A Relação entre a Bíblia e a Igreja
Muitas coisas estranhas e até mesmo absurdas têm sido ditas sobre a Bíblia hoje em dia em filmes, romances e na mídia. Frequentemente, são pouco mais do que tentativas sensacionalistas de ganhar dinheiro. Mas simplesmente não são verdadeiras. E nós, como cristãos ortodoxos, precisamos conhecer o suficiente sobre a Bíblia para reconhecer isso! Vamos analisar como nós, cristãos ortodoxos, entendemos a Bíblia e gostaria de começar oferecendo duas citações de dois pregadores e professores ortodoxos renomados sobre a relação entre a Bíblia e a Igreja:
“Na grande Tradição da Igreja Ortodoxa, a Bíblia é a fonte central da verdade e o fator mais criativo por trás do culto, da doutrina e da prática da Igreja. Os grandes Padres e santos da Igreja viam a Bíblia como um oceano de mistérios divinos, de amplitude inesgotável e profundidade surpreendente.” – Padre Theodore Stylianopoulos.
“A Bíblia é o livro da Igreja. É a principal autoridade escrita dentro da Igreja – não acima ou à parte dela. Tudo na Igreja deve ser bíblico: pois a Igreja, para ser Igreja, deve ser totalmente expressiva da Bíblia. A Bíblia vive na Igreja! Sem a Igreja, não haveria Bíblia. A Igreja dá vida à Bíblia como livro. Ela faz o livro ganhar vida!” – Padre Thomas Hopko.
Assim, os cristãos ortodoxos entendem a Bíblia como central para a vida, o ensino e o culto da Igreja; e a vida, o ensino e o culto da Igreja como totalmente expressivos da Bíblia.
O que é a Bíblia?
A Bíblia não é apenas um único livro, mas uma biblioteca inteira de livros contendo muitos tipos diferentes de escritos: poesia, orações, hinos, narrativas históricas, biografias, profecias, cartas, provérbios, canções de amor e muito, muito mais. Portanto, a Bíblia contém uma rica variedade de livros, autores e conteúdos. Alguns dos autores sagrados permanecem anônimos. Outros, como Moisés, David, Mateus, Marcos, Lucas e João, são nomes conhecidos. Em certos casos, os livros foram produzidos por um processo de compilação, revisão e fusão de várias tradições orais e escritas. Mas o que constitui o tema unificador de todos esses diferentes tipos de escritos? A Bíblia – literalmente, o Livro – é, antes de tudo, a história do amor de Deus por Sua criação, Seu amor pela raça humana, Seu amor por você e por mim, começando com a criação do universo em Gênesis, continuando com a formação do povo de Israel e o envio de Seus profetas no Antigo Testamento; E, “nestes últimos dias” (Hebreus 1:1), o envio de Seu Filho, “o Verbo que Se fez carne” (João 1:14) em Jesus Cristo, para nos salvar e redimir do pecado e da morte; e, finalmente, no Dia do Juízo Final, a recriação do universo conforme descrito no Livro do Apocalipse.
A Bíblia nos diz:
1) quem Deus é e o que Ele fez por nós;
2) o que significa ser verdadeiramente um ser humano e qual o propósito da nossa vida;
3) como cada um de nós deve responder – com toda a nossa vida – ao que Deus fez por nós em Seu amor.
A Bíblia contém as respostas para as perguntas mais fundamentais que nós, como seres humanos, podemos fazer.
O Cânone da Bíblia: Muitas pessoas, inclusive muitos cristãos ortodoxos, não sabem que a Igreja Ortodoxa possui uma Bíblia maior do que as igrejas protestantes e católicas romanas. Em nossas Bíblias, como a Bíblia de Estudo Ortodoxa publicada recentemente, o Antigo Testamento contém mais livros do que se encontra, por exemplo, em Bíblias protestantes como a Bíblia do King James ou a muito mais recente e popular Nova Versão Internacional.
Os livros que faltam nas Bíblias protestantes são: 1º Esdras, Tobias, Sabedoria de Salomão, Judite, Baruque, Sabedoria de Sirácide, Epístola de Jeremias e 1º, 2º e 3º Macabeus. Outros livros da nossa Bíblia também são mais longos. Por exemplo, o livro de Daniel, no Antigo Testamento, inclui o Cântico dos Três Jovens na Fornalha, um belo hino cantado pelos cristãos ortodoxos na liturgia do Sábado Santo, mas que não se encontra nas versões protestantes do livro de Daniel. Assim, existem 39 livros no Antigo Testamento protestante; 46 livros no Antigo Testamento católico romano; e, segundo algumas estimativas, até 49 livros no Antigo Testamento ortodoxo.
Por que isso acontece? Você sabia que todos os livros do Novo Testamento foram originalmente escritos em grego? Quando São Paulo escreveu suas cartas aos Coríntios, Gálatas, Tessalonicenses e Romanos, ele as escreveu em grego. Quando os santos Mateus, Marcos, Lucas e João escreveram seus Evangelhos, eles os escreveram em grego.
Sempre que os autores dos livros do Novo Testamento, escrevendo em grego, citam passagens do Antigo Testamento, quase sempre o fazem a partir de uma tradução grega das Escrituras Hebraicas feita mais de 300 anos antes de Cristo na antiga cidade de Alexandria, no Egito, chamada Septuaginta ou Tradução dos Setenta (LXX). Essa tradução, amplamente utilizada pelo povo judeu na época de Cristo, era a versão do Antigo Testamento preferida pelos escritores apostólicos do Novo Testamento e, portanto, permanece até hoje o texto preferido do Antigo Testamento na Igreja Ortodoxa. A Septuaginta contém os livros do Antigo Testamento encontrados em nossas Bíblias que, sem entrar em muitos detalhes, foram rejeitados por reformadores protestantes como Martinho Lutero e João Calvino em seus debates com a Igreja Católica Romana no século XVI.
Todos os cristãos, no entanto, concordam com os 27 livros contidos no Novo Testamento, que foram listados pela primeira vez por Santo Atanásio, bispo de Alexandria, em uma encíclica (ou carta circular) escrita em 367 d.C. para as igrejas sob sua supervisão pastoral no Egito. Santo Atanásio é, de fato, uma figura fundamental no desenvolvimento do que hoje chamamos de Cânone do Novo Testamento, e celebramos sua festa em nossa Igreja todos os anos, no dia 18/31 de janeiro! Para conhecer a Bíblia e o Deus da Bíblia, precisamos lê-la! É lamentável que nós, cristãos ortodoxos, muitas vezes não lemos a Bíblia como deveríamos. Reverenciamos a Bíblia, mas não a lemos de fato. Essa é uma grande fraqueza em nossa vida espiritual pessoal e uma das razões pelas quais nossas Igrejas, como comunidades, muitas vezes são tão espiritualmente frágeis.
Há várias gerações, muitas pessoas, como meus avós, não sabiam ler nem escrever. A Bíblia precisava ser lida para elas. Não era algo que pudessem pegar e ler sozinhas. Mas isso não é mais verdade para a maioria dos cristãos ortodoxos que vivem nos EUA hoje. Um cristão ortodoxo que sabe ler, mas não lê a Bíblia diariamente, é uma contradição em termos.
Há mais de 1600 anos, um grande santo como João Crisóstomo (354-407 d.C.) pôde dizer: “A ignorância das Escrituras é um grande penhasco e um abismo profundo. Desconhecer as Escrituras é a causa de todos os males. Ler as Escrituras é como possuir um grande tesouro. Um cristão não pode deixar de ler as Escrituras. Ser cristão é se alegrar no poder do Espírito Santo, e o Espírito nos fala por meio das Escrituras.” Ou, como São Jerônimo (347-420 d.C.) disse de forma ainda mais direta: “A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo.” Alguém disse certa vez: “A maioria dos livros informa, alguns reformam, mas só a Bíblia transforma”. De fato, a Bíblia faz as três coisas! Ela nos informa sobre a história da relação de Deus com a humanidade e, mais especificamente, sobre o Seu amor por nós, expresso na encarnação, crucificação e ressurreição de Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. A Bíblia nos fornece a base para a nossa transformação, pois em suas páginas encontramos os ideais e padrões pelos quais devemos viver. E a Bíblia nos transforma porque nela nos deparamos com a graça e o poder de Jesus Cristo no Espírito Santo. Nesse sentido, a Bíblia é sacramental porque transmite a presença de Cristo no Espírito Santo.
“Sempre que você lê o Evangelho”, escreve São Tikhon de Zadonsk (1724-1783), “o próprio Cristo está falando com você. E enquanto você lê, você está orando e conversando com Ele”. Para nós, portanto, não se trata de Palavra e Sacramento, como alguns protestantes afirmam; antes, a própria Palavra é um Sacramento! Santo Agostinho (354-430 d.C.), bispo de Hipona, no norte da África, escrevendo em latim no final do século IV, fala do Sacramentum Scripturae, o “sacramento das Escrituras”. Pegar a Bíblia e lê-la nunca pode ser um ato neutro: devemos dizer sim ou não ao Deus Cuja mensagem está contida em suas páginas.
Um dos exemplos mais claros do texto bíblico transmitindo plenamente a presença de Cristo no Espírito Santo é a história contada pelo falecido Metropolita Anthony Bloom (1914-2003), um dos grandes escritores espirituais ortodoxos russos do século XX, sobre a primeira vez que pegou uma Bíblia na adolescência e o impacto que isso teve sobre ele:
“Encontrei Cristo como Pessoa num momento em que precisava dç Ele para viver, e num momento em que não O procurava. Fui encontrado; não O encontrei. Eu era adolescente na época. A vida tinha sido difícil nos primeiros anos e agora, de repente, tinha ficado mais fácil. Durante todos os anos em que a vida tinha sido difícil, achei natural, senão fácil, lutar; mas quando a vida se tornou fácil e feliz, deparei-me inesperadamente com um problema: não conseguia aceitar a felicidade sem propósito. As dificuldades e o sofrimento tinham de ser superados, havia algo para além deles. A felicidade parecia-me sem graça se não tivesse um significado mais profundo. Como acontece frequentemente quando se é jovem e se age com paixão, inclinado a possuir tudo ou nada, decidi que me daria um ano para ver se a vida tinha um sentido, e se descobrisse que não tinha nenhum, não viveria mais do que esse ano.
Um dia, durante a Quaresma, e eu sendo membro de uma das organizações juvenis russas em Paris, um dos nossos líderes veio ter comigo e disse: ‘Convidámos um padre para falar contigo, “Venha.” Respondi com violenta indignação que não viria. Não tinha qualquer interesse na Igreja. Não acreditava em Deus. Não queria perder meu tempo. Então, meu líder me explicou que todos do meu grupo haviam reagido exatamente da mesma forma, e que se ninguém comparecesse, todos ficaríamos envergonhados, pois o padre já havia vindo e seríamos desonrados se ninguém assistisse à sua palestra. Meu líder era um homem sábio. “Não dê ouvidos”, disse ele. “Não me importo, mas sente-se e esteja presente fisicamente.” Essa era a lealdade que eu estava disposto a dedicar à minha organização juvenil e essa a indiferença que eu estava disposto a oferecer a Deus e ao Seu pastor. Então, assisti à palestra, mas com crescente indignação e desgosto. Quando a palestra terminou, corri para casa para verificar a veracidade do que ele havia dito. Perguntei à minha mãe se ela tinha um livro dos Evangelhos. Eu não esperava nada de bom da minha leitura, então contei os capítulos dos quatro Evangelhos para ter certeza de que leria o mais curto, para não perder tempo desnecessariamente. E assim, foi o Evangelho segundo São Marcos que comecei a ler. Não sei como lhes contar o que aconteceu. Vou explicar de forma simples, e aqueles que já passaram por uma experiência semelhante saberão o que aconteceu. Enquanto eu lia o início do Evangelho de São Marcos, antes de chegar ao terceiro capítulo, percebi uma Presença. Não vi nada. Não ouvi nada. Não foi uma alucinação. Era uma certeza simples que o Senhor estava ali e que eu estava na Presença d´Aquele Cuja vida eu começara a ler com tanta repulsa e tanta má vontade. E a certeza era tão forte de que era Cristo ali que nunca me abandonou. Este foi o meu encontro fundamental e essencial com o Senhor. A partir de então, eu soube que Cristo existia. Eu soube que Ele era Ele, em outras palavras, que Ele era o Cristo Ressuscitado. Encontrei-me com a essência da mensagem cristã! Este foi o verdadeiro ponto de virada na minha vida.” O Metropolita Anthony, que mais tarde estudaria na Sorbonne, se tornaria médico, trabalharia com a Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, se tornaria monge, sacerdote e, por fim, bispo da Igreja Ortodoxa Russa na Inglaterra, foi levado a Cristo pelo poder sacramental do texto bíblico!
Sacerdote Steven Tsichlis
tradução de monja Rebeca (Pereira)








