Na Igreja Ortodoxa, a dor e todo tipo de sofrimento não são abolidos para os fiéis, mas adquirem um mérito completamente novo, são transformados. Através da nossa coragem, paciência, orações e da constante lembrança de Deus, este cálice amargo se transforma gradualmente no doce cálice da imortalidade. Por essa razão, a dor deixa de ser uma fonte de medo e horror para o cristão, tornando-se um vasto campo de trabalho e batalha. Tomemos como exemplo um atleta que participou de competições e venceu torneios: ao receber sua recompensa pela vitória, em êxtase, esquece todo o árduo trabalho realizado na preparação para as competições. Da mesma forma, um atleta de Cristo, antecipando a glória que será revelada (1 Pedro 5:1) e a futura recompensa no Reino dos Céus, esquece a amargura do sofrimento e da própria morte.
Portanto, devemos perseverar bravamente ao longo do caminho que nos foi proposto, durante o qual devemos suportar pacientemente tentações, tristezas e provações, pedindo força e consolo ao nosso Salvador, olhando para Jesus, o autor e consumador da nossa fé; o qual, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e está assentado à direita do trono de Deus (Hebreus 12:2).
E se recebermos esse grande dom de Deus para as pessoas — o sofrimento — da maneira correta, ele se tornará para nós a fonte de bênçãos. Quaisquer que sejam os sofrimentos que enfrentemos nesta era presente, nada se compara à recompensa futura no Reino dos Céus, como disse o apóstolo Paulo: “Os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” (Romanos 8:18). Se alguém quiser encontrar uma resposta nesta vida para a pergunta de por que Deus permitiu que determinada circunstância acontecesse, sua mente certamente se encherá de milhares de “porquês?”. Mas se ele encarasse seus males como uma provação necessária enviada por Deus para ser purificado, aperfeiçoado ou coroado na vida futura, então aceitaria o cálice do sofrimento das mãos do Senhor como uma bênção.
Esta é a resposta de Deus para o homem. O Senhor não faz ao homem a falsa promessa de que abolirá o sofrimento, mas promete transformar sua dor e, a partir de uma maldição, criar bênção e consolo.
Que ninguém suponha que os santos não sofreram e não foram submetidos a doenças físicas. As palavras de Santo Isaac, o Sírio, comprovam o contrário — em uma de suas homilias, ele diz o seguinte: “Vês a incontável multidão de santos da Igreja? Nenhum deles ascendeu ao Céu vivendo em prazer, mas todos ascenderam por meio de muitas dores”, carregando pacientemente a cruz que Deus lhes havia dado.
Cada um de nós carrega a sua própria cruz — todos nós, absolutamente todos nós, sem exceção, não importa quem sejamos, qual seja nossa posição na sociedade ou em qual parte do mundo estejamos. Mas mesmo que o Senhor não envie a cruz da paciência e da doença a alguns, eles ainda estão sujeitos a diversas dores e tribulações; carregando a cruz de seus pecados, lutando contra seu próprio inimigo interior — o “velho eu” (Ef 4,22) que os atormenta.
Neste caminho escuro e sem fim, somente Um pode iluminar nossa senda — e esse Um é, sem dúvida, nosso Senhor Jesus Cristo, crucificado na Cruz por amor a cada pessoa; a Luz e a consolação daqueles que carregam suas cruzes após Ele. Ele é Aquele que, no Santo Evangelho, se dirige a todos os que estão aflitos, enfermos ou sofrendo: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28).
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







