Os protestantes não têm uma tradição de “tratamento terapêutico”. Eles supõem que acreditar em Deus, intelectualmente, constitui a salvação. No entanto, a salvação não é uma questão de aceitação intelectual da verdade; ao contrário, é a transformação e deificação da pessoa pela graça. Essa transformação é realizada pelo “tratamento” análogo da personalidade, como será adiante. Nas Sagradas Escrituras, a fé vem pelo ouvir a Palavra e pela experiência da “teoria” (visão de Deus). Aceitamos a fé inicialmente ouvindo para sermos curados, e depois atingimos a fé pela teoria, que salva o homem. Os protestantes, por acreditarem que a aceitação das verdades da fé, a aceitação teórica da Revelação de Deus, ou seja, a fé pelo ouvir, salva o homem, não têm uma “tradição terapêutica”. Poderia-se dizer que tal concepção de salvação é muito ingênua.
Os católicos romanos também não possuem a perfeição da tradição terapêutica que a Igreja Ortodoxa tem. Sua doutrina do Filioque 1 é uma manifestação da fraqueza em sua teologia para compreender a relação existente entre a pessoa e a sociedade. Eles confundem as propriedades pessoais: o “não gerado” do Pai, o “gerado” do Filho e a processão do Espírito Santo. O Pai é a causa da “geração” do Filho e da processão do Espírito Santo.
A fraqueza dos latinos em compreender e a falha em expressar o dogma da Trindade mostra a inexistência da teologia empírica. Os três discípulos de Cristo (Pedro, Tiago e João) contemplaram a glória de Cristo no Monte Tabor; ouviram de uma vez a voz do Pai: “Este é o Meu Filho amado” e viram a vinda do Espírito Santo em uma nuvem — pois a nuvem é a presença do Espírito Santo, como diz São Gregório Palamas. Assim, os discípulos de Cristo adquiriram o conhecimento do Deus Triúno pela “teoria” (visão de Deus) e pela revelação. Foi revelado a eles que Deus é uma essência em três hipóstases.
É isso que ensina São Simeão, o Novo Teólogo. Em seus poemas, ele proclama repetidamente que, ao contemplar a Luz incriada, o homem deificado adquire a Revelação de Deus, a Trindade. Estando em “teoria” (visão de Deus), os Santos não confundem os atributos hipostáticos. O fato de que a tradição latina chegou ao ponto de confundir esses atributos hipostáticos e ensinar que o Espírito Santo procede também do Filho mostra a inexistência de uma teologia empírica para eles. A tradição latina também fala de graça criada, o que sugere que não há experiência [direta] da graça de Deus. Pois, quando o homem obtém a experiência de Deus, ele passa a compreender bem que essa graça é incriada 2. Sem essa experiência, não pode haver uma verdadeira “tradição terapêutica”.
E de fato, não podemos encontrar em toda a tradição latina o equivalente ao método terapêutico da Ortodoxia. O nous não é mencionado; tampouco é distinguido da razão. O nous obscurecido não é tratado como uma doença, e a iluminação do nous, como terapia. Muitos textos latinos amplamente divulgados são sentimentais e se esgotam em uma ética estéril. Na Igreja Ortodoxa, ao contrário, existe uma grande tradição sobre esses temas, que demonstra que nela existe o verdadeiro método terapêutico.
A fé é uma verdadeira fé na medida em que possui benefícios terapêuticos. Se ela é capaz de curar, então é uma verdadeira fé. Se não cura, não é uma verdadeira fé. O mesmo pode ser dito sobre a Medicina: um verdadeiro cientista é o médico que sabe como curar, e seu método tem benefícios terapêuticos, enquanto um charlatão é incapaz de curar. O mesmo se aplica no que diz respeito às questões da alma. A diferença entre a Ortodoxia e a tradição latina, bem como as confissões protestantes, é aparente principalmente no método de terapia. Essa diferença se manifesta nas doutrinas de cada denominação. Os dogmas não são filosofia, assim como a teologia não é a mesma coisa que filosofia.
Já que a espiritualidade ortodoxa se diferencia nitidamente das “espiritualidades” de outras confissões, ela difere ainda mais da “espiritualidade” das religiões orientais, que não acreditam na natureza teantrópica de Cristo e na Santíssima Trindade. Elas são influenciadas pela dialética filosófica, que na Teologia Ortodoxa foi superada pela Revelação de Deus. Essas tradições não conhecem a noção de pessoa e, portanto, o princípio hipostático. E o amor, como um ensinamento fundamental, está totalmente ausente. Pode-se encontrar, claro, nessas religiões orientais, um esforço por parte de seus seguidores para se despojar de imagens e pensamentos racionais, mas isso é, na verdade, um movimento em direção ao nada, à não-existência. Não há um caminho que leve seus “discípulos” à teose-deificação 3 — à deificação de todo o homem. Há muitos elementos de “espiritualidade” demoníaca nas religiões orientais.
É por isso que existe uma lacuna vasta e caótica entre a espiritualidade ortodoxa e as religiões orientais, apesar de certas semelhanças externas na terminologia. Por exemplo, as religiões orientais podem empregar termos como êxtase, despaixão, iluminação, energia noética, etc., mas estão impregnados de um conteúdo diferente dos termos correspondentes na espiritualidade ortodoxa.
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1 “Filioque” significa “e do Filho”, e diz respeito à adição ao Credo que o ocidente latino fez. No Credo alterado, é dito que o Espírito Santo procede do Pai “e do Filho” (Filioque). Segundo a teologia trinitária patrística, no entanto, as pessoas da Trindade são distinguidas pelas suas características hipostáticas (pessoais): o Pai é a “fonte”, gerando o Filho e fazendo proceder o Espírito Santo; o Filho é gerado pelo Pai; o Espírito Santo procede do Pai.
O oriente ortodoxo contestou a ideia de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho argumentando que, em Deus, qualquer característica ou diz respeito à própria essência divina, e portanto é comum às três pessoas (como, por exemplo, a eternidade, o poder, a glória etc.), ou diz respeito unicamente à pessoa (do Pai ou do Filho ou do Espírito Santo). Ao postular que o Espírito Santo procede do Pai e Filho, os latinos criaram uma característica que é compartilhada pelo Pai e pelo Filho (isto é, ser a origem do Espírito Santo), mas que não é compartilhada pelo Espírito Santo. Se o Pai e o Filho possuem em comum algo que não é comum ao Espírito, segue-se que o Espírito Santo não compartilha a mesma essência divina do Pai e do Filho. Desse modo, o oriente ortodoxo (principalmente na figura de São Fócio, Patriarca de Constantinopla) rejeitou o Filioque como explicação para as relações intratrinitárias, fazendo uma distinção entre esta e a manifestação econômica (ou seja, ao longo do plano da salvação na história) do Espírito Santo, quando Ele foi enviado por Cristo após a Sua Ascensão. [N.T.]
2 Esta polêmica diz respeito ao ensino latino de que a graça de Deus é algo criado e, portanto, distinto de Deus. A Tradição Ortodoxa, por outro lado, ensina que a graça de Deus é um dom da própria vida divina, o que possibilita uma união real e direta com Deus e “participação na natureza divina” (2 Pedro 1:4). [N.T.]
3 Teose (theosis) – Deificação: É a participação na graça incriada de Deus. A deificação é identificada e conectada com a teoria (visão) da Luz incriada. É chamada de deificação pela graça porque é alcançada através da energia da graça divina. É uma cooperação de Deus com o homem, pois Deus é Aquele que opera e o homem é aquele que coopera.
Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório (Siqueira)







