma jornada de fé. No entanto, a fé requer obras sérias de ascetismo. A fé precisa de obras, e as obras não podem ser boas e perfeitas sem o ascetismo que as purifica do mal da paixão do amor-próprio. Assim como o corpo precisa do pão, as obras precisam de lutas ascéticas. Por isso, dizemos que a fé viva precisa de ascetismo. Expressamos esse ascetismo em jejuns abençoados, longas orações, vigílias e outras lutas. Por meio desses meios, a alma submete, pela fé, sua vontade a Deus e vive n´Ele. O ascetismo é o verdadeiro alimento da verdadeira fé, para que a fé se torne perfeita e não meramente teórica. Sem a vida ascética, a fé certamente morrerá. A fé morrerá primeiro em sua racionalidade e lógica limitada e, em segundo lugar, pela ação das paixões, pelas quais a fé se volta para si mesma em vez de se voltar para Deus. Santo Isaac, o Sírio, diz que “suportar as dificuldades voluntariamente e com amor revela a sinceridade da fé, mas o trabalho do ócio acontece na consciência corrupta. O amor dos santos foi provado pelas dificuldades e não pelo descanso, porque o trabalho feito sem esforço é uma virtude das pessoas do mundo que fazem boas obras externamente e não se beneficiam delas”.
Pois pela fé os santos se entregaram a Deus e, pelo ascetismo, purificaram sua vontade. Os santos subjugaram seus corpos e os entregaram aos mandamentos de Deus. Santo Hilário de Poitiers destaca que a alma aflita não encontrará consolo senão pela submissão à fé. Essa entrega é o que conduzirá a alma ao martírio, sem medo, à sua fé viva.
Somente a fé viva conecta a criatura com o seu Criador. Essa fé não é uma convicção externa no homem. Ela opera internamente no homem e direciona as energias da alma para o conhecimento genuíno de Deus. Em Seus ensinamentos, Cristo enfatizou as obras de fé. Isso ficou claro quando Cristo perguntou persistentemente, durante o episódio da mulher com hemorragia: “Quem Me tocou?”. Assim, Cristo diz que não podemos realmente tocá-Lo senão pela fé. Muitas pessoas O tocaram como homem, mas apenas uma pessoa O tocou como Deus, como diz Santo Efrém, o Sírio.
Este foi também o caso da Virgem Maria em Sua Anunciação, quando o anjo A informou da plenitude dos tempos que se aproximava; Ela tocou noeticamente o Menino que Se encarnaria através d´Ela como Deus. A entrega imediata à vontade de Deus, após Sua pergunta ao anjo, revelou o poder da fé que Maria viveu. A força de Sua fé revela a maneira ascética de Sua vida, pois a força da fé se manifesta na aceitação da vontade de Deus com humildade e sem medo ou hesitação. Deus provavelmente quis que a Festa da Anunciação deste ano ocorresse durante a Semana Santa porque a festa expressa o objetivo da Quaresma: a purificação da vontade pessoal do homem através da conquista da humildade extrema e também através da conquista de níveis extremos de fé.
Assim, a fé de Maria foi um mistério que pôs fim à ingratidão de Eva, quando Ela aceitou que a salvação brotaria d´Ela. Pelas ações de Maria, Cristo veio e Adão desapareceu; a filiação da Igreja foi restaurada em lugar do exílio do Paraíso. A anunciação do anjo anulou a tentação da serpente e concedeu a vida eterna.
Arquimandrita Gregorios (Estephan)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






