“Ele não só confessou, como também demonstrou vontade de reparar o erro que cometeu, e não só prometeu isso, como cumpriu a promessa.”
A leitura do Evangelho de hoje trata da conversão de Zaqueu, o cobrador de impostos (Lucas 19:1-10). Os eventos deste Evangelho se passam quando Jesus passou por Jericó, sua última parada antes de chegar a Jerusalém (Lucas 19:28).
Ao chegar a Jericó, Jesus encontrou um cego sentado à beira da estrada, pedindo esmola. O homem pediu a Jesus o dom da visão, e Jesus o curou da cegueira física e também lhe devolveu a visão espiritual. O Evangelho diz que “imediatamente o viu e o seguiu, enquanto Jesus glorificava a Deus” (Lucas 18:43).
Em seguida, acompanhamos Cristo em Sua jornada para encontrar Zaqueu. O evangelista Lucas o descreveu como “o chefe dos publicanos, e ele era rico”. Os publicanos arrecadavam impostos de comerciantes e outros, que eram pagos ao tesouro de Roma. Essa era a principal razão pela qual essa classe de publicanos era desprezada pelos judeus, o que faz sentido, pois eles representavam a soberania de Roma, e os publicanos frequentemente superestimavam os impostos para embolsar o excedente. Os mestres da lei judaica os classificavam na mesma categoria que pecadores e ladrões (Lucas 5:30; 7:34) e os consideravam agentes que vendiam seus serviços ao estado estrangeiro colonizado para acumular riquezas às custas de seu povo.
O Senhor Jesus usou o “cobrador de impostos” como modelo para o homem arrependido. Através da Parábola do Fariseu e do Cobrador de Impostos, vemos que Ele repreendeu a pretensão de justiça própria do fariseu e aceitou a humildade e o arrependimento do cobrador. Ele também não hesitou em escolher um cobrador de impostos para estar na classe dos doze apóstolos, sendo esse Mateus. Cristo considerou a porta do arrependimento aberta a todos. Quando a pergunta foi feita aos discípulos: “Por que o mestre de vocês come com cobradores de impostos e pecadores?”, Ele respondeu: “Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes; porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento” (Lucas 5:32).
O primeiro obstáculo era que a multidão não acolhia a presença de um homem “pecador” entre eles, e o segundo era a sua baixa estatura, não apenas física, mas também espiritual. Contudo, esses obstáculos não o impediram de praticar o que era considerado um ato infantil e vergonhoso, que não se adequava ao comportamento esperado de um “chefe dos cobradores de impostos”. Zaqueu não se importava com o que as pessoas diriam a seu respeito, com as críticas e zombarias. Ele simplesmente desejava ver Jesus, o que o levou a subir na figueira brava. Mas lemos que, antes mesmo de Zaqueu avistar Jesus, Cristo já o havia visto. Da mesma forma, o Senhor sempre nos aguarda, contanto que veja que estamos dispostos e ansiosos para encontrá-Lo.
Jesus o chamou, dizendo: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa”. São Cirilo de Alexandria disse: “Ele viu a alma do homem esforçando-se sinceramente para viver uma vida santa e o converteu à piedade”.
Nesse momento, após ser convidado por Cristo a descer da cruz, Zaqueu apressou-se e desceu, ansioso para receber Jesus em sua casa. A respeito disso, o Bem-aventurado Agostinho disse: “O Senhor, que já acolhera Zaqueu em seu coração, estava agora pronto para ser acolhido por ele em sua casa”.
Nenhum dos esforços e empenhos de Zaqueu foi em vão, pois Jesus o escolheu dentre a grande multidão que o cercava para entrar em sua casa e receber a bênção e a salvação. Devemos observar que, quando Cristo disse “hoje devo…”, Ele não estava falando de forma impositiva. Isso nos mostra como o Senhor valoriza cada tentativa humana, por menor ou aparentemente insignificante que seja, e a completa com iniciativa divina, o que na literatura cristã é chamado de sinergia ou cooperação entre os esforços humanos e divinos.
Ao longo da Bíblia, vemos que cada vez que o Senhor Jesus aceita um pecador, isso é recebido com reclamações das multidões. Este incidente não foi uma exceção. O evangelista Lucas diz: “Quando ele viu as multidões, elas murmuraram, dizendo que Ele havia entrado na casa de um pecador”. Mas essa atitude hostil da multidão não impediu Zaqueu de seguir seu caminho rumo ao arrependimento completo. Ninguém que vê Jesus pode permanecer na maldade por mais tempo. Zaqueu se levantou e disse a Cristo: “Aqui darei metade do meu dinheiro aos pobres, e se defraudei alguém em alguma coisa, devolverei quatro vezes mais”. Zaqueu não esperou pelo julgamento da lei, mas fez de si mesmo seu próprio juiz.
Este cobrador de impostos praticou o que é conhecido na igreja primitiva como confissão pública. Ele demonstrou verdadeiro arrependimento (Metanoia), que em sua essência é simplesmente uma mudança de mentalidade, uma mudança de estilo de vida. Zaqueu demonstrou genuíno arrependimento por meio de suas ações, não apenas por meio de suas palavras. Ele não apenas confessou, mas também demonstrou disposição para reparar o erro que havia cometido, e não apenas prometeu isso, como cumpriu. Pois ele não disse: “Darei metade e restituirei quatro vezes mais”, mas sim: “Dou e restituo”.
Essa confissão e atitude de arrependimento foram suficientes para que Cristo o aceitasse, dizendo: “Hoje a salvação foi alcançada nesta casa”. “Ele também é filho de Abraão”, não como um dos descendentes de Abraão segundo o corpo, mas como filho de Abraão segundo a fé. O Senhor Jesus retorna e lembra à multidão e aos seus discípulos a essência do Seu ministério e mensagem: “Porque o Filho do Homem veio chamar e salvar o que havia perecido”. Foi esse chamado ao arrependimento, “Arrependam-se!”, que se tornou o ponto de partida do ministério de Cristo.
Para Jesus, Zaqueu não era apenas um cobrador de impostos pecador, mas também um projeto de arrependimento. Cristo o viu de forma diferente da multidão. Ele o viu com um olhar de compaixão, amor e aceitação, e foi esse olhar que levou Zaqueu a abrir seu coração ao arrependimento e, em seguida, sua casa para aceitar Jesus como Salvador.
Nós, cristãos, devemos nos assemelhar a Zaqueu para vencer a multidão que nos impede de ver Cristo. Devemos nos humilhar para superar nossa limitada estatura espiritual e buscar uma “serra sicômoro” para escalar e alcançar esse encontro entre nosso Salvador e nós mesmos.
São Teofilácto de Ohrid disse: “Digam o que quiserem, mas, por nossa parte, subamos na figueira brava e vejamos Jesus. A razão pela qual vocês não conseguem ver Jesus é porque têm vergonha de subir na figueira brava. Nós não devemos ter vergonha da cruz de Cristo.”
Amém.
Metropolita Basilios (Kodseie) de Austrália, Nova Zelândia e Filipinas
tradução de monja Rebeca (Pereira)








