O Natal já passou para a maioria das pessoas, mas os 250 milhões de cristãos ortodoxos do mundo estão em algum lugar no meio das comemorações.
Metade deles ainda usa um calendário antigo, 13 dias atrasado em relação ao calendário ocidental. Para os fiéis na Rússia, Sérvia, Geórgia e Terra Santa, o Natal foi celebrado no dia 7 de janeiro.
Não para mim. Eu pertenço à Igreja Ortodoxa na América, fundada há 200 anos como uma missão de evangelização entre os americanos.
Nossas paróquias (incluindo a de São Miguel em Bessemer) geralmente seguem o calendário gregoriano, adotado no Ocidente e pelos ortodoxos na Grécia, Síria, Romênia, etc.
Para nós, o Natal terminou em 31 de dezembro, após oito dias. Nossas comemorações, porém, não terminaram aí.
Em 1º de janeiro, celebramos o próximo evento importante na vida de Cristo: Sua Circuncisão.
Para muitos leitores, mesmo cristãos, a ideia de celebrar a remoção do prepúcio do Logos Encarnado pode parecer um pouco tola, até mesmo constrangedora — mas para nós, a Circuncisão de Cristo na carne é indispensável para a salvação.
Sem ela, Jesus não poderia ter sido o Messias predito pelos profetas, pois Ele nem sequer seria um verdadeiro filho de Abraão. Nem poderia ter feito de Seus seguidores os destinatários da aliança de Deus com Abraão.
Em Gênesis, Deus promete a Abraão uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu. Com ele, eles herdarão uma terra prometida.
Para os primeiros cristãos, os Pais da Igreja e os ortodoxos de hoje, a primeira promessa se cumpriu na proliferação dos discípulos de Cristo por todo o mundo, oriundos de todas as raças e nações.
A segunda promessa — referente à terra — não corresponde a qualquer pedaço de terra, mas ao reino celestial, do qual a Igreja é uma antecipação.
Nada disso seria possível sem que Jesus tivesse sido circuncidado no oitavo dia, conforme ordenado por Sua própria lei.
Os primeiros cristãos entendiam esse ato como o cumprimento de toda circuncisão. Os fiéis subsequentes seriam inscritos na promessa de Deus por meio do batismo, tanto como convertidos adultos quanto como bebês no 40º dia após o nascimento.
São Paulo escreveu aos Colossenses sobre o Batismo como a Nova Circuncisão — uma circuncisão espiritual da carne, que envolve o corte do pecado e da paixão.
Isso tudo é um assunto bastante complexo para uma coluna, eu imagino, mas espero que você consiga ao menos ter uma ideia do porquê os ortodoxos consideram a Circuncisão de Cristo algo digno de celebração. Espero que isso impeça o seu riso.
Há alguns anos, eu conversava sobre o nosso calendário litúrgico com um padre católico em Pueblo, que era (e é) um amigo. Ficamos surpresos ao descobrir quantas festas de Cristo e da Virgem Maria ainda compartilhamos — um legado do primeiro milênio indiviso da Cristandade. Em certo momento, meu amigo comentou: “Você acreditaria que costumávamos celebrar a circuncisão de Cristo em 1º de janeiro?”
“Padre”, respondi, “ainda fazemos isso”.
E não tenho a menor vergonha disso.
Sacerdote Barnabas Powell
tradução de monja Rebeca (Pereira)







