A DIFERENÇA ENTRE A ESPIRITUALIDADE ORTODOXA E OUTRAS TRADIÇÕES – PARTE 1

O que dissemos até agora indica claramente que a espiritualidade ortodoxa se diferencia distintamente de qualquer outra “espiritualidade” de tipo oriental ou ocidental. Não pode haver confusão entre as várias espiritualidades, porque a espiritualidade ortodoxa é teantrópica [isto é, centrada no Deus-homem], enquanto todas as outras são centradas no homem.

Essa diferença aparece principalmente no ensinamento doutrinal. Por essa razão, colocamos “Ortodoxa” antes da palavra “Igreja”, para distingui-la de qualquer outra religião. Certamente, “Ortodoxa” deve estar vinculada ao termo “Eclesiástica”, pois a Ortodoxia não pode existir fora da Igreja; da mesma forma, a Igreja também não pode existir fora da Ortodoxia.

Os dogmas são os resultados das decisões tomadas nos Concílios Ecumênicos sobre vários assuntos de fé. São chamados de dogmas porque traçam os limites entre a verdade e o erro, entre a doença e a saúde. Os dogmas expressam a verdade revelada. Eles formulam a vida da Igreja. Assim, por um lado, são a expressão da Revelação e, por outro, atuam como “remédios” para nos conduzir à comunhão com Deus; à nossa razão de ser.

As diferenças dogmáticas refletem diferenças correspondentes na terapia. Se uma pessoa não segue o “caminho certo”, nunca poderá alcançar seu destino. Se não toma os “remédios” adequados, nunca poderá adquirir saúde; ou seja, não experimentará os benefícios terapêuticos. Novamente, se compararmos a espiritualidade ortodoxa com outras tradições cristãs, a diferença na abordagem e no método de terapia torna-se mais evidente. Um ensinamento fundamental dos Santos Padres é que a Igreja é um “Hospital” que cura o homem ferido. Em muitas passagens da Sagrada Escritura, essa linguagem é utilizada. Uma dessas passagens é a parábola do Bom Samaritano: “Mas um samaritano que ia de viagem chegou onde ele estava e, ao vê-lo, teve compaixão dele. Aproximou-se, tratou seus ferimentos, derramando neles óleo e vinho. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: ‘Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as suas despesas’” (Lc 10, 33-35).

Nesta parábola, o Samaritano representa Cristo, Que curou o homem ferido e o levou à hospedaria, que é o “Hospital”, ou seja, a Igreja. É evidente aqui que Cristo é apresentado como o Médico, o curador das enfermidades do homem, e a Igreja como o verdadeiro Hospital.

É muito característico que São João Crisóstomo, ao analisar esta parábola, apresente essas verdades enfatizadas acima.

A vida do homem “no Paraíso” fora reduzida a uma vida governada pelo diabo e suas ciladas. “E caiu nas mãos de ladrões”, ou seja, nas mãos do diabo e de todas as forças hostis. As feridas que o homem sofreu são os vários pecados, como diz o profeta David: “Minhas feridas fétidas e purulentas crescem por causa da minha insensatez” (Sl 37). Pois “todo pecado causa um machucado e uma ferida”. O Samaritano é o próprio Cristo, Que desceu à terra vindo do Céu para curar o homem ferido. Ele usou óleo e vinho para “tratar” as feridas; em outras palavras, ao “misturar Seu sangue com o Espírito Santo, Ele trouxe o homem à vida”. Segundo outra interpretação, o óleo corresponde à palavra de conforto, e o vinho à palavra de correção. Misturadas, elas têm o poder de unificar a mente dispersa. “Ele o colocou sobre Sua própria montaria”, isto é, assumiu a carne humana “sobre os ombros” de Sua Divindade e ascendeu encarnado ao Pai no Céu. Em seguida, o Bom Samaritano, ou seja, Cristo, levou o homem à grande, maravilhosa e espaçosa hospedaria – a Igreja. E entregou o homem ao hospedeiro, que é o Apóstolo Paulo, e através dele a todos os bispos e sacerdotes, dizendo: “Cuidem do povo gentio, que Eu lhes confiei na Igreja. Eles sofrem de enfermidades causadas pelo pecado, portanto curem-nos, usando como remédios as palavras dos Profetas e o ensinamento do Evangelho; tornem-nos saudáveis através das admoestações e palavras de consolo do Antigo e do Novo Testamentos”.

Assim, segundo São Crisóstomo, Paulo é aquele que mantém as Igrejas de Deus, “curando todas as pessoas por meio de suas admoestações espirituais e oferecendo a cada uma delas o que realmente necessitam” 1.

Na interpretação dessa parábola pelo Boca de Ouro, fica claramente demonstrado que a Igreja é um Hospital que cura as pessoas feridas pelo pecado; e que os bispos e sacerdotes são os terapeutas do povo de Deus.

E este é precisamente o trabalho da Teologia Ortodoxa. Quando nos referimos à Teologia Ortodoxa, não estamos simplesmente falando de uma história da teologia. Esta história é, claro, uma parte da teologia, mas não de forma absoluta ou exclusiva. Na tradição patrística, os teólogos são aqueles que contemplam a Deus. São Gregório Palamas chama Barlaão de teólogo, mas enfatiza claramente que a teologia intelectual difere grandemente da experiência da visão de Deus. Segundo São Gregório Palamas, os teólogos são aqueles que contemplam a Deus; os que seguiram o “método” da Igreja e alcançaram a fé perfeita, a iluminação do nous e a deificação (theosis). A teologia é o fruto da cura do homem e o caminho que conduz à cura e à aquisição do conhecimento de Deus.

A teologia ocidental, no entanto, diferenciou-se da teologia ortodoxa oriental. Em vez de ser terapêutica, ela é mais intelectual e emocional em seu caráter. No Ocidente, a teologia escolástica evoluiu, o que é antitético à Tradição Ortodoxa. A teologia ocidental baseia-se no pensamento racional, enquanto a Ortodoxia é hesicasta. A teologia escolástica tentou compreender logicamente a Revelação de Deus e conformar-se à metodologia filosófica. Característica de tal abordagem é o dito de Anselmo de Cantuária: “Creio para entender”. Os escolásticos reconheciam a Deus como premissa e, em seguida, buscavam provar Sua existência por meio de argumentos lógicos e categorias racionais. Na Igreja Ortodoxa, como expressado pelos Santos Padres, a fé é Deus Se revelando ao homem. Aceitamos a fé ao ouvi-la, não para compreendê-la racionalmente, mas para purificar nossos corações, alcançar a fé pela teoria 2 (theoria – contemplação) e experimentar a Revelação de Deus.

A teologia escolástica alcançou seu ponto culminante na figura de Tomás de Aquino, um santo da Igreja Católica Romana. Ele afirmava que as verdades cristãs se dividem em naturais e sobrenaturais. As verdades naturais podem ser provadas filosoficamente, como a existência de Deus. Já as verdades sobrenaturais — como o Deus Trino, a Encarnação do Logos e a ressurreição dos corpos — não podem ser provadas filosoficamente, mas também não podem ser refutadas. O escolasticismo vinculou a teologia muito de perto com a filosofia, especialmente com a metafísica. Como resultado, a fé foi alterada, e a teologia escolástica caiu em completo descrédito quando o “ídolo” do Ocidente — a metafísica — colapsou. O escolasticismo é responsável por grande parte da situação trágica criada no Ocidente em relação à fé e às questões de fé.

Os Santos Padres ensinam que as categorias naturais e metafísicas não existem, mas falam, em vez disso, do criado e do incriado. Nunca os Santos Padres aceitaram a metafísica de Aristóteles. No entanto, não é minha intenção expor mais sobre isso. Os teólogos do Ocidente, durante a Idade Média, consideravam a teologia escolástica como um desenvolvimento posterior da teologia dos Santos Padres, e a partir desse ponto, começa o ensino dos francos de que a teologia escolástica é superior à dos Santos Padres. Consequentemente, os escolásticos, que se ocupam da razão, consideram-se superiores aos Santos Padres da Igreja. Eles também acreditam que o conhecimento humano, um subproduto da razão, é mais elevado do que a Revelação e a experiência. É dentro desse contexto que deve ser visto o conflito entre São Gregório Palamas e Barlaão. Barlaão era essencialmente um teólogo escolástico que tentou transmitir a teologia escolástica para o Oriente Ortodoxo.

Suas opiniões — de que não podemos realmente saber quem é exatamente o Espírito Santo (o que resulta em agnosticismo), de que os filósofos gregos antigos são superiores aos Profetas e aos Apóstolos (já que a razão está acima da visão dos Apóstolos), de que a luz da Transfiguração é algo criado e que pode ser desfeita, de que o modo de vida hesicasta (ou seja, a purificação do coração e a incessante oração noética) não é essencial — são pontos de vista que expressam uma visão escolástica e, subsequentemente, secularizada da teologia. São Gregório Palamas previu o perigo que essas opiniões representavam para a Ortodoxia e, por meio do poder e da energia do Espírito Santo e da experiência que ele próprio havia adquirido como sucessor dos Santos Padres, enfrentou esse grande perigo e preservou a fé e a tradição ortodoxas sem adulterações 3.

Tendo dado um quadro ao tema em questão, se a espiritualidade ortodoxa for examinada em relação ao Catolicismo Romano e ao Protestantismo, as diferenças são imediatamente descobertas.

______________________

1 Cf. PG 62, 755-757.

2 Theoria: A theoria (teoria) é a visão da glória de Deus. A teoria é entendida como a visão da Luz incriada, a energia incriada de Deus, com a união do homem com Deus, ou seja, com a própria theosis (deificação) do homem. Assim, teoria, visão e theosis estão intimamente conectadas.

3 Cf. Gregório Palamas, Em Defesa dos Santos Hesicastas, ed. Christou vol. 1 (Tessalônica, 1962).


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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