O terceiro domingo da Grande Quaresma é dedicado à meditação sobre o Santo Madeiro da Cruz. Ofereço esta meditação.
Os leitores do Novo Testamento estão familiarizados com a descrição de São Paulo de Cristo como o “Segundo Adão”. É um exemplo do uso frequente, pelos apóstolos, de uma leitura alegórica do Antigo Testamento (uso “alegoria” em seu sentido mais amplo – incluindo tipologia e outras formas). O próprio Cristo afirmou que Ele era o significado do Antigo Testamento (João 5:39). Nos Evangelhos, Cristo identifica Sua própria morte e ressurreição com a jornada do profeta Jonas no ventre do peixe. Ele compara Sua crucificação à serpente erguida em uma vara com a qual Moisés curou o povo de Israel. Sem o uso alegórico do Antigo Testamento, grande parte do material dos Evangelhos e do restante do Novo Testamento seria ininteligível.
Os cristãos ortodoxos estão muito habituados a esta forma de lidar com as Escrituras – a hinografia (em grande parte escrita durante o período patrístico) da vida litúrgica da Igreja é totalmente dominada por esse uso de alegorias. As conexões entre o Novo e o Antigo Testamento – entre o dogma e a alegoria das imagens bíblicas – encontram-se em quase todos os versículos apresentados num Serviço Litúrgico. Aqueles que não estão familiarizados com a vida litúrgica oriental desconhecem esta rica herança cristã e a sua profunda piedade e significado doutrinal.
Na festa da Santa Cruz, a hinografia, em certo ponto, afirma: “A Árvore cura a Árvore”. Trata-se de um dos maravilhosos comentários sobre a vida da graça e sua relação com a condição humana. Refere-se à relação entre a Cruz de Cristo e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Esta última foi a fonte do fruto que Adão e Eva comeram, o qual foi a causa de sua queda da graça. A “Árvore que cura” nada mais é do que a Cruz de Cristo.
Sinto-me particularmente impactado por essa abordagem da imagem bíblica. A meditação não diz que a Cruz destrói a árvore cujo fruto, juntamente com nossa desobediência, trouxe a tragédia humana. A Árvore cura a Árvore. Da mesma forma, o Reino de Deus não destrói a criação – ele a restaura.
Há uma tendência em nossas vidas de encarar o fracasso e os desastres (sejam eles autoinfligidos ou não) como grandes tragédias que comprometem nossas vidas e o mundo ao nosso redor. Nosso coração se confunde quando o pensamento do “se ao menos” se instala. Mas a Árvore cura a Árvore. Em Deus, nada se perde.
É um hábito espiritual da vida litúrgica da Igreja enxergar a história de Cristo em tudo. Toda história que envolve madeira ou uma árvore parece encontrar seu lugar na hinografia da Cruz. O mesmo acontece com muitas outras imagens. Creio que essa maneira de ler as Escrituras também é fundamental para a vida cristã. Nossos corações são tais que geralmente não enxergam o Reino de Deus – vemos apenas a árvore e nossa desobediência. Mas o próprio Cristo Se fez pecado para que pudéssemos nos tornar justiça de Deus (2 Coríntios 5:21). Ele tomou sobre Si a nossa vida para nos conceder a Sua própria. Assim, Cristo entrou em todas as coisas para fazer todas as coisas novas. Nada se perde.
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)








